Padre José Cláudio termina hoje a sua missão na Vila de Rabo de Peixe

“Criei raízes e laços suficientes para fazer com que seja mais difícil ‘este desarmar a tenda’ e partir”

Nesta entrevista, oJosé Cláudio relembra que não teve dificuldades em adaptar-se, porque veio “com o coração aberto, mas antes que tudo para aprender”.
Por outro lado, e por ser estrangeiro, “alguns poderiam pensar que vinha para querer mudar as coisas, mas não. Esforcei-me o máximo que pude para respeitar os costumes e tradições, com as suas riquezas próprias e, que nesta Vila celebram-se com bastante vivacidade”.

Fale-me um pouco de si e da sua ordenação como pároco.
“Faço parte de uma comunidade de vida consagrada chamada Obra de Maria, a qual é constituída por homens e mulheres que fazem um acto de consagração de suas vidas na vocação a qual se sentem chamados, portanto, constituída por sacerdotes, casais e celibatários. 
Entrei para esta Comunidade aos 23 anos de idade.
Quando assumi a função de pároco em Rabo de Peixe, já estava há dois anos e meio nesta paróquia a ajudar como vigário paroquial e depois como pároco in solidum com padre Duarte, nas paróquias das Calhetas e do Pico da Pedra. Em 23 de Agosto de 2014 recebi a provisão de pároco da Paróquia do Senhor Bom Jesus, completando o tempo previsto no 23 de Agosto deste ano de 2020. Mas, nada que tenha conseguido fazer, o teria conseguido sem meus irmãos missionários da Obra de Maria, que comigo estiveram estes anos todos”. 

Como foi chegar a São Miguel e substituir um pároco que já estava na Paróquia de Rabo de Peixe há mais de 25 anos?
“Já se sabe que isto não é nada fácil. Em oito anos e meio que cá fiquei já criei raízes e laços suficientes para fazer com que seja mais difícil «este desarmar a tenda» e partir, quanto mais o pároco que já cá estava há mais de 25 anos. Tanto para o povo, quanto para um padre é, na maioria das vezes, um grande desafio lidar, não só com esta, mas com as mudanças próprias da natureza e da vida. Mas, sempre é possível crescer e aprender com elas. O ser padre aprende-se, acima de tudo, na vida do dia-a-dia, na relação com as pessoas que encontramos pelos caminhos da vida e, portanto, tais mudanças podem sempre dar-nos esta possibilidade enriquecimento mútuo”.

Como foi a adaptação a uma nova realidade que contempla uma população de mais de oito mil pessoas? Estranhou ou nem por isso?
“Não tive muitas dificuldades de adaptar-me, porque vim com o coração aberto, mas antes que tudo para aprender. Pode ser que pelo facto de ser estrangeiro, alguns poderiam pensar que vinha para querer mudar as coisas, mas não. Esforcei-me o máximo que pude para respeitar os costumes e tradições, com as suas riquezas próprias e, que nesta Vila celebram-se com bastante vivacidade.
Como disse quando cá cheguei: Vim para aprender, se possível somar, mas não diminuir, o que de bom já existe. Mas, tudo seria mais difícil se não tivesse os irmãos missionários que me acompanharam”.

Quais os momentos que o marcaram mais?
“De tantos momentos bons vividos cá, foi marcante a missa de posse como pároco, pelo facto da Igreja, estar completamente cheia, dando assim coragem para assumir esta grande missão, fazendo-me perceber que não estava sozinho, pois além dos meus irmãos missionários, encontrei muitos bons cristãos presentes nos diversos movimentos, e mesmo outros que não estão em algum grupo, empenhados tanto no serviço pastoral, quanto em colaborar com a manutenção e conservação da Igreja paroquial e demais estruturas, sem esquecer os emigrantes que sempre têm ajudado. 
A visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima coincidindo com a primeira visita do nosso actual bispo, foi marcante ver a afluência das pessoas, manifestando assim o seu amor e devoção à Mãe de Deus.
As 24 horas para o Senhor, evento que mantinha as portas da Igreja abertas para acolher numerosas pessoas que vinham das diversas ruas para adorar o Santíssimo Sacramento.
A experiência da transmissão diária dos terços e outros eventos durante o tempo de quarentena neste ano, também foram marcantes pelos testemunhos que recebemos de muitas pessoas da Paróquia e para além da Paróquia, inclusive os emigrantes. Não foi fácil, mas foi confortador atravessá-lo através deste ponto de comunicação e comunhão.
Na verdade, é difícil especificar alguns momentos, porque foram muitos…
E porque em cada pessoa que encontrei amor a Deus, traduzido em amor ao próximo, disponibilidade de servir e de colaborar, fui sendo marcado por Deus através delas. E sou muito grato por isto”.

“As romarias quaresmais, desta ilha, são um grande «retiro itinerante», uma rica experiência de fé, de vivência fraterna, de oração, de sacrifício, de partilha, de calorosa e confortadora experiência de acolhida nas famílias… Senti-me muito edificado na romaria”, acrescenta.
Na hora da mudança deixou um apelo: “E desejo que acolham de coração aberto o meu irmão no sacerdócio e compatriota, o Padre Francisco Zanom. Como nós precisámos, ele também necessitará muito desta vossa disposição em servir. A Igreja, somos todos nós!”

Vai deixar este Domingo a sua missão, oito anos e meio depois, sendo que é muito acarinhado pela população. Vai levar muitas recordações?
“Oito anos e meio foram suficientes para marcar imensamente a minha vida. Como estrangeiros, aprendemos a valorizar de uma forma muito intensa a aceitação das pessoas. Longe da pátria, dos familiares, dos amigos e conhecidos é de encher o coração de gratidão o acolhimento e apoio que tivemos nestes anos todos. Com isto quero enfatizar o quanto Rabo de Peixe é rica e cheia de gente boa.
Também a vivência das romarias, tanto masculinas, quanto femininas.
Os «Encontros com Deus na Rua» que fazíamos no Verão; os trilhos com jovens e adultos por esta maravilhosa ilha; as visitas às famílias e aos idosos; as visitas às escolas que muito me confortavam o coração de amor, a alegria e o acolhimento das crianças; os momentos de adoração ao Santíssimo Sacramento na Igreja e nas Ermidas, os terços e o Grupo de Oração, os retiros, as festas, procissões e cortejos, as despensas com seus animados bailinhos das castanholas – que muito gosto. A grande Festa do Senhor Santo Cristo. Enfim, tanta gente boa, que levamos connosco no coração”.

Sendo um sacerdote da Obra de Maria, no Brasil, participou em diversas romarias. O que sentiu na sua primeira romaria?
“Romarias como as de São Miguel são únicas. Nunca tinha vivido experiência igual. Não tenho experiências de romarias de lá.
As romarias quaresmais, desta ilha, são um grande «retiro itinerante», uma rica experiência de fé, de vivência fraterna, de oração, de sacrifício, de partilha, de calorosa e confortadora experiência de acolhida nas famílias… Senti-me muito edificado na romaria. 
Eu, realmente amo a experiência de ser romeiro e de certeza sentirei falta da romaria nas próximas quaresmas”.

Que vivências, das romarias, leva consigo?
“Como diz uma canção: «Juntos como irmãos, membros de uma igreja, vamos caminhando ao encontro do Senhor!...» É esta a vivência que levo da romaria: uma vivência do ser Igreja, do caminhar juntos, do compartilhar bons e maus momentos com fé e caridade. Claro, que o grande desafio é dar continuidade a esta vivência no dia-a-dia da vida. E de perceber, que não é Deus que precisa do nosso sacrifício, mas nós mesmos, como forma de exercitar, o que é o amor”.

Fale-me também da sua próxima missão, como pároco. Para onde vai e se vai levar consigo a presença das Irmãs Clarissas, em Calhetas? Levará sempre consigo São Miguel e o “Senhor Bom jesus”?
“A pedido da Comunidade Obra de Maria e, também por cumprir o tempo de pároco, retorno para sede da Comunidade e, por enquanto por lá irei ficar até o final deste ano. Possivelmente, só no início do próximo ano é, que ficarei a saber a nova missão. De certeza, que levarei comigo as Irmãs Clarissas da Freguesia das Calhetas. Foi uma honra e uma graça ser o seu Capelão por estes anos e sei da graça de ser e continuar sendo amparado por suas orações. São muito especiais.
Foi um presente de Deus conhecer e viver nesta belíssima ilha e uma imensa honra e alegria servir ao Senhor Bom Jesus em Sua Paróquia. Só tenho a agradecer à Diocese por nos acolher, na primeira hora, na pessoa do Dom António Sousa Braga – Bispo na altura dos primeiros anos - e pela continuidade do acolhimento na pessoa do Dom João Lavrador. Em nome da Comunidade Obra de Maria expressamos o nosso muitíssimo obrigado pelo voto de confiança recebido. Sem esquecer o Padre Jason Gouveia, que foi o primeiro que nos conheceu e convidou-nos com a permissão do bispo – a colaborar na Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, de Ponta Garça, onde era o pároco naquela altura. Na pessoa dele, gratidão a todos colegas padres, que nos acolheram e ajudaram. Deus lhes retribua.
E desejo que acolham de coração aberto o meu irmão no sacerdócio e compatriota, o padre Francisco Zanom. Como nós precisámos, ele também necessitará muito desta vossa disposição em servir. A Igreja, somos todos nós!
Por fim, muitíssimo obrigado a todos os rabopeixenses. Nunca esquecerei esta grande graça que Deus nos concedeu, de termos estado convosco neste tempo. Vocês são maravilhosos. Não vos esquecerei. E viva à Vila de Rabo de Peixe!”


 

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