Entrevista ao Diácono Nuno Sousa

“ O lugar da fé é mais fora do que dentro das Casas da Igreja...”


Correio dos Açores - Será ordenado sacerdote. O que representa este momento para si?
Nuno Sousa - Posso adivinhar o que significará. Julgo que só nos momentos posteriores é que poderei responder a esta questão. É um findar de uma etapa, o concretizar de um sonho. A ordenação é talvez mais vista como um ponto de chegada, mas qualquer ponto de chegada é por excelência uma partida vestida do avesso, ou seja, depois da ordenação é preciso voltar a empreender esta nova viagem, ajeitar as velas e partir para onde for preciso, por mares diferentes. Este é um tempo de espectativa, de esperança, de dar lugar a todos os sonhos, de viver o sonho de Deus. É um tempo de uma beleza e felicidade muito especial, o tempo de ver nascer em mim aquilo para que me preparei durante os últimos 7 anos e que, com certeza, terei necessidade de me continuar a preparar, até porque, eu não sei ser Padre, terei de aprender a sê-lo, e para isso precisarei de todos.

Como surgiu o desejo de ingressar no seminário?
Foi surgindo. Não sei bem marcar no calendário este momento. Parti na aventura da descoberta. Interrompi o meu curso na Universidade dos Açores e fui. Primeiro pela necessidade, pela sede de Deus, pelo conhecimento da Igreja e transversalmente de mim mesmo. Foi algo muito natural. Fui para ver, para experimentar, tentar de uma forma muito livre, sem grandes pretensões de chegar ao final e ser ordenado, mas com este sonho já a nascer. 

Qual a profissão que sonhou quando era criança?
Em criança brincava, como talvez a esmagadora maioria dos rapazes da minha idade, com vacas, tratores e toda estas coisas. Gosto muito do campo, apesar de não ter jeito algum para estas lides. O trabalho do homem no campo é como o de Deus: plantar, semear, esperar, desbastar, podar, cuidar, colher, alimentar os animais, fazê-los nascer e isso tudo apenas para tirar o seu salário e para que outros possam usufruir. Na verdade gostava de ser professor, mas lembro-me de olhar para a figura do padre com algum fascínio.
 
O que mais o marcou nesta caminhada rumo ao sacerdócio?
O imprevisível, aquilo com que não contamos e que pode alterar toda a nossa vida, seja a pandemia que surgiu este ano, seja tudo aquilo que nos pode fazer mudar por estarmos abertos ao dom e ao universo. Marca-me fundamentalmente o relacionamento com as pessoas. Eu quero ser padre por causa de Jesus, porque julgo que é o meu caminho que terá de o ser para o outro, para o próximo, sem pretensões de doutrinação, mas para propor a pessoa de Jesus, a sua mensagem e tudo o que isso possa trazer de bom para a vida das pessoas.

As solicitações deste mundo distanciam-nos do essencial. De que forma se sente tocado por este chamamento?
Sinto-me tocado muito pela via do que respondi anteriormente. O padre é um pai que, como tal, poderá e ouso mesmo dizer que deverá, apesar a sua idade, forma de ser, entre outras condicionantes, ser um guia disponível para escutar, com a capacidade de acolher e devolver questões para que possa ser encontrado o centro, o essencial. Muitas vezes basta mudar a pergunta. O Padre pode ser uma espécie de astrolábio na sua comunidade e grupo de amigos. Está lá, para quem quiser dele precisar. A presença do Padre muito para além das portas das Igrejas é fundamental, como um com os outros, sem nunca perder a consciência de quem é. Poderemos compreender melhor as solicitações e a nossa incapacidade de resistirmos a tanto que nos distancia do essencial e de quem gostamos se nos entregarmos à oração, à meditação e se cultivarmos a atitude de que cada dia é um dia com as suas virtudes e limitações, cada pessoa é uma pessoa e o amanhã é o aberto para todas as possibilidades. «Os lírios do campo» que Jesus apresenta na narrativa evangélica, segundo Mateus, são um ótimo exemplo daquilo que falo.

Como vê a questão vocacional hoje?
Como um misto de beleza e complexidade. Os adolescentes estão demasiadamente cheios de acessórios, de entretimentos, não têm tempo vazio, espaço suficiente, necessidade para pensar ou tentar decidir. Desde pequenos que somos inundados por ofertas, mesmo no ensino escolar, que muitas vezes não nos dão a grande possibilidade de escolher. Parece que a vida é-nos servida como o prato do dia num restaurante sem muitas vezes haver compreensão que a verdadeira arte começa na cozinha, ou até mesmo na horta, no campo, no mar. Precisamos de ir mais longe, mais fundo, precisamos de fazer as pessoas, os jovens a se conhecerem pelo lado de dentro. O ensino das humanidades, da filosofia têm de ter algo a dizer e a fazer.
Ratzinger, mais tarde Bento XVI, afirmou que é natural que haja um decréscimo de vocações, ou pelo menos de ingressos nos seminários. Se os casais têm menos filhos, logo será lógico que os seminários também se esvaziam um pouco. Se deixamos de considerar importante a nossa formação e vivência espiritual, logo menos serão aqueles que estarão acordados para esta interpelação.  
Muitos até podem ser interpelados mas não respondem. Acredito que são muitos mais os chamados do que aqueles que efectivamente entram no seminário e muitíssimos mais do que aqueles que chegam a ser padre.
A vocação pode amedrontar um jovem de hoje. É algo muito completo porque atinge toda a nossa vida, escrutina todas as partes de quem somos. É, digamos, um “pacote completo” vivido ao serviço dos outros e das suas necessidades. Pensemos nos médicos e enfermeiros no meio deste tempo pandémico. Quem não quer nos nossos dias um trabalho com as suas horas fixas, que depois possam ir para casa e não se tenham que preocupar com mais nada, sequer com a sua participação ou corresponsabilidade social? 

O que o tem ajudado no fortalecimento da fé?
A oração, a Palavra, o estar com os outros, a procura da beleza pela arte, pela poesia, na natureza. Natália Correia afirmou que «Onde vos retiver a beleza de um lugar, há um Deus que vos indica o caminho…», missão não muito complicada para quem viver nos Açores, portanto.

Que importância dá à religiosidade popular?
Ela é berço para a esmagadora maioria dos crentes das nossas Paróquias. Ela deverá ser central, sem perder a oportunidade de, compreendendo-a e vivendo-a, poder sugerir um alargamento do seu horizonte, fazer ver que a fé tem, necessariamente, de alargar o nosso olhar para as outras pessoas, que o lugar da fé é mais fora do que dentro das Casas da Igreja, tem de ter consequências activas na nossa vida. Por tudo isto, a religiosidade popular deverá ser acolhida com carinho e compreensão, principalmente por quem tem responsabilidades na Igreja, por quem estudou e tem o dever de a entender e de, com todos, melhorá-la. Só assim nos poderemos livrar do perigo de acharmos que muitas das nossas tradições religiosas populares são já produto da nossa cultura, da nossa tradição e não fruto da vivência da fé. A título de exemplo, posso dizer que fazer este ano uma romaria quaresmal, para além de ter sido uma experiência totalmente diferente do que habitualmente faço, foi muito importante para este caminho espiritual de preparação para a Ordenação num tempo como o que vivemos.

Nos dias que correm, alguém ir para o seminário é visto como algo caricato. Qual a resposta para este comentário.
Aqueles que foram chamados directamente por Jesus não foram vistos de forma muito diferente. Há o cliché de tudo o que diz respeito à Igreja e neste caso concreto o seminário ser algo ultrapassado, fora de moda, que não faz sentido à luz dos nossos dias. Há variadas razões válidas que nos levam a pensar assim, há muitas razões para pensar o contrário, há mais razões se pensarmos tendo por base franjas sociais onde grassa alguma desinformação, onde o “eu acho” tem valor quase científico.

O que mudou: o Evangelho ou o seu anúncio?
O Evangelho não muda. Muda a forma como o anunciamos, a forma como somos chamados a vivê-lo, a actualizá-lo. Este é inclusive o princípio da chamada Nova- Evangelização. A Escritura é um lugar onde sempre se pode tirar algo de novo e com utilidade para a nossa vida, muito também por ser um depósito da sabedoria e da vida de muitos povos e culturas.

O sacerdócio é uma entrega e disponibilidade total aos outros?
Este é o ideal que deve ser a realidade. Contudo, esta entrega e disponibilidade tem de ser consciente de que o próprio também precisa de um espaço seu para que possa acolher o outro. Só vivendo esta liberdade e este espaço interior poderá ter uma disponibilidade inteira para o outro que lhe pede algo.

Quais os seus objectivos de vida?
Sentir-me sempre bem por ser quem sou e por assim poder ser útil, sem nunca defraudar quem precisa.

O que muda a partir de agora na sua vida?    
Muda tudo permanecendo o essencial. Permanece aquele que sou, aquilo que me caracteriza, embora sei que pela ordenação assumo, recebo um sacramento que a imprime carácter, ou seja, recebo uma graça de Deus para a minha vida que é para sempre, tal como acontece com o Baptismo ou o Crisma. Tenho consciência que estarei em lugar de Cristo e em nome da Igreja para tudo aquilo que for necessário. Muda também o facto de deixar de viver em Angra, de viver nas férias na Ribeira Grande e passar a viver e a também ser de Vila Franca do Campo, onde sou chamado a ser Padre a partir de Setembro.

A Ouvidoria sempre teve muitos seminaristas, o que não acontece actualmente. Como interpreta isto?
Como dizia atrás, julgo ser fruto do seu tempo. Há, por vezes, interregnos de alguns anos e acaba sempre por surgir alguém. A semente depois de lançada dorme na terra. Temos nós de ir trabalhando sem esmorecer, sabendo que o Mestre é quem semeia e recolhe onde quer, ensina e envia. 
A Paróquia do Santíssimo Salvador do Mundo vive intensamente esta ordenação sacerdotal? 
Julgo que sim. É notório o carinho e o entusiasmo das pessoas, especialmente sentido nestes dias em que vivemos as festas paroquiais. É uma comunidade generosa que já deu raparigas e muitos rapazes para a vida consagrada.

A sua família e amigos sempre o apoiaram nesta decisão?
De uma forma ou de outra, sim. Entendo que até há pouco tempo não era muito fácil adivinhar se chegaria mesmo a ser padre, visto que procurei não perder aquilo que me caracteriza, não mudando de uma forma plástica, sem que por outro lado não deixasse de ser permeável à formação no seminário destes últimos 7 anos.

Como se descreve enquanto ser humano?
Sou o Nuno. Procuro ser o melhor que posso.

Quais são as suas grandes preocupações?
Poder corresponder à exigência do que me é pedido, sendo fiel a quem sou, ao Evangelho e a Cristo, à Igreja. Poder ser sinal de Deus para quem ainda procura a Igreja. Para quem já se distanciou ser, ao menos, uma possibilidade de diálogo sobre o sagrado e sobre a espiritualidade que atravessa o Homem.

Existe algum segredo para o ser humano ser feliz?
O ser ele próprio, o conhecer-se a fundo e, se for crente, o saber que Deus é o melhor companheiro de viagem, mesmo se vai a dormir. A vida é dom e presente, por isso vive-se no hoje e não no ontem ou no amanhã, quando já ou ainda não existe.
Quando vivemos de forma plena todos os momentos que nos são proporcionados, quando estamos realmente presentes a 100% na nossa vida e nadas pessoas que amamos, não fica a saudade, surge é a necessidade de dar graças por tudo aquilo que foi vivido, surge a vontade de ser, fazer e estar mais. 

                     

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Autor: CA

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