19 de agosto de 2020

Os grandes erros dos Açores

Produção de leite (1)

Penso que a esmagadora maioria dos açorianos, pensa que é na produção leiteira que funciona o nosso mais importante sector gerador de riqueza e empregador de mão-de-obra regional, só que não é bem assim.
E porque penso que uma boa cidadania será tanto melhor quanto mais bem informada estiver sobre tudo aquilo que a rodeia social, cultural, e financeiramente, vou cumprir como meu dever de cidadania informando as pessoas sobre a grande verdade que os governantes teimam esconder, àqueles que lhes servem na manjedoura, o que comem com os nossos impostos, apenas com propósitos eleitoralistas.
Antes do 25 de Abril, podíamos não ser uma região rica, que de facto não éramos, mas tínhamos uma agricultura intensa apoiada por indústrias agro-alimentares fortes e profícuas, empregando uma quantidade invejável de mão-de-obra, importando cerca de 30% daquilo que necessitávamos para comer, e exportando quase 70% daquilo que produzíamos. 
São Miguel, antes da revolução dos cravos, era uma terra farta, onde a agricultura era trabalhada por homens, quais dedicados artistas, sabedores do seu ofício, cultivando a terra com mestria, com uma dedicação e devoção, como se uma religião fosse.
Até que veio o 25 de Abril e com esse evento a confusão da imposição política quase arrasando o acerto social que existia entre nós virado para a respeitabilidade.
Veio a nossa entrada na Comunidade Económica Europeia, e com ela  começou a época da destruição desse autêntico império construído pelos grandes homens que fizeram os Açores prosperar financeira e socialmente, fruto dum corajoso empreendorismo digno de registo. 
Como resultado, principalmente as grandes indústrias agro alimentares, ou foram compradas por gente de fora ou, simplesmente, desaparecerem fruto de uma política errada, alicerçada em chorudos subsídios, e cujas  regras nos encaminhariam para uma competição internacional, que acabadas as quotas leiteiras, nos causariam grandes amargos de boca. Com os programas comunitários de apoio para a reconversão para a produção leiteira, decretou-se, à custa de chorudos subsídios, a quase extinção da produção agrícola tradicional, nos Açores. Aliciados pelos subsídios, reconverteram-se praticamente todas as terras de pão, em pastagens, extinguindo-se culturas tradicionais de alta qualidade que até as exportávamos para outras partes do mundo, como a nossa fava para o longínquo Japão.
É sobre esta e outras questões que quero abordar, como exemplos, das aberrações cometidas as quais, só com muito custo e trabalho corrigiremos se existirem pessoas que queiram, como foram os nossos grandes empreendedores antepassados, olhar acima de tudo, para o progresso dos Açores.
Depois da revolução de Abril, os nossos governantes favoreceram, enganaram-se, e mentiram, olhando sempre à sua permanência no poder auxiliando-se, dos boys do partido que, gozando de privilégios especiais, pugnaram pela continuidade do mando estabelecido.
Fiz parte do estudo feito para aquilatar a produção média anual de leite, das vacas de cada ilha e chegámos à conclusão que, por exemplo, nas ilhas do Pico, e São Jorge, as médias se situavam em produções que não ultrapassavam os 3.500 kg/vaca/ano, e em São Miguel, com vacas cuja produção se situava na ordem dos 7.000 kg/vaca/ ano, era também, comparativamente à Europa, muito baixa.
Apontou-se para a importação maciça de milhares de novilhas, muitas delas prenhes, com altos pedigrees, vindas da Holanda, Alemanha, e Inglaterra, assim como uma espectacular reconversão agrária de muitos matos, e praticamente de todas as terras, ditas, de pão para se atingirem os números espectaculares de produções médias nos Açores, que se atingiram.
Esqueceram-se, todavia os governantes, que a política seguida quando terminassem as quotas leiteiras, enfrentaríamos graves problemas que só não são maiores pelos variados subsídios que existem para a produção pecuária.
Perante isso, embora muitos lavradores, devidamente estruturados, tenham alguns proventos, é a Região a ter enormes prejuízos com a produção de leite.
As contas são muito fáceis de se fazerem, senão vejamos:
Todos os componentes usados para o fabrico de rações nos Açores são importados pelo que só para a ilha de São Miguel importam-se cerca de 130 mil toneladas de milho, soja, e muitos bagaços de diferentes produtos. Acresce a isso a dependência que criamos na importação de praticamente tudo aquilo que necessitamos para comer, fruto do desvio das terras de pão para a pecuária. Assim as verbas que a Região gasta para se importarem os componentes para o fabrico de rações e os bens alimentares que se importam para alimentação humana, atingem números absurdamente altos, nunca compensados pelos nossos produtos lácticos.
Só um pequeno exemplo: quando sucedeu o começo da louca reconversão pecuária, nós exportávamos, através dos dois mais importantes exportadores micaelenses, cerca de 5 mil toneladas de batata por ano. Gastaram-se muitos milhões de escudos em infra estruturas para produzirmos batata de semente certificada internacionalmente, agora elefantes brancos, antro de ratazanas.
Qual será o deficit regional só para a importação de batata de semente e para consumo? Quanto se gasta em vegetais e leguminosas? E em componentes para rações?
Uma enormidade.

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Categorias: Opinião

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