São raras as casas micaelenses que não ostentam nas paredes uma fotografia de um evento importante para a família que ali vive. Seja um casamento, um baptizado ou comunhão, ou o acompanhamento do crescimento dos filhos ou netos, a fotografia continua a ser a forma de se imortalizar sorrisos, pessoas e acontecimentos. Mas longe vão os tempos em que os estúdios de fotografia tinham quase lista de espera para que pudessem retratar os vestidos de comunhão ou os fatos de baptizado, que depois seriam ricamente emoldurados e pendurados nas paredes da sala.
Mas já nos finais do século XIX, e de acordo com o Arquivo de Imagem dos Açores, da responsabilidade da Direcção Regional da Cultura, a fotografia era usada nos Açores aplicada a estudos científicos. O biólogo Francisco de Arruda Furtado (1854-1887) terá sido o primeiro a aplicá-la num estudo antropológico a nível nacional tendo reproduzido numa página várias fotografias com tipos fisionómicos de camponeses micaelenses.
Entre as duas Guerras Mundiais o crescimento da fotografia no arquipélago foi moderado e a partir dos anos 40 regista-se uma nova expansão da fotografia com inúmeros estabelecimentos a abrir portas. E é nessa altura, em 1943, que abre a Foto Nóbrega, no n. 74 da Rua Machado dos Santos, e cujo estúdio se manteve aberto até 2018. É pela objectiva de Gilberto Nóbrega, nascido no Funchal mas radicado em Ponta Delgada em 1942, que são retratados os momentos mais significativos da vida micaelense e açoriana da última metade do século XX, como é o caso da erupção do Vulcão dos Capelinhos, em 1957. Desde visitas ministros a visitas de artistas, como John Wayne ou Tony Ramos, do espólio de Gilberto Nóbrega fazem parte também muitas gerações de famílias micaelenses que ali foram retratadas e muitas das paisagens de São Miguel tiveram uma atenção especial por parte do fotógrafo que se dedicou à fotografia de alma e coração e que ainda hoje vê o seu nome associado a esta arte. Foi Gilberto Nóbrega o pioneiro em São Miguel a montar um estúdio de fotografia a cores e têm a sua assinatura muitas das fotografias que foram impressas como postais da ilha.
“Nóbrega era quase equiparado à Kodak. As pessoas pensavam que era marca de fotografia”, conta a filha mais nova, Graça Nóbrega, que apesar de não ter seguido as pisadas do pai – isso coube à irmã mais velha, Ana Nóbrega – ainda se recorda de “organizar os álbuns de casamento. Escolhia os álbuns e organizava-os depois de prontos. Mas eu estava mais no escritório”, recorda.
A irmã, Ana, é que seguiu o pai a nível profissional “e era muito boa. Também pinta muito bem, a óleo e retratos” e foi quem mais lidou de perto com a arte de Gilberto Nóbrega que foi mentor de muitos aprendizes que abriram depois estabelecimentos por conta própria.
Visionário, nos anos 50 adquiriu a Foto Toste – fundada Photographia Central em 1875 por José Pacheco Toste, um terceirense a residir em São Miguel, e que em 1900, com a filha Maria das Dores, viaja até aos Estados Unidos para aperfeiçoar o método de trabalho. Nos anos 20, é Maria das Dores juntamente com o marido Jacinto Óscar Dias Rego, quem assume a direcção da Photographia Central que passa a chamar-se Foto Toste. Além do estúdio fotográfico, passou também para Gilberto Nóbrega todo o espólio, nomeadamente cerca de 30 mil negativos, a juntar aos 800 mil negativos, em vidro e película, da Foto Nóbrega.
Um espólio histórico que tem vindo a degradar-se e que já apresenta alguns danos. “A família não tem capacidade para guardar e cuidar do espólio”, afirma Graça Nóbrega que garante que a maior parte dos negativos “de maior interesse” já estão passados para CD. Mas há muitos álbuns de provas, livros manuscritos e todo um acervo de décadas de fotografia que continuam a degradar-se “e ninguém se chega à frente” para conseguir resgatar da humidade pedaços da história dos Açores.
Graça Nóbrega recorda que já houve intenção de pôr mão àquele acervo mas, a nível municipal as verbas não chegam para levar a cabo a recuperação, e ao nível do Governo Regional já houve uma proposta para aquisição de todo o material. Mas o valor proposto “era irrisório” face às provas documentais da vivência açoriana do século XX e “os contornos” da proposta não agradaram à família que teria ainda de “pagar o IVA relativamente à compra”. E, confidencia Graça Nóbrega, quando outros espólios talvez nem tão importantes foram adquiridos pelo Governo Regional por alguns milhões de euros “sinto-me ofendida como filha e por saber o valor do material que temos”, perante uma proposta de pouco mais de 100 mil euros.
Diz que se sente impotente quando “toda a gente” aponta o dedo e reclama que todo o espólio “do Nóbrega” – como é ainda hoje carinhosamente tratado o estúdio de fotografia – deveria ser recuperado e que “é uma pena” estar assim. “Estava tudo muito bem arranjado e guardado, mas a nossa humidade não dá tréguas” e em espaços sem ventilação e refrigeração devora tudo muito mais depressa.
Em 2013, o Governo Regional dos Açores estabeleceu um protocolo de cooperação tripartido – entre a Direcção Regional da Cultura, os responsáveis pelo acervo fotográfico e o Instituto Cultural de Ponta Delgada – para salvaguarda do património fotográfico privado com interesse público mas que não envolveu a aquisição de nenhuma fotografia. Este protocolo permitiu disponibilizar, através da página do Instituto Cultural de Ponta Delgada, o acesso a cinco mil fotografias em suporte digital dos espólios de Gilberto Nóbrega e dos fotógrafos José Pacheco Toste e Jacinto Óscar Dias Rego.
As fotografias estão assim disponíveis ao público, no Arquivo Fotográfico Digital do Instituto Cultural de Ponta Delgada, mas continuam fisicamente a degradar-se no espaço que agora já se encontra encerrado mas que foi ponto de paragem obrigatório para muitas famílias, na Rua Machado dos Santos.
Nóbrega além da fotografia
É exactamente aí, no Espaço Nóbrega, que está actualmente uma pequena homenagem feita pela filha Graça ao fotógrafo que foi o primeiro a fazer edição de postais com paisagens e vivências dos Açores. Na entrada para o primeiro andar, que agora está encerrado, está uma imagem do fotógrafo com uma breve descrição da sua vida e de como a sua visão influenciou também a história da fotografia nos Açores.
Há uma enorme vitrine com recortes de jornais dando destaque à obra do fotógrafo. Há fotografias a preto e branco da frente marítima de Ponta Delgada ainda antes da construção da marginal, fotos da marginal povoada de carros antigos e, mais recentemente, uma visão ao anoitecer em tons laranja da mesma avenida marginal. Três fotografias, de três épocas diferentes. Há ainda fotografias de Gilberto Nóbrega com o actor John Wayne e da passagem do brasileiro Tony Ramos por Ponta Delgada. Há fotos de viagens, de eventos sociais na Região e de festas privadas da família, dos alicerces da construção do edifício do espaço Nóbrega, da imagem do Senhor Santo Cristo, e até de Gilberto Nóbrega ladeado do antigo Presidente do Governo Regional dos Açores, Mota Amaral, e do ex-Presidente do Governo Regional da Madeira, Alberto João Jardim.
Uma pequena homenagem “mais pessoal, não tanto do fotógrafo, mas do homem”, explica Graça Nóbrega que conta que quis contar um pouco da história do retratista mas também do pai e marido, naquele espaço que construiu e a que deu nome. Uma outra homenagem, explica Graça Nóbrega, é do logótipo do centro comercial Espaço Nóbrega “uma estrelícia” laranja, flor típica da Madeira, homenageando assim as raízes do pai.
O espaço mantém o nome da família, a pequena exposição fotográfica mantém-se à entrada do espaço, mas a família Nóbrega já não vive da fotografia. Os dois filhos de Ana Nóbrega, “têm muito jeito e que gostam muito de fotografar e que fotografam muito. Têm feito exposições e têm ganho concursos”, diz a filha de Graça, Maria, que ainda mantém um pequeno espaço de fotografia, “mas estúdio como antigamente já não existe. Acabou essa era. Agora é tudo no telemóvel, tira-se em casa e deixa-se no computador”, refere ao acrescentar que nos Açores já não se fazem revelações analógicas e no continente “são muito poucos os que ainda fazem”. O Estúdio Nóbrega manteve “até há quatro anos” a máquina das revelações analógicas ligada. “Revelávamos cerca de 10 rolos por ano” e, por vezes, nem isso, e a despesa que implicava manter o material a funcionar, juntamente com os químicos de revelação necessários, ditaram que se desligasse a máquina. “Em Ponta Delgada já ninguém revela rolos antigos e na Terceira, onde ainda se mantiveram até há uns anos atrás, também já não há quem faça”, lamenta Graça Nóbrega.
As novas tecnologias vieram dominar, e revolucionar, a fotografia. Se por um lado se torna mais barato e prático imprimir dezenas de fotos de uma só vez, por outro são os computadores os fiéis depositários das centenas de fotografias tiradas em pouco tempo com telemóveis e câmaras digitais. Agora fica tudo em suporte digital e acaba por se perder o gesto de reunir a família para rever os álbuns de fotografias. No Dia Mundial da Fotografia, que hoje se assinala, segurar fotografias em suporte físico é algo cada vez mais raro e que, possivelmente, as novas gerações ainda não experienciaram.