Descoberta pode ajudar na conservação das espécies

Investigadores registam pela primeira vez peixes a cantar no monte submarino Condor onde não se pesca nos mares dos Açores

 Ouvindo os sons registados pelos hidrofones, parece efectivamente que o som que se ouve quando os músicos fazem o “teste de som” aos microfones. Sons que, não sabendo que fazem parte do projecto de Doutoramento da investigadora Rita Carriço sobre o uso da monitorização acústica passiva como ferramenta para monitorizar qualidade do habitat e espécies de peixes vocais com interesse comercial ou de conservação, passariam bem por notas musicais. 
E foi através deste estudo que foram registados, pela primeira vez, sons produzidos por peixes a 190 metros, junto ao monte submarino Condor. O estudo destes “peixes cantantes” já foi publicado na revista Deep-sea Research I, e descreve a ocorrência de sons de peixes durante três anos, entre 2008 e 2012.
A investigadora Rita Carriço, do Centro Okeanos, da Universidade dos Açores, explica que para além da confirmação e registo destes sons em grande profundidade, este estudo permitiu confirmar que “a monitorização acústica espelha as tendências observadas pela pesca: a abundância e diversidade de espécies de peixes capturadas com palangre na mesma zona ao longo dos anos amostrados apresentou tendências semelhantes às observações acústicas, validando assim a informação acústica”. Além disso, este estudo indica uma maior incidência de sons durante o período nocturno e crepuscular “onde a comunicação visual estará ainda mais limitada” para estes animais. 
Este estudo, explica a autora, vem revelar agora as mais-valias desta técnica de monitorização acústica passiva para a Região. Rita Carriço destaca que esta técnica é um método não-invasivo “e relativamente barato”, que pode ser usado para monitorizar espécies ou habitats com estudos de longa duração. “Com os avanços da tecnologia, hoje em dia é possível fazer gravações autónomas durante vários meses seguidos, simultaneamente em diversas áreas geográficas, e cada vez mais com custos mais reduzidos”, afirma.
Esta técnica, que consiste em colocar hidrofones (microfones usados na água) ancorados no fundo do mar, que registaram sons durante vários meses seguidos, tem ainda a vantagem de “poder ser usada em zonas mais remotas e de difícil acesso por outros métodos, como o mar profundo” e poderá também ser usada para “avaliação dos níveis de ruído ambiente e ruído antropogénico, que podem ter um impacto negativo em diversas espécies marinhas”.

Importância para a Região
É por isso que a investigadora Rita Carriço destaca a importância de agora se terem registado sons a grande profundidade. “Este estudo vem assim demonstrar que a monitorização acústica passiva é uma ferramenta com grande potencial para avaliar e monitorizar a biodiversidade em águas mais profundas e de difícil acesso, podendo ser muito relevante na monitorização de áreas marinhas protegidas”, adianta. Mas acrescenta que este estudo, que foi financiado através de uma bolsa de doutoramento financiada pelo Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia – FRCT,  confirmou também que existem espécies àquela profundidade que utilizam activamente o som para comunicar. 
“Pouco se conhece sobre o comportamento e ecologia de muitas espécies de peixes que vivem a maiores profundidades, mas estudos como este que descrevem os sons produzidos por estas espécies podem ajudar a compreender melhor os seus ritmos diários e sazonais”, explica a investigadora que acrescenta que este estudo pode ajudar nas decisões políticas. 
É que pode também ser de grande utilidade no apoio à decisão e na gestão e divulgação, “no sentido de poder contribuir para a conservação de recursos marinhos cruciais para o desenvolvimento sustentável da Região”.

Em que constituiu o estudo?
Os autores do estudo, agora publicado na revista Deep-sea Research I, pertencem ao Instituto de Investigação em Ciências do Mar – Okeanos & IMAR – Instituto do Mar da Universidade dos Açores, ao Centro de Ciências do Mar e do Ambiente – MARE, polo do ISPA e ao Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais - cE3c, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Mas Rita Carriço também não se esquece dos homens do mar que permitiram o uso das suas embarcações para a recolha dos sons. 
“Este estudo só foi possível com a colaboração de uma vasta equipa de várias instituições, desde os orientadores: Maria Clara Amorim (FCUL, MARE-ISPA), Paulo Fonseca (FCUL- Ce3c) e Gui Menezes (Okeanos, IMAR/DOP); com a colaboração de Mónica Silva (Okeanos, IMAR/DOP) que disponibilizou os dados acústicos que foram recolhidos desde 2008. Estiveram ainda envolvidos na análise e discussão dos dados Manuel Vieira (FCUL, MARE-ISPA) e Marta Bolgan (U. Liège, MARE-ISPA). Este estudo contou ainda com a colaboração na recolha dos dados de Irma Cascão, Rui Prieto, Pedro Afonso, Jorge Fontes (Okeanos, IMAR/DOP) e skippers e membros da tripulação que permitiram a colocação dos hidrofones na água (inicialmente colocados para a monitorização de cetáceos)”, revela.
O estudo, que teve início em 2017 com o projecto de Doutoramento na Universidade dos Açores de Rita Carriço, começou por colocar hidrofones ancorados no fundo do mar, que registaram sons durante vários meses seguidos. Foram analisados registos acústicos no sentido de contabilizar a abundância e diversidade de sons de peixes encontrados.
Mas nem tudo foi simples e uma das principais dificuldades encontrada pelos investigadores consistiu “na inexistência de um catálogo extenso dos sons que podemos encontrar e associar o som à respeciva espécie. Neste caso os sons foram classificados como sons de peixes através da comparação com registos de outras espécies descritas na literatura”.
A investigadora lamenta que ainda existam relativamente poucas espécies de peixes com os seus sons descritos e analisados, sendo que “estão registadas cerca de 20 espécies de peixes vocais presentes nos Açores e cerca de 79 potencialmente produtoras de sons que ainda não se encontram confirmadas”.
Algumas das espécies vocais que existem nos Açores e que podem ser encontradas a esta profundidade incluem o Mero (E. marginatus), peixe piloto (N. ductor), peixe galo (Z. faber), peixe lua (M. mola), Ruivo (C. cuculus), Lírio (S. dumerilli), Prombeta (T. ovatus) e Anchova (P. saltatrix). Actualmente os investigadores estão a tentar identificar algumas das espécies responsáveis pelos sons detectados usando gravações simultâneas de som e vídeo em águas menos profundas.

Resultados
Os sons de peixes agora registado exibiram interessantes padrões temporais (anuais, sazonais e diários) de abundância e diversidade de sons. As tendências anuais registadas de abundância e diversidade de sons foram semelhantes às observadas através de amostragem pelas pescas para um período tempoaral similar, validando a informação acústica. Os resultados indicam também a existência de maior incidência de sons no período noturno e crepuscular, onde a comunicação visual estará ainda mais limitada. Este estudo vem assim demonstrar que a monitorização acústica passiva é uma ferramenta com grande potencial para avaliar e monitorizar a biodiversidade em águas mais profundas e de difícil acesso, podendo ser muito relevante na monitorização de áreas marinhas protegidas. 

                                         
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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