Francisco Gomes de Menezes (Pai e Filho)

Duas gerações de arquitectos que deixam marca na arquitectura dos Açores

Recorda-se do ano em que começou a projetar a zona do Bairro que foi desenhada por si? Qual foi a sua maior preocupação quando pensou neste espaço e nos seus futuros moradores?
Arquiteto Gomes de Menezes (Pai) - Começamos a projectar o Paím há cerca de 20 anos. Primeiro a urbanização em si – Loteamento – e depois os edifícios.
As preocupações dominantes foram (…) dotar a cidade de um “bairro” moderno, desafogado, com alguns espaços verdes, ruas largas, muito estacionamento e edifícios arquitetónicos agradáveis, de arquitectura semelhante, funcionais e bem construídos.

Quando projectou o Paim, destinou os edifícios para alguma classe social específica e que como tal teria necessidades específicas?
Antes do Paím, projetamos e construímos outros complexos habitacionais, nomeadamente as Torres do Loreto, a Praceta de Sant´Ana, a banda edificada na Rua que tem o nome do meu avô - Eng.º Luís Gomes - no Lagedo, a Praceta do Papa Terra e a urbanização Príncipe do Mónaco, aliás Prémio Nacional INH (Instituto Nacional da Habitação).
Alguns desses empreendimentos tiveram apoio do Estado e ficaram reservados a famílias com determinado enquadramento económico. Outros, como o Paím, eram de livre acesso. Em ambos os casos, destinaram-se a famílias pouco numerosas de classe média. As famílias mais numerosas procuram basicamente moradias unifamiliares e as famílias com menos recursos recorrem a outros tipos de apoio do estado para adquirir a sua habitação.

Foi difícil equacionar arquitectura urbanística e habitacional?
Não foi difícil embora os parâmetros urbanísticos e regulamentação em vigor constituíssem muitas vezes constrangimento à qualidade que sempre pretendemos emprestar aos nossos empreendimentos.

Arquitetura de grande funcionalidade

Os espaços habitacionais desenhados por si são de uma grande funcionalidade, isso é algo que lhe é intrínseco ou aprende-se na escola de arquitetura?
A “qualidade funcional” que elogiosamente me é atribuída, é algo que não me é intrínseco, que se “aprendia” na Escola de Arquitectura e que a experiência e bom senso potenciam.
Existem em Ponta Delgada pelo menos duas zonas de construções de apartamentos que são da sua autoria. A das Torres do Loreto e a do Paim. Entre uma e outra mediam alguns anos, talvez um pouco mais de uma década, existem diferenças significativas entre as preocupações que nortearam uma e outra? Diferenças que terão a ver como novas exigências de habitabilidade?
Não houve uma significativa mudança nas exigências habitacionais entre a altura em que foram construídas as Torres do Loreto e o Paím.
As diferenças que existem – e são poucas – devem-se ao facto de a urbanização do Loreto se inserir num programa de habitação social com regras muito fortes e a urbanização do Paim ser de livre acesso, apenas condicionada pela legislação em vigor à data.

Pode dizer-se que abriu caminho em Ponta Delgada para a projeção de habitação em altura?
A habitação em altura em Ponta Delgada, que não me choca, por potenciar as infra-estruturas urbanísticas, foi iniciada antes do 25 de Abril, nos anos 50/60 no prédio do Dr. Rosa, na Avenida Marginal, pelo estado na Avenida D. João III (Casas da Previdência), seguindo-se a Torre do Solmar. Não fui precursor.

Recuando um pouco atrás. Como foi a sua experiência ao regressar a Ponta Delgada, com uma visão bastante contemporânea de arquitectura aprendida na Universidade e o contacto com um mercado tradicional e conservador. Foi difícil lidar com os clientes de então? Para mais tendo o Senhor que ter de gerir uma Empresa, que pela morte prematura do seu pai, sofreu um vazio de gestão? Teve de fazer cedências?
Foi difícil na data em que regressei a Ponta Delgada - 1968/1969 – propor a inclusão de arquitetura na construção. Além de poucos, a grande maioria dos projetos eram subscritos por engenheiros civis e o arquiteto era visto como um luxo encarecedor e prescindível.
Após dois ou três projectos mais arrojados, para arranjar trabalho tive de recuar para formas tradicionais. O próprio governo de então era muito conservador. As necessidades de gestão da empresa de construção civil que me foi cometida, obrigaram-me a muitas cedências. No entanto, com muito trabalho e alguma persistência, com o passar dos anos, foi possível começar a propor formas e funcionalidades mais contemporâneas e levar as pessoas a desejar a participação do arquitecto nos seus projectos.
Os meus colegas mais novos, sem o saberem, devem-me em grande parte esta abertura para o exercício da profissão no nosso meio.

Tem algum projeto em Ponta Delgada que gostasse de destacar?
Tenho vários projectos que considero relevantes, mas não gosto de destacar nenhum em especial.

Regressando ao Paim. Há alguma coisa que gostaria de modificar no Bairro, algo que faria hoje de forma diferente?
Nunca pensei nisso, mas é natural que com a evolução dos anos se começasse hoje algo seria diferente. Contudo, parece-me ainda bastante bem o que ficou feito.

Edifícios que vão valorizar com o tempo

Com o passar do tempo, e partindo do princípio de que haverá uma manutenção adequada, acha que os edifícios projetados por si no Paim terão tendência a valorizar ou a desvalorizar?
A Urbanização do Paím, muito bem localizada na cidade e com ótimas acessibilidades e de arquitetura consistente, é de muito baixa densidade e a infraestrutura urbana é de grande qualidade, o que se traduz claramente numa valorização com o tempo.

Um Centro de Convívio ou de Dia 
seria adequado

Há algum equipamento urbano que acha que o Paim precise e que o possa valorizar?
Desconheço a composição etária dos residentes do Paím. Com o passar do tempo, como em qualquer urbanização, os mais idosos serão em número significativo e, neste caso, um centro de dia ou de convívio seria adequado.

É uma óptima ideia a valorização 
dos espaços verdes

Há a intenção por parte dos moradores do Paim de tornar os espaços verdes mais interessantes, nomeadamente ajardinando-os, tem algum conselho, que possa adiantar nesse sentido?
É uma ótima ideia a valorização dos espaços verdes. Para tanto recomendo a participação de um arquiteto paisagista.
                                                    

“A boa arquitectura resulta daeducação, respeito e bom-senso” -  Francisco Gomes de Menezes (Filho)

A sua intervenção no Paim ligou-se aos três edifícios mais recentes, que apresentam um aspeto mais contemporâneo que se manifesta sobretudo nos materiais utilizados. A sua intervenção ali foi mais de ordem estética ou foi também estrutural? Como  conciliou arquitetura de exterior e interior? 
Arquitecto Francisco Gomes de Menezes (Filho) - A minha intervenção no Paim inicia-se em conjunto com meu pai na fase de revisão do projeto de Loteamento que a empresa Luís Gomes Sucr Lda. havia adquirido. Desenvolvemos juntos os respetivos projectos de arquitectura, complementados por projeto de paisagismo. Infelizmente, com a crise houve uma paragem no desenrolar das obras. Estas paragens repercutem-se de modo muito duro em termos de descaracterização nos empreendimentos urbanísticos, são péssimas para a qualidade da urbe e deixam inevitavelmente cicatrizes a todos os níveis. Acredito que a recuperação é possível mas perde-se o momento e com ele a noção de qualidade que subsiste ao empreendimento face à exposição prolongada da comunidade a um cenário de abandono. Esta retoma da urbanização do Paim começou, felizmente, pelo resgate de estruturas já iniciadas e que estavam paradas. O que tornou a intervenção mais interessante, pois permitiu revermos o nosso projeto.

“Não dispenso a opinião de meu pai”

Em alguns casos a sua intervenção nos edifícios em causa também contou com a participação do seu pai. Como consegue conciliar o trabalho conjunto? Duas gerações de arquitetos têm tendência a chocarem-se ou a complementarem-se? 
Comecei a frequentar o atelier do meu pai em estudante, no Liceu, desde que decidi que queria ser arquitecto. Ele, na verdade, nunca achou boa-ideia eu querer ser arquitecto, o que qualquer arquitecto, de bom-senso, compreende. Ajudou-me, no entanto, no que entendia que me devia ajudar e não me ajudou no que entendeu que eu precisava de me “desenvencilhar”. É preciso ter a noção de que são necessários alguns anos após a licenciatura para um arquitecto estar apto. Assim, só passados alguns anos da minha licenciatura e tendo muita experiência acumulada de trabalho em edilidades é que acho que consegui delimitar a minha prática. Desta maturação resulta naturalmente a percepção de que a maior experiência de um arquitecto é sempre uma mais-valia. 
- Não dispenso pois a opinião de meu pai - ele podia era dar a sua opinião com mais “cerimónia”! Os choques são pois mais de natureza pessoal onde se inclui a problemática geracional. A arquitectura, a boa arquitectura, é intemporal e os arquitectos melhoram com a idade. Assim o atestam os mestres como o Siza que acabou de concluir ao mesmo tempo o “611 West 56th Street” em Manhatan, Nova Iorque, com 36 pisos e a “ Casa Wabi” em Puerto Escondido no México, com cobertura de colmo e paredes em tijolos de barro rústicos. Em suma, e em resposta à sua pergunta, como é trabalhar com o meu pai? É um privilégio trabalhar com o meu pai, porque é um excelente arquitetco. Podia era ser mais “brando” …

  Algum outro projeto da sua autoria que gostasse de destacar? 
No Paim, em termos de equipamentos, há um projeto que desejo destacar, a Creche do Patronato de São Miguel. Por ser um equipamento que, ao albergar as crianças, cria e consolida a noção de comunidade. Aliás, no urbanismo Inglês coloca-se sempre no centro das novas comunidades as escolas - as crianças. Nada une mais as pessoas do que o interesses nos seus filhos e dos seus filhos. Esta creche foi pensada para ser “verde”. Para ser revestida de trepadeiras e ter uma Horta-Jardim na sua cobertura para uso e desfrute da comunidade. Desenvolvi o projeto em parceria com minha mulher e arquitecta Ana Feijó e o arquitecto paisagista Diogo Jácome. Ambos colaboraram graciosamente neste projeto que muito nos apaixonou. Esta creche, como dito, foi pensada para ser “verde”, sem necessitar de sistemas de ar-forçado (ar-condicionado) e resultou num equipamento com custos inferiores aos demais edificados na altura com igual ocupação. Aproveito para associar este propósito à alegre notícia dos moradores do Paim se terem organizado para divulgar a sua existência e desejar que a abracem e desenvolvam a horta na cobertura da Creche do Paim. Faz ainda falta no Paim um Jardim de Infância e qualquer outro equipamento que sirva as crianças. 

A igreja Paroquial (Nossa Senhora de Fátima) à qual pertence o Paim é da sua autoria – pode falar-nos um pouco da conceção desse projeto? 
O projeto da Igreja foi começado por meu Pai que prometeu oferecer os seus préstimos ao Monsenhor Maia, então Pároco da Igreja de São José, para o Projecto de uma Igreja no Lagedo. Foram feitos vários projectos para esta Igreja pelo meu pai ao longo de muitos anos e foram inclusive colocadas várias primeiras pedras… história muito extensa. Interessante para quem queira compreender e caracterizar as nossas décadas de 80 e 90. Tive a sorte de assumir este seu compromisso, sob o seu patronato e ver a Igreja realizada, decorridos vários anos e projectos também, de acordo com um projeto de minha autoria. O ser dedicada a Nossa Senhora de Fátima foi determinante na sua concepção. Pensei na qualidade feminina que tinha que ter, e nas nossas mães: - Luz , Água , Vida ; - Pureza , simplicidade , bem-estar . Graças ao Dr.º António Luís Borges então Vice-presidente da CM de Ponta Delgada, conseguiu-se um procedimento que assegurou o arranque e custo das obras que decorreram de modo raro com o empenho de todos os intervenientes pela empresa Marques Lda.que destacou o seu melhor encarregado - Mestre Manuel Pavão para a fazer. Lembro de estranhar o pessoal estar a limpar a obra como nunca visto, aos Sábados, logo descobri que era porque no Domingo haviam “excursões” de suas famílias e amigos a visitar a futura Igreja. A última do século XX entre nós, a primeira do Sec XXI. 

Hoje em dia, na sua opinião, é preciso ter muito dinheiro, para se ter acesso a boa arquitetura? 
Não, de modo algum, seja qual for o programa e o orçamento a arquitectura divide-se sempre em duas, a “ Boa “ e a “Má”. A boa arquitectura resulta sempre de educação, respeito e bom-senso.  
                                                             

Teresa Tomé

                                                   
                                                  

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Autor: CA

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