23 de agosto de 2020

Pedintes e agradecidos

 1- A Região pediu um apoio estatal de 190 milhões de euros para a SATA recorrer a um empréstimo que permita a empresa fazer face aos custos operacionais de 2020. 
2- Na altura foi explicado que o montante em causa seria insuficiente para acomodar os prejuízos que a empresa teria devido ao encerramento do espaço aéreo durante a pandemia, o que era natural, já que os custos operacionais do Grupo SATA têm sido superiores a duzentos milhões de euros.
3- Os custos com pessoal representam cerca de 24%, os seja, cerca de 65 milhões de euros. Os combustíveis representam 18%, o que equivale a 46,8 milhões de euros. Estes dois vectores representam 43% dos custos operacionais da empresa. Juntam-se ainda os custos significativos de 23,8 milhões respeitantes a rendas e alugueres e mais de 17 milhões com fretamentos e ainda cerca de 15 milhões com manutenção. 
4- Apenas nestas cinco contas somamos um custo global de 167,6 milhões de euros, o que só por si já é inferior aos 190 milhões de apoio estatal pedido, mas superior aos 130 milhões concedidos. Dir-se-á que, enquanto os aviões não voaram, não houve gastos com o combustível, mas agora que estão voando, a taxa de ocupação é baixa, e não houve receitas nos três meses em que os aviões não voaram.
5- Ao apresentarmos uma parte substancial dos custos operacionais do Grupo SATA, queremos apenas fundamentar a discordância que temos quanto ao regozijo público havido pela autorização da União Europeia para que a SATA se endivide em mais 130 milhões de euros para cobrir custos imediatos do exercício de 2020.
6- E não compreendemos a subserviência respeitosa quanto ao que opina ou manda a União Europeia, cuja ajuda do Governo da República foi insuficiente e até envergonhada, em comparação com o que fez com a TAP.
7- Ainda por cima, a autorização vem com a ameaça da investigação quanto à legalidade, ou não, dos fundos atribuídos no passado à SATA pelo Governo Regional. 
8- Não se conhecem ameaças à Alemanha quando o Governo salva a Adidas da falência com um cheque de 2,4 mil milhões de Euros, ou quando a França troca o apoio do Estado à indústria automóvel em dificuldades, pelo retorno ao país da produção das fábricas francesas.  
9- Temos escrito e reafirmamos a necessidade da Região dispor de uma companhia de aviação, pois não podemos ficar dependentes das low cost, que servem de acordo com a lei da oferta e da procura e que, de um momento para o outro, tomam as opções que melhor lhes aprouver.
10- E a insistência que fazemos quanto a esta opção, é porque a entendemos como uma questão de regime, embora ela não seja assimilada pela sociedade actual, que pensa e age apenas para o imediato, guiada pelo foco publicitário que gratuitamente vai bebendo nas redes sociais, tomando como o guia de um direito a que igualitariamente todos devem aceder.  
11- Desde há muito que a política regional de transportes aéreos é opaca, executada em função de interesses partidários que transformam as empresas em coutadas, privilegiando clientelas em vez de privilegiarem os interesses da Região e das próprias empresas. 
12- É o que se deduz, quando depois do actual Presidente da empresa ter declarado que a reestruturação da SATA ia ser dolorosa, agora esconde-se o plano de negócios e atira-se a sua divulgação para daqui a seis meses, justificando a necessidade de ser consensualizado com a União Europeia.
13- Tal declaração é acompanhada com um “rebuçado” aos trabalhadores, anunciando que não haverá despedimentos, ficando-se por isso sem saber quem sofrerá as dores da reestruturação que há-de vir.
14- Nessa altura, a culpa da dor será atribuída a Bruxelas e será passado um pano no passado desastroso das últimas décadas da empresa. 
15- E falando de dor, é oportuno referir a dor que é ver a Autoridade de Saúde aparecer um dia como rei absoluto da saúde, anulando ordens dadas na véspera, para passados dois dias, perante a ira das hostes partidárias e dos aficionados da tauromaquia, vir engolir o que disse e o que desfez. Por menos o Ministro da Saúde da Irlanda demitiu-se das suas funções. 
                         

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Categorias: Editorial

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