19 de agosto de 2020

Política direcionada para a felicidade coletiva

Estamos em plena época de inauguraçõescom atos oficiais, em que os governantes se desdobram em cortar a fita em todos os recantos destas ilhas com grandes ou pequenas obras, o que é próprio destes períodos, apesar de constituir uma forma encapotada de campanha eleitoral, para umas eleições que não se sabe para quando serão, dado que Marcelo Rebelo de Sousa teima em não anunciar a sua data. 
Como é habitual, no período antecedente à data das eleições, também se começam umas obras, anunciam-se uns concursos, lançam-se umas primeiras pedras ao redor dos Açores, dando a sensação que agora é que vão avançar, anúncios de que tudo vai iniciar-se logo no mês seguinte ao ato eleitoral, porque o que é prometido é devido.
Depois é o que sabe, pois a democracia tem disto e todos nós já sabemos o que a casa gasta: esmorece o ímpeto concretizador, começarão as naturais demoras, surgirão as dificuldades, avançarão a seu tempo algumas das obras prometidas e cancelar-se-ão outras.
Desconhecendo-se ainda a data do escrutínio, anda, no entanto, pelos ares um forte cheiro a eleições. Com um indisfarçado nervosismo e forte ambição, os partidos já se encontram a olear as respetivas máquinas de propaganda, inundando-nos por uma avalanche de mensagens empolgantes, recheadas de promessas irrealistas. 
Neste período antecedente, será útil fazermos uma reflexão aturada em relação à nossa realidade política, contribuindo para que esta seja uma atividade nobre. JáAristóteles, o grande filósofo grego, entendia que a política é uma ciência, direcionada à polis, em que a ética deve estar preocupada com a felicidade individual do homem e a política propriamente dita direcionada para a felicidade coletiva. O objetivo principal da atividade e prática políticasdeveria ser a promoção do bem-estar dos cidadãos. 
No entanto, nos últimos tempos, o povo tem vindo a demonstrar uma certa repugnância pelos partidos e pela atividade política, porque muitos dos seusatores não passam, muitas vezes, de interesseiros e não vêm a política como supremo objetivo da felicidade humana, como atesta a primitiva filosofia aristotélica.
Por outro lado, as excessivas promessas eleitorais fazem com que muitos cidadãos já se encontram vacinados e fartos de serem desiludidos, em virtude de, após o ato eleitoral, alguns políticos se encerrarem nos seus gabinetes, só dando importância ao povo apenas durante as campanhas eleitorais. 
É por isso que vão cortando os laços com aqueles que lhes deram o voto, promovendo o afastamento da política e do dever de votar. Muito legitimamente o povointerroga-se para quê ir às urnas, se após as eleições, as promessas eleitorais proclamadas se esvaziam.
Fala-se muito da reforma do sistema eleitoral que não tem servidopara aprofundar a relação direta entre eleitores e eleitos e esta seria uma boa ocasião para, com serenidade, ir-se lançando alguma reflexão no sentido de se tentar uma reabilitação da política. Só deste modo se poderá lutar contra os populismos, que se alastram cada vez mais e também se os políticos servirem desinteressadamente os cidadãos, pelos quais foram eleitos.
Perante a degradação geral da política e dos políticos, procuremos inspiração nas palavras do Papa Francisco, uma voz respeitada pela sua lucidez e profundidade de pensamento, em relação à vida política, em que para ele a política deve ser consideradacomo um elevado grau de caridade, sendo bem executada, na justiça e na transparência democrática.
É de louvar os inúmeros políticos honestos e competentes, que abraçam as causas e estão por missão na gestão dos bens públicos. A atividade política é altamente nobre, só que a desilusão com os políticos e as políticas tem sido mais que muita. Por isso, devemos apoiar os mais competentes, os mais verdadeiros, os melhores entre os melhores, para assim se manter acesa a esperança num futuro melhor e mais risonho, principalmente para os vindouros. 

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Categorias: Opinião

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