22 de agosto de 2020

Na mão de Deus

É frequente que os elogios e as homenagens às pessoas só aconteçam quando já não estão connosco; a virtude qualquer VERDADEIRA virtude, enferma de um reconhecimento póstumo.
É verdade que a grandeza ou a abjecção de uma vida humana se tornam, por uma daquelas perplexidades em que a vida é fértil, mais claras e visíveis, nas ausências temporárias ou definitivas das pessoas com quem mais de perto nos relacionamos.
Na população dos Ginetes, durante 75 anos, viveu um sábio que tinha o nome de batismo de João Paulino Câmara de Medeiros e que agora se ausentou por tempo indeterminado, cumprindo a dura lei da morte que impende sobre toda a humanidade.
Fechou-se para ele a porta do mundo, mas como diz o povo “deus não abre uma porta que não abra outra”. Abriu-se para ele a porta da eternidade onde a universalidade do seu espírito decerto se vai exprimir inteiramente e encontrar finalmente a resposta que na prisão do mundo não encontrou para as respostas fundamentais da vida que ele tão persistentemente procurou.
Nuca se escusava a ajudar quem da ajuda dele precisava, nunca invocando falta de tempo ou outros afazeres, como se fosse dono do tempo e dele pudesse dispor eternamente.
Irradiava uma alegria de viver sem revés que se exprimia numa gargalhada estrepitosa, capaz de fazer rir um morto tal era o seu amor pela vida, que escondia sob um mal disfarçado pessimismo existencial.
Foi o coração que o traiu, quiçá já sem forças para resistir a tanta luta e a tantas horas amargas, porque a vida do povo não é fácil e ele era um homem do povo, que experimentou a dureza do trabalho de camponês, os limites que a pobreza económica impõe aos espíritos mais dotados ,que ao cavar a terra enterram os seus sonhos.
E depois, a amizade.
Ele tinha uma enorme facilidade em fazer amigos em qualquer lado; isto porque era um espírito universal, embora com muitas singularidades, espírito aberto, sabendo ouvir e depois, através do exercício de um espírito critico superior, formular um juízo quase sempre certeiro sobretudo sobre o sentido das coisas vividas e para muitos esquecidas; nele a memória aliava-se a acutilante elaboração mental abrangente lançando por isso uma luz sempre nova sobre os acontecimentos da vida e sobre os comportamentos das pessoas.
Quando fui deputado na Assembleia da República, durante a campanha eleitoral, ele foi o meu companheiro de viagem.    A palavra que me deu, a força para que a minha  fraqueza humana não triunfasse sobre os nobres e grandes ideais do espírito que devem nortear quem na vida tenta realizar  o ideal intimo a que aspirava.
Tratava-me sempre por doutor mas eu não gostava porque doutor era ele não eu, apesar de eu ter ido para a universidade e ele não; eu repetia-lhe tantas vezes a quadra do poeta popular Antonio Aleixo:

    Uma mosca sem valor
    poisa com a mesma alegria
    na careca de um doutor
    como em qualquer porcaria.

A separação de um amigo, a saudade que a separação provoca e indescritível.
Separar-me para sempre de um amigo não aguento; e muito pesado doloroso e cruel.
Para sempre... não posso com essas ideia e acredito que não é para sempre.
Deus é misericórdia e amor e compaixão une não separa; e lembro-me sempre da frase da Bíblia: aquilo que ligares na terra será ligado nos céus, aquilo que desligares na terra será desligado nos céus.
Viemos ao mundo por algum motivo e partimos por algum motivo que ultrapassa o nosso entendimento; a morte não tem, segundo creio, a última palavra, o triunfo definitivo, final sobre a vida.
Creio que a lei do amor é mais forte do que a lei da morte e que, no fim, o amor vencerá a morte.
E que os nossos irmãos que partem não serão abandonados na terra, que há uma saída para a condição humana mortal que só o criador supremo conhece.
Como dizia Torga  “podemos enganar a vida, a morte não.”
E Cioran dizia “quando penso com compaixão nos meus amigos mortos  penso também que eles já resolveram todos os seus problemas, inclusive o problema da morte”.
Não é fácil ser homem.
A angustia é o pano de fundo da nossa existência.
Não me lembro que autor é que disse o seguinte:

    Viajo não sei para onde 
     morro não sei quando
     não sei como posso estar alegre.

A vida, ao contrário do que dizia o poeta Lamartine, não chega para a vida, no sentido em que o tempo real que nos é dado viver não satisfaz em toda a sua plenitude o nosso amor pela vida, pelo amor, pela amizade pelo amor; a vida não chega para a nossa alma, fica sempre aquém.
Falta sempre na vida um quase para que a nossa alma se sacie e por isso lembro-me sempre de Antero de Quental quando num dos seus sonetos diz:

  “Dorme na mão de Deus, coração liberto
dorme na mão de Deus eternamente”

Como disse o grande Vate Antero, grande amigo João: que repouses na mão de Deus, tu que eras um coração livre, repousa nas mão de Deus eternamente.
 
 

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Categorias: Opinião

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