22 de agosto de 2020

Cesto da Gávea

Troika2

Todos nos lembramos sem saudades dos anos da troika e das suas imposições, resultantes da pouca vergonha dos anos socratianos e da sua corte liberal-socialista, geradora da pré-bancarrota a que Portugal chegou. Também nos lembramos, uns com saudades e a maioria indiferentes, da época em que o “Ronaldo das finanças” apregoava o fim da austeridade, o milagre dos reembolsos ao FMI, as poupanças milionárias em juros, a redução da dívida pública e por aí afora. Inteligente, o Ronaldo financeiro português, conhecedor como poucos dos ventos da economia europeia, percebeu antes da maioria que era chegada a hora de voltar por cima ao lugar de origem. Ei-lo, desde 1 de julho passado, ao leme do Banco de Portugal. Nisso, não fez mais que seguir o exemplo de Guterres e Barroso, ambos igualmente inteligentes e sensíveis ao abanar do capim, antes da chegada da tempestade.

Só que desta vez, além de imprevisível, a tormenta é de tal monta que não há inteligência, política ou não, que lhe anteveja o fim ou arranje escapatória. Para piorar o cenário, ainda estamos a contas com o que ainda falta pagar da troika1, o bolão de 78.000 milhões de euros do resgate assinado por Sócrates em 2011 e gerido depois por Passos Coelho. Repartido em 3 fatias de aproximadamente 26.000 cada, atribuídas pelo FMI (que já pagámos) e pelos 2 Fundos Europeus (MEE e FEEF, este último de que pagámos menos de 8%) parecia que íamos aliviar. Vai daí, chega a praga covidiana e vira do avesso as melhores perspetivas quanto ao futuro dos nossos bolsos ou, pior ainda, da sobrevivência de muitos de nós. Cá pelos Açores, onde o boom turístico animava rapidamente a economia, o golpe foi e está sendo duríssimo, evidenciando a necessidade de revermos o modelo de desenvolvimento que temos, se é que temos algum. O primeiro desafio que surge é este: como aproveitar, com um máximo de poder multiplicador, a fatia açoriana dos fundos suplementares que Portugal vai receber? A questão que se põe para Portugal no seu todo, foi abordada com clareza este mês pelo Prof. Daniel Bessa, ex-Ministro da Economia do Governo Guterres, num artigo de opinião sobre os dinheiros europeus de que Portugal disporá até 2030. Tudo somado, dá 68.700 milhões de euros, dos quais 10.800 são “ a título de empréstimo, em condições de prazo e juro excecionalmente favoráveis”. Ou seja, a fundo perdido, serão 84% do total. Os propagandistas da política não perderam tempo a vangloriar-se da “grande vitória” obtida, esquecendo que uma fatia destes 68,7 mil milhões corresponde a fundos não executados do programa 2020, autorizados por Bruxelas a incluir no pacote e que somam 12,8 mil milhões (18,7%). Cuidado com quem tem mais olhos que barriga, como diz o povo.

Sabemos assim que vai ser preciso ter muita “barriga” para digerir de forma produtiva tais montantes, na opinião do Prof. Bessa matéria de preocupação central, tendo em conta o plano estratégico apresentado pelo Prof. Costa Silva, outro académico igualmente com provas dadas no setor empresarial. Porém, a pressão do endividamento da economia portuguesa é tal que será preciso mudar muitas regras, nomeadamente as tradicionais cedências a estratégias partidárias. Se juntarmos a dívida do setor não financeiro, agravada ultimamente para 360% do PIB (se o país nada gastasse, precisaria de trabalhar quase 4 anos para a pagar) com a do nebuloso setor financeiro e bancário nacional (talvez 125.000 milhões, calculados com base nuns gráficos que obtive) estaremos a pisar terreno pré-troika de má memória. Justificam-se assim plenamente quaisquer dúvidas sobre a capacidade portuguesa de evitar o desbaratamento de tão vultuosos financiamentos, porque os exemplos anteriores relativos aos “anos de chumbo” da troika, conforme salientou Daniel Bessa, motivam preocupação. Quando se aproxima uma onda de financiamentos desta dimensão, a tendência para a contenção e a acertada utilização dos meios financeiros (que, de um modo ou doutro, iremos pagando) é substituída pela inclinação lusitana para “ir ao pote” do maná. O exemplo que o Prof. Bessa deu no artigo citado, foi o do RSI-rendimento social de inserção, o qual acaba por se tornar “modo de vida”.

Numa Região como os Açores, onde o Estado regional é detentor, direto ou indireto,  da maior parcela da economia, o controlo do binário emprego/desemprego em época de crise brusca e acentuada como a que atravessamos, acaba por ser mais facilitada do que no resto do país. Dada a importância das pequenas empresas numa economia de reduzida dimensão, a verdade é que uma quebra de 80% no nosso turismo, exigirá metade dos 870 milhões necessários para a economia aguentar até final do ano. A alternativa é uma troika2 que ninguém deseja, mas a experiência mostra que permanece escondida.

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Categorias: Opinião

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