23 de agosto de 2020

A aviação precisa de um milagre

A capa aqui copiada, da revista The New European, fala por si. O que reflete do negócio da aviação – pandemia, corredores aéreos e quarentenas, com referências mais imediatas a um país tão influente na definição das políticas europeias, com tanto impacto na economia dos transportes, não pode deixar de nos assustar. 
Da análise da tempestade que se abateu sobre o negócio da aviação, faz parte naturalmente o que se passa na nossa própria terra. Mais que o nome e as cores da aeronave ou a designação da companhia aérea, a imagem do avião feito num nó encaminha o nosso pensamento para a situação das empresas de transporte aéreo... portuguesas, remete-nos para a situação aqui mais próxima da TAP e da SATA. E também por motivos da mesma natureza dos que a capa da revista sugere: as soluções governamentais não se afiguram nada tranquilizadoras.
A TAP tem dado que falar ultimamente, desde logo pelos processos de negociação e de debate que conduziram à quase (re)nacionalização da empresa e à mudança, ainda a decorrer, da sua Administração. A solução encontrada para a substituição do Presidente da Comissão Executiva até parece sensata, sendo transitória, e é importante que seja rapidamente, e com idêntica sensatez, recomposto um efetivo Conselho de Administração. 
Este tempo em que o Governo não teve controlo direto do poder executivo na TAP, mesmo quando já tinha recuperado a maioria do capital social da organização, foi provocando, afigura-se evidente, uma sede crescente, porque recalcada, de ali mandar. 
As soluções para salvar a TAP vão muito para além da coragem para a trazer de novo para a esfera pública. É preciso quase um milagre para se conseguir simplesmente mantê-la! E, por contraditório que pareça, uma das principais condições para que esse milagre possa acontecer é afastar os governantes da gestão corrente e concreta da empresa. 
Não é preciso fazer-se um desenho para se perceber do que se está aqui a falar e para se concordar que há uma tendência para confundir as atribuições de tutelar com as de gerir. 
A TAP vai precisar, necessita já, de decisões corajosas e ... dolorosas. Mas serão deliberações dos seus órgãos de gestão, o que precisa menos é das interferências diárias dos gabinetes governamentais e, menos ainda, dos “pequenos” poderes vindos dos corredores partidários, na organização estratégica e nas opções para a sua concretizaçãono terreno.
O que atrás vem sendo esboçado será extensivo à apreciação que se faça da situação da SATA? Nem se justificaria deter-nos nesta pergunta, a situação açoriana é até, em alguns aspetos, mais grave: se não se verifica o mesmo tipo de ânsia de voltar a mandar, como na TAP, uma vez que, por cá, não chegou a haver interrupção no exercício do poder direto sobre a SATA, parecem evidentes os sinais de que, tanto a aprovação de um plano estratégico como o aval para medidas com impacto público, estão a ser conjugados com o calendário eleitoral, uma vez que, muitas das decisões ingratas que tenham de ser assumidas, terão reflexos, não só no domínio laboral, como imediatamente parece ocorrer, pelos comentários produzidos sobre o tema:- algumas alterações nos critérios de prestação de serviço público virão, de modo idêntico, a fazer-se sentir. 
Se, no caso da TAP, se instalou a polémica com a Câmara do Porto a propósito da quantidade de voos com origem ou destino naquela cidade, fácil será imaginar-se o que poderá ser a discussão acerca das pretensões dos diversos Conselhos de Ilha.
Acontece que até a relação da SATA com a TAP parece estar num dos pontos mais baixos da sua longa história de cooperação, mas isso tem que ser revertido. A SATA, tal como já atrás afirmado em relação à TAP, só com um milagre se sustém.
Que, para encorajar tal milagre, as entidades facilitadoras do financiamento indispensável pretendam exercer controlo sobre a sua execução, desde a tutela direta do Governo Regional até aos compromissos requeridos pela Comissão Europeia, é compreensível: quem paga quer, pelo menos, ter informação sobre os planos de luta pelo equilíbrio entre custos e receitas, para verificar a justificação do investimento. É, pois indispensável um plano de acompanhamento, o que se traduz em, escolhidos os gestores, acordar com eles tal plano, deixando, contudo, a sua execução a cargo destes e resistindo à tentação de estar constantemente a, não só reverou reinterpretar as suas regras, como a acrescentar-lhe exceções.
O amontoar de custos é, neste tipo de atividade, impressionante: leasing, seguros, manutenção e parqueamento de aeronaves e equipamentos, são contas com muito mais peso do que as relativas a pessoal, sempre tão discutidas. E é escusado lembrar o drama com especial atualidade das receitas reduzidas, desde logo pelos efeitos da pandemia: o desequilíbrio financeiro é insustentável. A luta por um (re)equilíbrio desta construção, contudo, só deve estar na alçada dos governantes na medida em que são estes que facilitam o acesso ao financiamento, escolhem os administradores e avalizam os planos elaborados por estes. Seja-nos permitido insistir no óbvio: as administrações têm que ter currículo para serem criteriosamente nomeadas e os planos têm que ser sólidos para poderem merecer aprovação, mas, a partir daí, é deixá-los produzir resultados.
As soluções serão inevitavelmente difíceis, dolorosas mesmo! E hão de ser objeto, certamente, de críticas e resistências, o que faz parte da representação democrática -são as regras do jogo que é a nossa vida coletiva! 

José Adriano Àvila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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