Pedro Tavares, Presidente da UNILEITE

“O abaixamento do preço do leite à produção resultou de vários factores (…). Todos os intervenientes devem reajustar a fileira do leite”

CE - Quais as repercussões para a Unileite/Lacyaçores por via da crise provocada  pela Covid-19?
PT - A produção de leite produzido em São Miguel não sofreu nenhum decréscimo com a pandemia, ao invés, continuamos a assistir ao aumento da produção. Esse aumento não foi acompanhado com o aumento do consumo dos produtos lácteos, o que naturalmente se traduziu num desequilíbrio entre a procura e a oferta.
Infelizmente face a esse desequilíbrio tivemos que tomar medidas de modo a minimizar essa situação.
No que se refere à área comercial, é reconhecido e notório que a pandemia criou incertezas nos mercados a todos os níveis, não sendo possível ter certezas como o mercado vai reagir num futuro próximo.
CE - Quando assumiu a Direcção da Unileite a degradação da sua situação financeira foi maior do que o que esperava?     
PT - As contas da Unileite são apresentadas e votadas em assembleia geral, nesta medida ninguém pode vir dizer que não conhecia a situação financeira. Não podemos descorar que nos últimos anos foram realizados vários investimentos que ainda não tiveram o retorno pretendido mas que esperamos nós conseguir optimizá-los a breve trecho.
CE - A informação que temos é que, na vossa empresa e no sector em geral, o stock de produtos acabados tem vindo a aumentar por via da redução do volume de vendas?
PT - Uma das consequências da pandemia é que o mundo mudou, como também os hábitos alimentares. Conforme acima referido, assistimos a desníveis entre a procura e a oferta, que se traduzem num aumento dos stocks. Esta é uma realidade que nos deparamos todos os dias, mas que estamos a trabalhar de modo a retomar o equilíbrio desejado. 
CE - Tiveram que baixar o preço de leite à lavoura. Poder-se-á aferir que são os lavradores a pagar a grande fatia da crise provocada pela Covid-19?
PT - O abaixamento do preço do leite à produção resultou de vários factores, entre outros, os aumentos dos custos com a pandemia. Importa referir que este momento de dificuldades deverá ser aproveitado para todos os intervenientes no sector reflectirem e agirem de modo a reajustar toda a fileira do leite.
CE - A Indústria tem sido acusada de não evoluir, de não diversificar, de não acompanhar algumas mudanças no hábito dos consumidores. Como reage a estas críticas?
PT - Esta questão fazia sentido caso estivéssemos a viver num período de normalidade. A actual situação demonstra que assistimos a padrões de consumo que não fogem dos produtos tradicionais das nossas indústrias, ao invés da procura dos produtos mais sofisticados.
CE - Numa recente entrevista que deu à SIC disse que as vendas tinham aumentado até Março por via do efeito das grandes superfícies.  Mantém-se esta tendência?
PT - No primeiro trimestre do ano assistimos ao aumento das vendas nas grandes superfícies, o que já não assistimos. As pequenas mercearias e médias superfícies estão a ter uma maior preponderância. Esperamos que o retorno do consumo se faça rapidamente, pois será um sinal que conseguimos ultrapassar a actual crise.
CE - Fará sentido continuar a encher leite UHT de marca branca, degradando o preço e não valorizando o próprio produto? 
PT - Desde que se deixou que existissem as marcas brancas não é possível deixar de conviver com as mesmas. O mercado já se adaptou às mesmas e muitos dos que se opuseram às mesmas também já as praticam nas suas superfícies. 
CE - Como justifica o facto do leite dos Açores ser vendido a preços mais baixos no continente do que nos Açores? Resulta da vossa política comercial, ou apenas da subsidiação do transporte para o continente?
PT - A realidade concorrencial do leite no continente português e nos Açores é muito dispare que se reflecte no preço do mesmo.
CE - Alguns dos vossos concorrentes acusam a Unileite de ser uma empresa altamente apoiada e protegida pelo Governo dos Açores, num exemplo concreto de concorrência desleal. Como reage a estas críticas?
PT - A Unileite como união de cooperativas agrícolas rege-se por princípios diferentes dos princípios privados, mas estamos todos no mesmo mercado. Não sentimos qualquer discriminação ou apoio por parte do Governo que não seja atribuído a outros.
CE - Como analisa o futuro do sector dos lacticínios nos Açores?
PT - O sector dos lacticínios nos Açores tem futuro, mas terá que se adaptar às novas realidades.
Todos os intervenientes do sector devem cumprir com as suas funções e só com o contributo de todos é que conseguiremos ultrapassar os desafios que vivenciamos.
 

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Autor: CA

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