FACE A FACE!... com Ricardo Sampaio Cabral

“A Política de Saúde na Região tem levado à deterioração progressiva dos Cuidados de Saúde Primários prestados à população”


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Ricardo Jorge Sampaio Cabral, médico especialista em Medicina Geral e Familiar, membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria, presentemente reformado.

 Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Obtive a licenciatura em Medicina a 31/ 01/ 1977, pela da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. 
Iniciei o internato de policlínica em 09/02/1977, no Hospital de Ponta Delgada, concluindo - o a 31/12/1978.
Prestei Serviço Médico à Periferia no Concelho de Ponta Delgada, no de 1979. Neste mesmo ano foi requisitado pelo então Secretário Regional dos Assuntos Sociais, para prestar serviço médico público à população da Ilha Graciosa.
Nomeado pelo Secretário Regional dos Assuntos Sociais, em outubro de 1980, Inspector de Saúde do ex-Distrito de Ponta Delgada.
Frequentei, por proposta da Ordem dos Médicos , o internato de Pediatria Médica no serviço 1 do Hospital Pediátrico da D. Estefânia, em 19Ingressei o Quadro de Pessoal do Hospital Concelhio de Vila Franca do Campo, em  1 de Maio de 1982, como médico de clínica geral. 
Obtive o título de médico especialista em Medicina Geral e Familiar em 1993.
Membro da Comissão Nacional do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), e membro do Secretariado Regional do SIM Açores. 
O meu percurso profissional foi desenvolvido em grande parte no Centro de Saúde de Vila Franca do Campo, até ao momento da reforma da função pública, em Maio de 2014.
Filiei-me no Partido Popular Democrático, PPD, em Julho de 1974.
Participei em Lisboa  no primeiro Congresso da JSD como representante da  JSD Açores.
Fui indicado pela Distrital de Lisboa do PPD, delegado da candidatura do General Ramalho Eanes em 1976.
Participei como congressista em vários congressos Regionais e Nacionais do PSD e dos TSD.

 Como se define a nível profissional?
Como médico de corpo inteiro, pois a saúde dos meus doentes foi sempre a minha primeira preocupação.

 Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família Açoriana de hoje é o reflexo da actual sociedade e como tal é mutável e influenciada pela evolução das ideais sociais, dos costumes da sociedade e dos avanços científico-tecnológicos. Porém, a família é ainda o primeiro e o mais importante grupo social de toda a pessoa, tornando-a na matriz da identidade humana.

 Que explicações se podem dar que justifiquem o desaparecimento gradual da família tradicional nos Açores?
A sociedade açoriana, não pode ser vista isolada do todo. A massificação cultural, a globalização económica e o poder dos média contribuíram para as alterações da estrutura familiar verificada especialmente a partir do final do século XX.

 Que importância têm os amigos na sua vida?
Os amigos fazem parte da minha rede de suporte social, e em momentos e situações que me sinto mais vulnerável são eles muitas vezes um suporte e a ajuda, para ultrapassá-los.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Parte do meu tempo diário dedico à leitura, à música, à fotografia amadora e à escrita das minhas reflexões sobre história, política e economia.

Que sonhos alimentou em criança?
Em criança alimentava o sonho de ser um homem realizado como o meu pai.

O que mais o incomoda nos outros?
O que mais me incomoda nos outros é passividade, acomodação, hipocrisia, deslealdade e a indiferença perante a vida quotidiana.

Que características mais admira no sexo oposto?
A genuinidade feminina, a empatia, a inteligência e o charme.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Sim. O meu livro de eleição é a História das Ideias Políticas de Jean Touchard.

 Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
No meu relacionamento com as redes sociais procuro, dentro do possível, o distanciamento para separar o trigo do joio da informação fornecida.

Costuma ler jornais?
Sim, faço a leitura quase diariamente de jornais Regionais e Nacionais.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Sim. A viagem que mais gostei foi um Safári Fotográfico à Turquia realizado em Maio de 2015.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Aprecio muito a culinária tradicional portuguesa.
O meu prato preferido é bacalhau assado com batata e molho de amêndoa.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
A notícia que mais gostaria de ler no jornal era que milhões de pessoas em todo o mundo saíram do limiar da pobreza.

 Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Algumas medidas que tomaria seriam:  A abolição das subvenções vitalícias e a instituição  de um tecto máximo na remuneração dos gestores das Empresas Públicas.

Qual a máxima que o/a inspira?
Uma das máximas que me inspirou parafraseando Martin Luther King Jr. “o que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.

Que situações mais memoráveis viveu enquanto médico? Que vivências o marcaram mais?
A situação mais memorável para mim, foi presenciar a expressão de dor dos pais ao receberem a informação de um diagnóstico de uma doença incurável do seu filho.
A vivência mais marcante do meu dia-a-dia profissional foi sentir o reconhecimento do meu trabalho por parte dos doentes.

 Que análise faz aos cuidados primários de saúde na Região?
A Política de Saúde na Região tem levado à deterioração progressiva dos Cuidados de Saúde Primários prestados à população, por razões meramente economicistas em detrimento da qualidade.

 O que a maioria dos utentes procura no Centro de Saúde de Vila Franca do Campo?  
Como estou reformado da função pública desde Maio 2014, desconheço a realidade actual do CSVFC.

 Concorda com a estratégia seguida pelo Governo dos Açores para minimizar os efeitos da pandemia da Covid-19 na Região. Que mais-valia acrescentaria?
Concordo na generalidade, O Governo Regional seguiu, em grande parte, as medidas preconizadas a nível nacional.
A mais valia passaria por haver mais solidariedade e sintonia entre o Governo da República e o Governo da Região Autónoma dos Açores.

 A pandemia provocada pela Covid-19 deslocalizou as atenções do Serviço Regional de Saúde para o combate à Covid. Como consequência, ficaram muitas áreas da saúde em segundo plano, e algumas com situações preocupantes. Será demasiado arriscado afirmar que, de Março a Junho faleceram for falta de cuidados de saúde atempadas mais utentes do que os que morreram devido ao covid-19?
Para me pronunciar com exactidão necessito de dados estatísticos fiáveis que desconheço.

O que pensa da politica?
O descrédito cada vez mais generalizado da política e dos seus agentes, tanto no nosso país como em outras sociedades ocidentais, resulta de múltiplos factores, sendo hoje inequívoco que as instâncias partidárias, base e premissa constitutiva do sistema democrático vigente, apresentam sinais de envelhecimento reconhecido por todos.

 Qual a sua opinião sobre a classe política açoriana?
A classe política açoriana não difere na substância da restante nacional na medida em que os partidos políticos são não apenas dos seus militantes mas também dos seus simpatizantes e eleitores pelo que não podem ficar imunes à sociedade, sob pena de se tornarem autistas e artificiais, levando a uma menor galvanização da militância e a uma crescente incapacidade de dialogar persuasivamente com o eleitorado e deste modo levar ao desinteresse generalizado dos cidadãos pela política, sendo, deste modo, imperioso credibilizar os políticos responsabilizando-os.
Assim, terá também de se iniciar a redução significativa do número de deputados sem que com isso se ponha em causa a fiabilidade da representação.

 Sendo um observador da actividade política e governativa na Região, o Governo dos Açores tem gerido, da melhor forma, a prevenção no combate à Covid-19? Quer explicar?
O Governo Regional dos Açores, no âmbito das competências que lhe são atribuídas e que estão consagradas na Constituição da República Portuguesa, tem gerido de uma forma aceitável a prevenção à Covid -19, até à presente data.

 Pode interpretar-se que algumas decisões do Governo dos Açores para impedir que se criem cadeias de transmissão do vírus nos Açores não foram aceites pelo poder em Lisboa por razões centralistas? A saúde deve sempre sobrepor-se ao legalismo?
Certamente que sim. A saúde pode e deve sobrepor-se ao legalismo em situações de excepção.

 Concorda que haja uma maior participação da sociedade nas decisões políticas? Como?
Sim concordo, através  da  credibilização e reforma urgente do nosso sistema político e eleitoral, instituindo o sistema de eleição por círculos uninominais no Continente e nas Regiões Autónomas, protegendo sempre, a representatividade das regiões mais pequenas ou com menor densidade populacional.

 Em que medida o preocupa a abstenção nas próximas eleições legislativas regionais?
Sim, é preocupante o alheamento da política e a recusa da participação cívica em particular o desinteresse dos jovens pelo fenómeno eleitoral, que são apenas, alguns dos sintomas do mal-estar que afecta as instituições políticas e, muito especialmente, os partidos.
É neste contexto que surge a necessidade de reforçar e aperfeiçoar os mecanismos formais que garantem uma real democracia interna.

 Enquanto democrata não lhe causa apreensão que se caia numa situação de partido praticamente único nos Açores? Pode explicar?
Não me causa apreensão, desde que se impeça o alheamento pela vida política.
 
 Quer acrescentar algo mais que considere interessante no âmbito desta entrevista?
Apenas acrescento que um contacto mais personalizado, que aproxime os eleitores dos eleitos, obrigará saudavelmente a um maior rejuvenescimento do Parlamento pelo que deverá ser diversificado o leque dos rostos propostos a sufrágio, dando assim, um passo importante no sentido de concretizar a máxima tantas vezes esquecida, que em política não há lugares cativos nem pessoas insubstituíveis.
Não mais as listas partidárias serão muros que ocultam desconhecidos com valia não menos desconhecida.
Assim, quem  almejar um lugar vai ter que pagar a viagem com seu próprio mérito.
                                           

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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