23 de agosto de 2020

Crónica da Madeira

Nossa Senhora do Monte: Padroeira da Diocese do Funchal

 Os pagadores de promessas
eram aos milhares perante 
a imagem da Senhora do Monte
suplicavam-lhe paz e amor.
No mais profundo respeito religioso
ajoelhavam-se e choravam de emoção,
nestes tempos conturbados da COVID 


As festas de Nossa Senhora do Monte e do Senhor Bom Jesus de Ponta Delgada são os dois maiores arraiais que se realizam na Madeira. Reúnem milhares de romeiros vindo de toda a parte da ilha. Muito cedo a festa de Nossa Senhora do Monte povoou a minha mente de criança e a dos meus irmãos. Os nossos pais saíam, pela tardinha, na véspera de dia 15 de agosto, para o Monte, a fim de participarem nos festejos. Integrados num grupo de amigos eles divertiam-se. Só regressavam a casa na manhã de dia 15. Não creio que fossem grandes devotos de Nossa Senhora. Nunca sequer lhes perguntei. O pretexto eram os festejos pagãos que, à volta da efeméride religiosa, aconteciam no largo da Fonte e das Babosas. Para nós, crianças, que ficávamos em casa, a festa tinha o fascínio das coisas desconhecidas que se completava depois com a dádiva dos nossos pais que nos enchiam com colares de pêras passadas, enfiadas numa linha branca; cordões de rebuçados coloridos, embrulhados em papel de cristal (papel solofan)e 6 bonecos de massa de pão, pintados de amarelos, ornamentados com tiras plissadas de papel de seda vermelho.
Desde essa época até aos meus 15 anos, ficou-me a curiosidade de saber como era a festa do Monte, que tantos peregrinos atraia, todos os anos. A minha experiência não foi das melhores e deu-se o inverso, em vez de gostar fiquei a detestar o arraial do Monte. Portanto isto aconteceu há 70 anos. Primeiro para chegar ao Monte tive de aguardar um tempo infinito, na Avenida do Mar, de onde saiam as “camionetas”. Um serviço bastante desorganizado, sem qualquer ordem. As velhas “camionetas”, cujos motores “roncavam” provocando um ruido ensurdecedor, abriam as portas e logo se verificava uma verdadeira invasão. Todos tinham pressa de chegar à festa. Chegados ao largo do Fonte eramos ali “despejados”, a meio de milhares de peregrinos. Éramos empurrados, “atropelados” por bêbados, que de garrafa na mão davam alegria à dor. Em todos os cantos Romeiros, com cestas de comida, cantavam e bailavam, ao som das harmónicas e dos machetes. Ritmavam a voz com o balançar do corpo. Elas com lenços coloridos na cabeça. Eles com chapéus de palha, tendo no lado direito a fotografia de Nossa Senhora. Aqui e ali faziam-se espetadas de carne de vaca. Comidas com prazer e acompanhadas pelo célebre vinho jaqué. De quando em quando tombava para a direita ou para a esquerda, um romeiro mais embebedado, não com vinho, mas com aguardente branca de cana que faz falar mais alto e mais forte! Com as faces rosadas e o barrete de vilão na cabeça tentava dar uns passos de dança. Desequilibrava-se provocando o riso dos amigos. Um polícia gordo procurava acalmar os ânimos aqui e ali. O álcool aquece a garganta e transtorna a cabeça e assim as discussões acesas davam azo a uma pouco saudável troca de galhardetes. Do largo da Fonte até ao Largo das Babosas era um verdadeiro mar humano. Para chegar à Igreja levei horas empurrado a meio de uma multidão que cantava e rezava. Experimentei, várias vezes, a sensação que me faltava o ar. Fiquei tão traumatizado que hoje fujo das multidões.
O que se passava na Igreja nada tinha a ver com a balbúrdia festiva de cá de baixo. Havia um silêncio profundo e gentes de joelhos balbuciando palavras que se adivinhavam pelo mexer dos lábios. Mães, mulheres, homens, com os olhos virados para a Virgem, pediam pelos seus…
A Igreja, tal como ainda hoje acontece, estava feericamente iluminada e ornamentada com milhares de flores, no interior e no exterior do templo. O dia da grande festa é antecedido com nove novenas preparatórias. Todas elas com pregadores diferentes. Geralmente escolhem sacerdotes com dons de oratória, para atrair o maior número de fiéis.
Em 2000 voltei, como governante, para assistir à missa do dia 15. O Bispo de então era o Dom Teodoro de Faria. Terminada a missa seguiu-se a procissão onde se incorporaram milhares de peregrinos. Muitos com círios, cabeças, braços, pernas, feitos de cera. Eram os pagadores de promessas que em momentos de aflição pediam ajuda à Senhora do Monte.
Recordo que finda a missa as autoridades oficiais dirigiram-se para os seus lugares na procissão. Na primeira fila os Presidentes do Governo, da Assembleia e da Câmara do Funchal, ladeados pelo Comandante da Zona Militar. Na segunda fila os Secretários Regionais. A procissão desceu uma pequena ladeira, com degraus em pedra calcetada irregularmente. Pedras luzidias, gastas pelos passos de milhares de passantes, durante séculos. Com a agravante que das mãos dos peregrinos que seguravam os círios, estes derretiam, derramando para o pavimento, tornando-o ainda mais escorregadio e perigoso. A minha grande preocupação, naquela descida, com os meus sapatos de sola seca corrida era não cair. Volta não volta a biqueira do sapato enfiava numa pedra fora de ordem. Eu fazia um esforço redobrado para me equilibrar. Toda a beleza e emoção que eu vivera na cerimónia religiosa apagou-se pelos meus receios. Os meus pensamentos centravam-se só e apenas de como superar a ladeira sem me estatelar. Ao som da banda de música que tocava uma marcha que fazia abrandar o ritmo dos passos, com paragens obrigatórias para as multidões saudarem a Virgem, chegámos finalmente ao Lago da Fonte. Aí descontraí e suspirei fundo. O que vos narrei são pequenos pormenores da festa. O importante é a história religiosa. O que significa Nossa Senhora do Monte para os madeirenses e emigrantes que ao deixarem a terra levam-na no coração e na memória para sempre. É de tal ordem que quando, no século XVIII as primeiras famílias madeirenses foram trabalhar na elaboração da cana de açúcar para o Havai, as mulheres levaram pequenos sacos com terra do Monte. À chegada a Hom-lu-lu, depois de quase um ano de viagem, os emigrantes subiram de joelhos a um pequeno monte para rezar a Nossa Senhora. Ali construíram uma pequena capela em devoção a Nossa Senhora do Monte que ainda hoje existe.
A festa de Nossa Senhora do Monte celebra-se no dia 15 de agosto. A Igreja do monte foi reedificada após o terramoto de 1748 e sagrada a 20 dezembro de 1818, com a mesma invocação, cuja devoção remonta a meados do século XV. Para a sua reconstrução contribuíram as dádivas da Confraria dos Escravos de Nossa Senhora do Monte, instituída em 1750 em todas as igrejas da Diocese. A imagem de Nossa Senhora do Monte desde sempre foi muito venerada, atraindo no dia 15 de agosto milhares de peregrinos. Por Reescrito Apostólico de Pio XII, de 21 julho de 1804 a Nossa Senhora do Monte passou a ser invocada como Padroeira da Diocese do Funchal, cuja solenidade litúrgica realiza-se a 9 de outubro, em memória do terrível aluvião de 1803, que matou mais de 600 pessoas.
Passados 70 anos da minha primeira experiência e 20 anos da minha participação na festa, como governante, voltei este ano, no dia 15 de agosto, à festa de Nossa Senhora do Monte, acompanhado pelos meus queridos amigos Victor Nobre, José Reis e Nininha. Sob um céu azul, transparente, a festa apenas decorreu dentro do templo com rigorosas medidas sanitárias conforme estabelece a lei da pandemia. No magnífico templo, onde está depositado o corpo do último Imperador da Áustria, o Beato Carlos I, viveu-se momentos de profunda emoção. A Igreja decorada com milhares de flores, tinha na porta uma jovem médica que tão atenciosamente dava as informações. Mantidos os distanciamentos, um grupo de escuteiros testavam a febre e distribuíam produtos para desinfetar as mãos. Uma organização impecável que muito impressionou os peregrinos, muitos deles emigrantes.
Este ano não saiu a procissão. Como tradicionalmente participaram na cerimónia litúrgica todas as entidades oficiais da Região Autónoma da Madeira.
O que não restam dúvidas é que neste tempo da COVID-19 muitos são os fiéis que, diariamente, se dirigem a Nossa Senhora do Monte a implorar-lhe bênçãos para um tempo tão conturbado e cheio de dúvidas. Que “Nossa Senhora nos proteja a todos”; gritou uma devota, com um círio da sua altura, na mão. A sua voz ressuou no templo, onde todos os olhares se concentravam na imagem de Nossa Senhora, mergulhada num mar de flores. Enquanto uma orquestra (órgão e violinos) executava um trecho religioso, acompanhado por um coro de vozes bem afinadas. Os sinos repicavam com força e alegria. O som derramava-se pelos jardins frondosos que se estendem aos pés da secular igreja. E assim de hora em hora os peregrinos entravam e saiam ordenadamente do templo para pagarem as suas promessas…
Desta vez não desci a ladeira que dá acesso ao Largo da Fonte, mas sim uma pequena ladeira que nos leva à sacristia da igreja. Igualmente escorregadia. Na esquina o estabelecimento de restauração do Sr. Luís é atração pelas melhores sandwich de carne vinho e alhos que se comem na Madeira. Lá fui recomendando pelos meus amigos. Devo dizer que me deliciei. Realmente a fama corresponde à realidade. Se por um acaso o meu possível leitor vier à Ilha recomendo este petisco que tanto bem faz ao nosso estômago. 

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Categorias: Opinião

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