Correio dos Açores - Onde nasceu?
Igor Sampaio (nome artístico) - Na Rua da Mãe de Deus, no número oito, em Ponta Delgada. Eram três casas pequenas que agora são mais altas, três casas iguais de porta e janela, umas casas muito compridas como quase todas as casas açorianas.
(…) Chamo-me João Luís Duarte Ferreira, nasci em Ponta Delgada. O meu pai era dos Mosteiros e a minha mãe dos Ginetes.
Onde fez a escola primária?
A escola primária fiz sempre no mesmo edifício, em frente ao Mercado da Graça. Fiz a escola primária aí e depois fiz a escola Comercial e Industrial, ao lado, no mesmo edifício, no palácio que hoje é a Escola Roberto Ivens. Lembro-me da construção do Teatro Micaelense, mas fizeram um mamarracho ali à frente. É imperdoável terem dado cabo daquele largo. Evito ir para aqueles lados mas sinto uma revolta muito grande. Há coisas muito boas que têm feito em Ponta Delgada, mas um bar em frente ao Teatro Micaelense tapa-lhe a fachada.
Quando vai para Lisboa?
Em 1996 estive uns meses a fazer especialidade em Tancos. Depois estive no comando em Ponta Delgada. E praticamente um ano e depois regressei a Lisboa, porque pedi transferência para poder vir estudar pintura.
Nessa altura já pintava, já tinha feito duas exposições. Vim acabar a secção preparatória para a António Arroio e entrar nas Belas-Artes onde estive um mês e meio. Na altura, precisava mesmo de ganhar dinheiro e fui para o Teatro Monumental pintar num atelier. Tenho fotografias minhas a pintar no Verão uns panos de cinema que existiam por cá.
Eram uns telões grandes que tinham entre 20 a 25 metros de comprimento e eram pintados no chão. Eles eram, depois, colocados nas fachadas dos cinemas e, nessa altura, já pintava cenários e já tinha feito teatro amador na escola.
(…) Tive um mestre que me ensinou as técnicas da pintura, que me ensinou a representar, que era o Padre Baptista e que era um artista, um óptimo actor que não representava porque tinha vergonha. Ajudei-o durante uns quatro ou cinco anos e passei a estudar à noite.
De dia era um péssimo aluno e à noite passei a ser dos melhores se não o melhor em algumas disciplinas. O que queria era estar por Lisboa para poder viajar, conhecer a Europa e visitar museus. E foi o Padre Baptista que me abriu os olhos e que me ensinou muita coisa para ver na Europa. E foi isso que fiz ao fim de seis meses em Lisboa: fui dar uma volta pela Europa durante quase dois anos, à boleia, e fui directo a Amesterdão ver museus.
Também estive em Paris durante algum tempo a pintar nas ruas, e em Portugal, antes do 25 de Abril, era proibidíssimo fazer isso.
Esteve pouco tempo na Escola de Belas Artes…
Comecei a faltar às aulas na Escola de Belas-Artes. Não estava muito entusiasmado com alguns professores. Soube do trabalho no atelier de decoração e cartazes, e estive aí durante uns quatro a cinco meses…
No Teatro Monumental havia duas salas de espectáculos onde estavam grandes actores durante muitos meses. As comédias, sobretudo, levavam um ano e meio ou dois anos em cena.
Conheci o grande figurinista, talvez o maior figurinista que tivemos no século XX, que era o Pinto de Campos que tinha estado muitos anos em Paris. Na altura, ele precisava de montar uma peça no Teatro Monumental e vieram dizer-me que ele precisava de um assistente.
Falei com o senhor e ele aceitou-me. Estávamos a três dias da estreia de uma peça. Fiquei lá, fiz várias revistas e, depois, teatro proclamado.
Nesse mesmo ano que fui para o Teatro Monumental, em 1967, entrei no conservatório, no Bairro Alto mas que agora fica na Amadora, onde estive um ano. E, depois disso é que fui dar a volta pela Europa. Ao regressar terminei o conservatório em 1971.
Acabei o conservatório, tirei carteira e tive que mudar de nome. Passei a chamar-me Igor Sampaio.
Qual foi a sua primeira interpretação como actor?
Eu estreei-me como actor na época natalícia de 1967. Naquele tempo, fazíamos muitos espectáculos infantis e estreei-me num espectáculo de Natal da autoria de Norberto Ávila, nosso conterrâneo e um dos autores portugueses mais traduzido, sobretudo na Alemanha. Era uma peça onde entrava também o nosso conterrâneo e saudoso Luís Horta, de quem fiquei muito amigo também.
Luís Horta era um actor e lembro-me de ainda em pequenino ter ido vê-lo actuar ao Relvão, em Ponta Delgada; nos ‘Companheiros da Alegria’, no Coliseu. Ficámos amigos e fomos vizinhos durante 12 anos. Ele morreu quando estávamos a fazer o “Mau tempo no Canal”.
Mas essa peça infantil de Natal, em que me estreei como actor, foi feita em simultâneo com um espectáculo de Natal com animais ao vivo que vinham do Jardim Zoológico, inclusive os camelos dos três reis magos que iam todos os dias para o pavilhão dos desportos.
Mas lembro-me de ter saído a correr com um dos meus colegas para o Teatro Monumental para a tal peça, porque andávamos a fazer muitos espectáculos para os filhos e colaboradores das grandes empresas.
Qual a peça que mais o marcou no teatro?
Estive 22 anos no Teatro Nacional. Fiz uma turné ao Canadá e aos Estados Unidos, e quando regressámos e fiquei três anos na Revista, no Parque Mayer. Fui para lá em 1974, fiz a primeira Revista após o 25 de Abril e depois chamaram-me na reabertura do Teatro D. Maria II em 1979.
Fiz muitas peças porque estive no Teatro D. Maria II durante 22 anos. Fiz várias peças que me deram prazer no tempo do Ribeirinho, mas ainda estávamos naquela fase após 25 de Abril e os encenadores ‘de uma cor’ chamavam mais vezes ‘os da mesma cor’ e mesmo partido. Mas aquilo foi passando, foi melhorando, ganhei um prémio de interpretação da ‘Nova Gente’ com uma peça onde era protagonista o Ruy de Carvalho.
Não quero dizer com isto que tenha sido a peça que mais me deu prazer. (…) Mas houve uma que me deu muito gozo fazer há cerca de cinco anos no Teatro da Comuna. Era uma adaptação de uma peça americana, de João Mota, feita em cinema nos anos 90 e que foi adaptada para Portugal. Chamava-se “Crise no Parque Eduardo VII”. Éramos sete ou oito actores, e esta era a peça que eu adorava levar aos Açores.
Fui às ilhas três vezes e tenho um desgosto muito grande porque vou fazer 76 anos de idade (…). Há açorianos que estão cá no Continente que me dizem que tenho que marcar o espectáculo com muita antecedência mas é impossível juntar uma companhia com vários actores que fazem televisão marcar uma coisa com dois anos ou mais de antecedência.
Fui aos Açores três vezes e nunca fui atendido. Já que ia a São Miguel incumbiram-me, no Teatro da Comuna, de fazer contactos na minha terra. (…) Fui atendido por uma senhora que me disse que alguém iria entrar em contacto comigo e até hoje estou à espera do telefonema.
Entretanto, a peça foi interrompida ao quinto ou ao sexto dia porque tive que ir para o hospital com uma pancreatite aguda e estive lá um mês. E, alguns meses depois, a peça foi reposta.
Já tinha feito uma peça anterior na Comuna, com a Céu Guerra, que também pensei em levar aos Açores mas não insisti muito por outros motivos; era “A dança da morte”.
Fui em 1970 numa turné com Orlando Vitorino, (…) éramos vários actores e cada um de nós protagonizava várias peças, mas tive a pouca sorte de a censura cortar a minha peça. Já não fui aos Açores como actor mas como cenógrafo e figurinista. No Teatro Nacional fui aos Açores uma vez apresentar o “Falar a verdade a mentir” do Garret em substituição de um colega meu e nem tive direito às fotografias.
Só em 2004 é que fui com a Rita Ribeiro, com uma comédia da autoria de Henrique Santana, chamada “Aqui há Fantasmas”. Aí tivemos o Coliseu Micaelense cheio, mas nunca mais fui como actor. Tenho esse desgosto e já não tenho grandes esperanças.
Agora estou a fazer outra peça na Comuna, e é esta que tem-me dado trabalho porque deixaram de chamar os mais velhos para a televisão não sei porquê.
Qual a sua primeira experiência em televisão?
Foi numa série de Nicolau Breyner, “O Espelho dos Acácios” e depois fiz várias sitcoms.
Como foi a sua relação com Zeca Medeiros?
Já éramos amigos. Conheci-o em 1970, temos um passado idêntico e tenho muitos amigos na RTP/Açores. (…) A minha relação com o Zeca é genial, somos mesmo muito amigos. (…) É genial e tem uma sensibilidade fora de série. Os trabalhos dele têm sido muito bem aceites em Portugal continental, mas nos Açores, tirando os amigos, ele merecia ser mais reconhecido.
Participei também no “Gente Feliz com Lágrimas”, o que também me deu muito gosto e prazer. (…) Era um papel que exigia um bocado de mim, porque quando somos mais novos à medida que vamos adquirindo prática é que vamos melhorando.
Projectos para o futuro?
Nenhuns. Em televisão nunca sabemos. De um momento para o outro podem ligar-nos para saber se estamos disponíveis. A penúltima novela que eu fiz foi gravada num ano e um dia, mas não tenho planos para televisão.
No teatro, na Comuna, tivemos cinco espectáculos no mês passado, com 38 graus e sem ar condicionado. Foi muito violento.
Devido à pandemia, não podemos ter casa cheia, e as pessoas que lá estão têm que estar de máscara. Para uma comédia ouve-se umas gargalhadas muito abafadas e é um bocado estranho, mas é melhor do que nada, melhor do que não estar ninguém.
A Comuna fechou para férias, fecha sempre no mês de Agosto, e a peça vai ser reposta no dia 17 de Setembro. E vou começar a ensaiar no dia dois ou três. Por isso quero ver se vou a São Miguel entretanto.
(…) Em Junho fui a São Miguel uma semana, em Julho voltei a ir e queria ver se conseguia ir também ainda em Agosto.
JP/JM