O Governo da República ainda não tem um ano de desempenho de mandato e no entanto apresenta-se gasto e cansado, sem energias para fazer face com criatividade à pandemia e suas consequências, acumulando gaffes e insucessos, dando para o exterior uma imagem simplesmente desmoralizadora. Os tiques de arrogância mal disfarçam a fragilidade da situação, instável por natureza, já que assente numa minoria parlamentar, carecida de permanentes negociações com os outros partidos, desde logo com os anteriores parceiros da malfadada “Geringonça”.
Foi o PS quem escolheu livremente este estado de coisas e portanto é exclusivamente responsável pelo que se está passando, tal como pelo que se antevê vir aí... Todos nos lembramos da forte vontade do Bloco de Esquerda de negociar, após as eleições, um acordo para a legislatura, eventualmente incluindo mesmo uma coligação que lhe desse acesso ao Executivo. Quanto ao PCP, fragilizado pelos maus resultados eleitorais, atribuíveis ao “abraço do urso” do PS, que já lhe arrebatara autarquias locais emblemáticas, logo, na mesma altura, se pôs de fora, recuperando a sua liberdade de partido de protesto. Ainda assim, não lhe têm faltado as vénias do Governo, que lhe autorizou, ainda em pleno estado de emergência, a manifestação do Primeiro de Maio e vai deixar passar em breve a tradicional Festa do Avante.
O PS é que rejeitou comprometer-se com o BE, temendo talvez ficar refém - mais ainda... - das questões fracturantes e dos propósitos de engenharia social deste. Entretanto, não hesita em dar cobertura aos projectos animalistas do PAN, votando novos crimes e novas penas para tudo e mais alguma coisa, baralhando valores e confundindo as mentes. São os tais sinais de política de esquerda em que o Governo do PS abunda, enquanto prossegue na linha de bom aluno do consenso europeu, com algum exagero até, como aconteceu na aproximação ao Governo da Hungria e ao seu pouco simpático Primeiro-ministro.
No domínio europeu, o Primeiro-ministro António Costa inscreve bons e maus resultados. Falhou a escolha do Presidente da Comissão e tem agora de entender-se com uma réplica da Chanceler alemã, pela mesma imposta com grande habilidade e sem contemplações, deixando para a França a presidência do Banco Central Europeu e para a Espanha o patético cargo de Alto Representante para a Política Externa, coisa que simplesmente não existe. Mas pode gabar-se de ter obtido para Portugal uma boa parcela dos fundos europeus destinados a superar a crise económica e social resultante da pandemia.
Talvez por causa disso, António Costa dá agora sinais de preocupação e parece querer voltar à mesa das negociações com os seus antigos parceiros, desde já para acertar o Orçamento do Estado para 2021, com portas abertas para futuros entendimentos de mais ampla latitude. O Presidente do PS, Carlos César, intimou já os ditos partidos a decidirem-se de uma vez por todas e rapidamente no sentido de um acordo para um governo de esquerda, o que quer que seja que isto realmente signifique.
Que o PS está querendo fazer brilhar as suas credenciais esquerdistas, eis uma realidade várias vezes afirmada nos últimos tempos pelos seus dirigentes de topo. Quando aparecem as concretas reivindicações das forças políticas da área, nomeadamente a revisão das leis laborais, aliás no sentido das propostas feitas pelo PS quando estava na Oposição, a recusa governamental tem sido rotunda. Parece que o mesmo se prepara para acontecer a benesses anteriormente proclamadas pelo Governo e aplaudidas pelos ditos partidos, a subida do salário mínimo nacional ou a redução do IRS para as famílias, por exemplo.
A paragem da actividade no segundo trimestre deste ano pôs a economia nacional de rastos e as medidas de protecção social, urgentemente decretadas num quadro de quebra das receitas dos impostos, atiraram a dívida pública para patamares estratosféricos. A fim de não perder completamente a face na política financeira, prosseguida com tão elevado nível de propaganda, o Governo tem de andar agora com as maiores cautelas, adiando promessas, enquanto não ficam disponíveis os fundos europeus, aguardados com verdadeira ansiedade.
Como ninguém quer ficar com o odioso de uma crise política, em cima das outras que o nosso País já enfrenta, algum modo haverá de viabilizar o OE 2021. Se não forem os antigos parceiros do Governo, não é de excluir que o PSD se disponha a fazer o papel de patriota, mesmo apesar das desfeitas do Governo e do Primeiro-ministro. As infelizes declarações de abertura ao Chega impedem um entendimento alargado dos dois maiores partidos, por motivo de salvação nacional. E está para se apurar se esse entendimento não é afinal a opção alternativa do Primeiro-ministro e do PS, agarrados ao Poder e forçados a escolhas difíceis para assegurarem a sua manutenção.
(Por convicção pessoal, o Autor
não respeita o assim chamado
Acordo Ortográfico.)