Filarmónicas de Rabo de Peixe pedem mais apoios da cultura e ‘sonham’ com regresso à normalidade

Sociedade Filarmónica Lira do Norte
Mais conhecida por ‘Banda Velha’, esta filarmónica da Vila de Rabo de Peixe foi fundada a 19 de Maio de 1867 e nestes mais de 150 anos de existência, “muitas foram as coisas que se passaram com esta banda”, começa por afirmar o seu Presidente José Cordeiro destacando um “incêndio que destruiu todo o edifício da Filarmónica e mesmo assim continuamos vivos”. Há menos de um ano à frente dos destinos desta Sociedade, José Cordeiro destaca algumas das saídas que a Banda já conta no seu vasto currículo
“Já actuamos em diferentes ilhas dos Açores e já fomos várias vezes ao Canadá e aos EUA. A última ida foi em 2016. Também já fomos à Madeira. Que eu saiba, nunca fomos ao continente, mas já fomos várias vezes aos EUA e ao Canadá”, sublinha.
Na sua história a Lira do Norte já passou por altos e baixos quando se analisa o número de músicos. O seu Presidente confessa que actualmente a Filarmónica está ‘em maré baixa’ nesse aspecto.
“Neste momento está numa fase em que tem poucos músicos, mas julgo também que estamos a viver uma época extremamente difícil onde, para a maior parte dos miúdos, não é importante, engraçado, interessante, no fundo, não está na moda fazer parte de uma filarmónica”, afirma. 
José Cordeiro aponta algum comodismo da população mais jovem como a principal razão para essa diminuição do número de músicos.
“Está mais na moda fazer parte dos tambores, andar no facebook, jogar no telemóvel, do que um pouco de cultura. Para se tocar numa filarmónica tem de se aprender muita coisa. Os antigos já diziam que isso é letra de música para mim”, ironiza. 
Para além dos 6 alunos na sua escola de música, nos dias que correm a “Banda Velha” conta com 35 elementos nas suas fileiras, isto quando todos comparecem para os serviços. 
“Tem-nos chateado muito o facto de as pessoas amanharem empregos e alguns desses trabalhos serem por turnos e especialmente à noite. Isso dificulta muito a vinda dos músicos durante o dia e isso afecta muito as filarmónicas”. 
Conversa inevitável nesta nossa ‘rota’ com as Bandas Filarmónicas, é a pandemia de Covid-19. José Cordeiro admite que “têm sido tempos complicados para os dirigentes” e explica a razão por que ainda não se realizam os ensaios da Filarmónica.
“Nós falamos com um músico e ele diz-nos que devemos fazer um ensaio nem que fosse por ‘naipes’. Quando nós fazíamos os nossos ensaios antes da pandemia, só apareciam 10 ou 15. Agora se dividíssemos isso por naipes apareceriam 1 ou 2”, justifica.
Direccionando ‘agulhas’ para a questão financeira, o Presidente da Lira do Norte elogia o apoio e o suporte que a autarquia da Ribeira Grande tem disponibilizado às filarmónicas nesta época difícil. 
“Sem esse apoio dificilmente a filarmónica, falo pela minha, mas naturalmente todas as outras que estão nessa situação, sobreviveria e estou a falar no caso da Ribeira Grande. O que deu à Lira do Norte dá a todas as outra bandas. Foi um apoio muito importante para nós. Este executivo da Câmara tem sido muito compreensivo com as filarmónicas”, sublinha.
José Cordeiro especifica ainda que a ‘Banda Velha’ apresenta “um saldo bastante positivo graças à nossa ida aos Estados Unidos e ao Canadá” e que foi através dessa viagem, realizada em 2016, que conseguiram “com ajuda dos nossos emigrantes e simpatizantes, trazer uma boa receita que nos tem mantido ao longo até este ano”. Caso isso não tivesse acontecido confessa que a Lira do Norte estaria, nesta fase, a atravessar por uma fase complicada a nível financeiro.
“Mesmo com o dinheiro da Câmara, não é suficiente para nos pagarmos as despesas inerentes a um ano da filarmónica. Temos uma despesa de 5000 euros só para o maestro. Depois disso, temos a aquisição de roupas, desde calças casacos e camisas, porque os miúdos vão crescendo e as roupas já não lhes servem”, explica.
Para além do apoio financeiro disponibilizado pela autarquia, o Presidente da Filarmónica considera que o Governo Regional devia facilitar e descomplicar os apoios para este sector.
“A Secretaria da Cultura e isto é uma crítica que eu faço, abre muitos programas mas depois exigem-nos tanto. Temos de ter as facturas, é certo que senão há aldrabices, eu reconheço isso, mas as filarmónicas não vivem só das coisas que nós compramos”, afirma especificando “eu não tenho dinheiro para fazer cantar um cego qual o projecto que vou fazer? Vamos imaginar, eu faço um projecto de 1000 euros e ele dá-nos 200 euros e eu tenho aquela trabalheira toda. São programas que não ajudam nada as bandas”.   
Sobre o futuro, José Cordeiro acredita que a Filarmónica não irá fechar portas nos próximos tempos, mas adverte que todas as bandas poderão sentir algumas dificuldades na retoma.
“Acredito que algumas filarmónicas que estejam muito más em termos de número de músicos eventualmente possam fechar portas e tenho muita pena que isso venha acontecer, seja qual for a Banda. Acredito que todas elas perderão elementos mesmo as maiores”, realça o Presidente da Sociedade Filarmónica Lira do Norte.

Filarmónica Progresso do Norte
Antes do início, um ponto prévio. Neste contacto com a ‘Banda Nova’ contamos com o contributo de três membros da direcção da Banda: do Presidente, Emanuel de Jesus; do Presidente da Assembleia Geral, Cirilo Pacheco e do Tesoureiro, João Luís Botelho.  
Voltando à história na Vila de Rabo de Peixe, encontramos a Filarmónica Progresso do Norte, Banda que já actuou em vários pontos dos Açores e também nos Estados Unidos e Canadá e, cuja data oficial de fundação remonta a 1888. Cirilo Pacheco conta-nos um pouco das raízes desta Banda que tal como o próprio nome indica, tem ligação e patrocínio do Partido Progressista ao contrário da sua rival, conectada com o Partido Regenerador.
“Nós tínhamos um grande senhor, o Tavares Torres, que era um progressista de primeira linha e tínhamos um outro senhor que era padre, João Jacinto de Sousa um grande orador e daqueles em que na Igreja tinha de sair-se pela traseira. Não podia ser pela frente porque a polícia estava lá à espera deles”, conta antes de referir que, apesar de não existirem factos que o comprovem, que a Progresso do Norte é sucessora de uma banda anterior da Vila, a Marcial Bom Jesus.
“O que nos leva a pensar nisso tem a ver com o facto de, em 1888, a igreja ter recebido um órgão e a Progresso do Norte foi receber esse órgão. Havia uma festa do Senhor Espírito Santo e a Banda, em junho de 1888, está a tocar impecavelmente bem. Isso dá uma ideia clara que a Filarmónica já vem detrás”, explica. 
Outro marco importante na história da ‘Banda Nova’ tem a ver com o início da Autonomia nos Açores.
“Esta banda é a da Autonomia porque foi ela que tocou pela primeira vez o Hino da Autonomia. O senhor Tavares Torres escreveu o hino. Este hino é tocado pela primeira vez em Ponta Delgada quando o partido progressista ganhou as eleições e a banda ‘foi lá abaixo’ agradecer”, realça. 
Revivendo a história, Cirilo Pacheco, uma espécie de ‘memória viva’ da banda e que já passou pela sua Presidência “3 ou 4 vezes”, recorda os tempos de rivalidade com a sua congénere de Rabo de Peixe.
“A rivalidade entre as duas já foi forte mas hoje já não existe. Ainda apanhei esses tempos em que cada um ia no seu passeio”, lembra destacando o importante papel que a Progresso do Norte sempre desempenhou na integração social da população.
“Esta filarmónica está muito ligada à classe piscatória. Sempre defendeu os pescadores e as pessoas que estiveram à frente da Banda eram sempre um bocadinho mais a frente”, salienta.  
Nos tempos que correm, a filarmónica conta com 34 elementos e tem na sua escola de música, com 15 alunos “e com outros à espera de entrar”, o seu grande alicerce, como salienta o Tesoureiro, João Luís Botelho.
“Se tivéssemos mais espaço tínhamos mais alunos. Felizmente é assim. Ainda há pouco estiveram cá 3 crianças a perguntar quando podiam começar na escola”. 
O Presidente da Progresso do Norte, Emanuel de Jesus, entra na conversa quando o tema é a pandemia de Covid-19 que veio, naturalmente, dificultar a vida para a sua filarmónica, apesar de actualmente a actividade já estar a ser reiniciada.
“Estamos a fazer um ensaio por mês, mas não com todos os músicos ao mesmo tempo. Fazemos com 50% e se temos 10 trompetes, vêm cá 5 e é assim que estamos a fazer os nossos ensaios. Só começamos neste mês de julho”, destaca.
Emanuel de Jesus lamenta igualmente que, com a chegada da pandemia e da paragem obrigatória, os planos que a direcção, eleita há menos de um ano, tinha para 2020 tenham sido cancelados.
“Se não tivesse existido esta pandemia estava tudo programado para irmos ao Pico. Este ano até tínhamos comprado fardas novas”, refere.
Sobre a questão financeira, o Tesoureiro, João Luís Botelho avança que a Filarmónica tinha contraído um empréstimo para os novos fardamentos, antes da pandemia, e que esse acordo já foi renegociado.
“O banco foi compreensivo e percebeu a situação. Se estivéssemos com serviços esse empréstimo podia estar já pago. Claro que temos de pagar juros mas com tudo isto não foi possível pagar”, justifica.
O Tesoureiro da Progresso do Norte destaca ainda o apoio que foi concedido pela Câmara Municipal da Ribeira Grande e aguarda agora, a verba disponibilizada pela Junta de Freguesia de Rabo de Peixe.
“A Junta de Freguesia também sempre nos vai ajudando. A verba ainda não chegou mas chegará. Tem-nos ajudado nos anos anteriores e certamente que irá fazê-lo este ano. Temos o maestro e o professor de música pagos”, salienta.
Relativamente ao futuro, Cirilo Pacheco, o Presidente da Assembleia Geral, foca as suas atenções e sonhos num aspecto que considera poder vir a ser muito importante para a comunidade da Vila.
“Tenho pena que a nossa, tanto como a outra, não tenhamos sedes maiores. O que peca aqui em São Miguel são esses edifícios serem pequeninos e por isso, por vezes falha no chamamento dos mais jovens. Para tirar essa malta que está na rua em sítios que não deveria estar. As filarmónicas podiam criar condições para isso em termos sociais. Esse sempre foi um dos objectivos desta Banda”, destaca reforçando o papel que a ‘Banda Nova’ teve como alavanca social.
“Antigamente era a banda que ia lá abaixo. Em 1979, foi a primeira vez que um pescador foi mordomo das Festas da Caridade. Eu era Presidente e não tive problema em fazer isso. Começamos a ganhar terreno e hoje o pescador está cá em cima”, afirma com orgulho.
Apesar das dificuldades, o Presidente da Direcção, tem a certeza que a Filarmónica Progresso do Norte não irá fechar portas.
“Isto não vai acabar. Eles têm uma farda nova e estão todos inquietos para voltarem a tocar e para sair. Não pode, nem vai fechar”, refere Emanuel de Jesus antes de admitir que apesar de existir “vontade e esperança, será muito difícil” comemorar o dia da padroeira da Banda nos moldes habituais, no próximo dia 8 de Dezembro. 
                                                 

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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