Restaurantes devem apertar fiscalização relativa ao uso de máscara dos clientes para evitar um segundo encerramento do sector

A par do retorno lento dos clientes aos restaurantes do centro de Ponta Delgada, onde nos temos vindo a focar, também o agravamento da situação epidemiológica nos Açores e, sobretudo, na ilha de São Miguel preocupa os empresários que decidiram dedicar a sua actividade ao sector da alimentação e bebidas, tendo em conta as consequências gravosas que um segundo encerramento terá em muitos estabelecimentos.
Para além das quebras significativas e até assustadoras que estes empresários têm vindo a registar nos seus negócios, chegando a atingir os 85%, embora com alguma melhoria no mês de Agosto, existe também uma preocupação relativamente aos estabelecimentos que possam ser mais flexíveis relativamente às medidas de segurança exigidas.
Um destes empresários é Pedro Raposo, proprietário da Taberna Açor, localizada na Rua dos Mercadores, afirmando que dentro do sector da restauração será necessário “haver uma atenção maior” em relação a estes aspectos.
Isto é, ao ser também cliente de outros estabelecimentos, garante que “são poucos os que estão a cumprir as devidas regras”, sobretudo no que diz respeito ao uso da máscara dentro dos estabelecimentos, uma vez que “muitas pessoas pensam que têm apenas que entrar com a máscara e que depois a podem tirar e andar à vontade no restaurante”, havendo também, por outro lado, locais e turistas que respeitam as normas para a utilização da máscara social conforme estabelecido pela Autoridade Regional de Saúde.
Porém, ao haver falta de fiscalização e de aviso dentro dos restaurantes para com os clientes que não utilizam a máscara conforme indicado, incorrer-se-á no risco de “acontecer alguma situação complicada que nos obrigará a fechar outra vez, e aí estaremos a prejudicar tanto aqueles que estão a cumprir as medidas como aqueles que não estão a cumpri-las”, diz Pedro Raposo.
Reconhece, porém, que esta é uma tarefa difícil durante o normal funcionamento de um restaurante, porque “mesmo com alguém a avisar estes clientes as pessoas falham”, mas afirma que é agora importante que todos cumpram as regras estabelecidas, até porque actualmente não existe a mesma falta de conhecimento e informação que existia no início da pandemia.
“Se todos cumprirem as regras conforme a Autoridade Regional de Saúde transmitiu, penso que estamos preparados mesmo que haja uma segunda vaga. No início nós não tínhamos materiais nem equipamentos para cobrir esta situação, mas neste momento nós desinfectamos o restaurante três vezes ao dia, inclusive fechamos da tarde para fazer uma desinfecção entre o almoço e o jantar, usamos os produtos adequados e desinfectamos as mesas à frente do cliente, por isso penso que neste aspecto, mesmo que haja uma segunda vaga, estamos preparados se todos cumprirem as regras”, refere.

Novo encerramento poderá ditar 
o fim de 80% da restauração

No que diz respeito às consequências que poderiam existir para os restaurantes e demais estabelecimentos comerciais ao existir uma segunda vaga, Pedro Raposo salienta que aquela que teria maior impacto seria “o encerramento da maioria dos restaurantes”, entendendo que “se muitos restaurantes tiverem que fechar portas novamente nem irão voltar a abrir as portas”.
Isto porque com as grandes quebras ao nível das receitas, a restauração está ainda “a tentar recuperar do tempo em que esteve fechada e, para além da falta de clientes, estamos também quase a entrar na época de Inverno na qual, por tradição, quer estrangeiros quer locais não vêm à restauração com tanta frequência, e fechando pior seria”.
Acredita por isso que esta seria a gota de água para cerca de 80% dos empresários dedicados à restauração e ao comércio, havendo já o conhecimento de vários restaurantes que já encerraram, como por exemplo o Calçada do Cais, localizado na mesma rua da Taberna Açor, o Chandelier ou o Big 21.
De uma forma geral, quer para empresários que abriram os seus espaços recentemente, quer para aqueles que já têm alguns anos de experiência no mercado, os próximos tempos avizinham-se difíceis, colocando alguns desafios até que alguma estabilidade possa ser retomada.
“Tanto para os espaços que estão abertos há muito tempo como para os espaços que estão abertos há pouco tempo os próximos tempos vão ser difíceis. Por isso temos que saber economizar em todos os sentidos, desde a parte dos gastos normais, os gastos com funcionários, até aos gastos com a luz e com a água.
Teremos que saber controlar tudo isto, e para os que abriram há pouco tempo e que estão ainda a fazer a sua casa é mais complicado porque como há mais vagas nos outros restaurantes que têm mais nome, mais dificilmente vão conseguir completar as suas casas e os seus espaços”, adianta Pedro Raposo.
Neste sentido, acredita que para os restaurantes mais recentes haverá um trabalho “mais árduo” pela frente, embora se vivam actualmente tempos de incerteza que apenas permitem “viver o dia-a-dia”, diz.
Quanto às medidas implementadas mais recentemente pelo Governo Regional, que impedem os bares e discotecas de funcionarem para além das 22h00, o proprietário da Taberna Açor adianta que não sente que tenha havido um impacto significativo, pela positiva, na restauração.
“Penso que o encerramento dos bares às 22h00 não teve grande impacto na restauração, até porque os restaurantes também são proibidos de servir bebidas a partir das 22h00 a não ser que estas pessoas estejam a jantar ou a fazer uma refeição. 
No nosso caso penso que não teve um impacto muito grande, mas tenho que admitir que tínhamos um serviço de bar e que tivemos também uma quebra por causa disso, mas não tão grave como nos cafés e nos bares que se dedicam a servir bebidas”, adianta.

Autarquia deveria manter esplanadas 
até Outubro

Já no que às esplanadas diz respeito, este empresário mostra alguma preocupação e apreensão relativamente ao facto de a Câmara Municipal de Ponta Delgada manter as estratégias tomadas nos anos anteriores, sem ter em atenção às circunstâncias actuais que tornam o ano de 2020 tão diferente das expectativas criadas.
Isto é, a Rua dos Mercadores, à semelhança de outras ruas no centro de Ponta Delgada, beneficia de uma interrupção do trânsito das 19h00 às 00h00 em determinados dias da semana, permitindo assim que os restaurantes e bares consigam aumentar o espaço de esplanada e aumentar a sua capacidade de resposta conforme o número de clientes que vai surgindo.
Neste sentido, Pedro Raposo afirma que “a Câmara de Ponta Delgada deveria adoptar o sistema de esplanadas o ano inteiro e não só agora nesta fase do Verão”, permitindo assim que alguns empresários com espaços mais pequenos e nos quais existiu redução do número de mesas tenham mais espaço para atender os clientes.
“No meu caso, por exemplo, o espaço é muito pequeno e há salas em que só tenho duas mesas onde antes tinham quatro ou cinco, e ficámos com muito pouco espaço para atender clientes, mas as informações que tenho da Câmara Municipal é que em Setembro vai deixar de haver o encerramento das ruas e vamos perder a parte exterior toda, o que nos vai complicar mais a vida a partir daí”, refere.
Mesmo que no Inverno não exista o mesmo movimento que já se vem tornando característico no Verão, este empresário diz que seria importante “implementar este período alargado pelo menos até ao final de Outubro”.
Esta seria uma medida importante de adoptar, conforme conta, porque por mais conhecido que seja o restaurante que gere, tendo recuperado alguma da quebra registada – situando-se agora nos 50% de quebra em vez dos iniciais 85% - “o desafio é agora maior do que nunca”, uma vez que a capacidade do mesmo foi reduzida para metade.
Por outro lado, acredita ainda que a situação piore muito a partir do mês de Outubro, considerando que a situação vivida até aqui “foi apenas uma entrada da crise que vem por aí fora, porque a partir de Outubro virá o prato principal”, refere, seja pela redução do turismo ou pelo facto de os locais recomeçarem as suas rotinas após as férias e, claro está, pelo tempo menos propício a saídas.
Para amenizar esta crise, refere, seria importante que o Governo Regional tivesse tido em atenção desde o início uma redução nos impostos que são fixos para os comerciantes, como a água ou a luz, uma vez que as moratórias, as linhas de crédito ou o próprio lay-off podem ter consequências graves para a saúde dos negócios.
“O lay-off teve vantagens mas também teve as suas desvantagens. Foi um apoio misto, chamemos-lhe assim. Um apoio que acudiu uma urgência, elaborado à pressa para se pôr em prática, na minha opinião, e nós empresários que estávamos aflitos tivemos que aderir rapidamente. Mas vendo bem o lay-off não é uma grande ajuda para os empresários. As linhas de crédito ainda pior, porque é muito bonito ter o dinheiro mas para o ano temos que pagar tudo e não sabemos se para o ano a situação estará igual ou pior e teremos mais um encargo para pagar”, diz.
Apesar de tudo, mesmo sabendo que o pior pode estar por chegar, Pedro Raposo procura manter uma perspectiva positiva para com o futuro da Taberna Açor, uma vez que o restaurante continua a ser distinguido e divulgado internacionalmente como um dos melhores restaurantes do arquipélago.
Entre as mais recentes distinções está um artigo de uma revista do Reino Unido, onde a Taberna Açor aparece como referência no seguimento de uma reportagem feita sobre os Açores, tendo também recentemente recebido mais um prémio do TripAdvisor, sendo eleito pelos clientes como um dos melhores restaurantes.


 

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