26 de agosto de 2020

Cumprimentos ao sr. Dáte

 Ultimamente apanho-me muitas vezes a pensar sobre o tempo em que vivemos. Que tempo é este? A minha sensibilidade, não sei por que vias, indica-me que estamos numa época de mudança. De mudança para um outro tempo com outras características. 
Como quando entrámos, por exemplo, na grande época do Renascimento, em que o homem se tornou o centro motor do devir da História, em que havia a firme certeza de que este tinha todas as condições para singrar rumo a uma vida plena. Houve então uma alteração significativa de como a vida era encarada. Deu-se, então, início à Idade Moderna.
As tais vias, que teimam em não se dar a conhecer, informam a visão que tenho de um novo tempo. E esta visão não é acompanhada de optimismo, mas sim por uma vertigem. Como quem está alcandorado na ponta de um penedo e os olhos já só veem o precipício e o corpo já não sente apoio. 
A tão falada mudança de paradigma económico para uma economia mais amiga do ambiente, que reverta as alterações que o clima está a sofrer, em que as fontes de energia renováveis substituam as que utilizam o carbono, tem servido para produzir bonitos documentos e declarações políticas facundas, cujas intenções pouca concretização prática têm. Uma coisa é certa, o consenso da ciência demonstra, para além de qualquer dúvida razoável, que é indispensável essa alteração de paradigma. Urgentemente. As facilidades tecnológicas de que agora dispomos e que vão surgindo a uma velocidade estonteante, umas com fins nobres, outras com objectivos muito estranhos, também parecem ser uma marca do tempo actual e que se irão aprofundar por caminhos e com resultados que são em certa medida insondáveis.
As transformações económico-sociais globais que se percebem como necessárias parecem comprometidas. É titubeante a sua implementação, aplicam-se-lhe muitas rasteiras que as levam ao chão. Gostaríamos que fossem aplicadas já as estratégias e as políticas que estão identificadas como apropriadas para lidar com o diagnóstico que temos dos grandes problemas do mundo. Ainda assim há confiança de que, mais tarde ou mais cedo, com menor ou maior empenho dos governos, as coisas boas e bem feitas vão despontando.
A vertigem pela visão do desconhecido que parece que esse novo tempo trará é principalmente devida à forma insidiosa como a mentira prospera nas nossas sociedades, veiculada de diversas formas, alegre e convincente, criando um império de confusão em que afinal se vão todos habituando. É extremamente preocupante o facto de o «fake» e o «deep fake» (esta última palavra até aponta para o abismo profundo, escuro) se estarem a banalizar, a tornar moda, serem seguidos nas chamadas “redes sociais” como a bússola que aponta o norte, quando apenas iludem e desnorteiam. E parece, dia após dia, ano após ano, que esta tendência se agrava e será a pedra de toque desse novo tempo.
A governação do mundo vai mal, os que deveriam liderar navegam sem conhecer o seu porto. Assim não há bons ventos. A tendência para regimes autocráticos cresce, em todos os continentes, associada a cortinas de fumo que ludibriam. A esperança que há, está em indivíduos perspicazes que alertem para os perigos da mentira e que os saibam comunicar às massas de forma a que estas entendam. 
A atitude passiva dos homens é o que mais me admira. Bebemos copos de engodo com uma regularidade tal que já nem embaraça a digestão. Pois não haverá quem perceba a manipulação a que é sujeito? E gostam disso? E ainda a defendem? Ver a sua liberdade assim destruída, não os afecta? É preciso que o vejam e o percebam, daí que, quando na conferência de imprensa na Casa Branca, no passado dia 13 de agosto o jornalista S. V. Dáte, correspondente sénior do HuffPost, perguntou serenamente ao Presidente dos Estados Unidos da América “Senhor presidente, depois de três anos e meio [referia-se ao tempo decorrido da sua presidência], arrepende-se de todas as mentiras que disse ao povo americano?”, a ligação com as cogitações que tenho tido se fez.
O que a seguir se sucedeu vale a pena recordar. Da pergunta o jornalista passa a uma entoação afirmativa encapotada na interrogação “as mentiras, desonestidades”, “As suas, as dezenas de milhares de...” O jornalista parece não acreditar que finalmente teve a oportunidade de colocar a questão e ainda, inimaginável, de a reforçar com apontamentos precisos e certeiros que o sr. Presidente facilitou ao simular não compreender. Não houve oportunidade para prosseguir, argumentar, porque houve um desvio táctico por parte do sr. Presidente para outro jornalista. Ficou clara a sua atrapalhação quando as perguntas querem fazer emergir a verdade. 
Quem espera sempre alcança. O jornalista assim o fez e estava preparado no momento em que a oportunidade se lhe deparou. Mas atenção, muita atenção!, engana-se quem pensa que este é um problema do sr. Trump. O problema é pandémico. 
Para um tempo novo haja homens que façam perguntas, de todos os tipos, e perguntas filhas dessas primeiras, e que ponham a mentira e a verdade à vista de todos. A mentira engana e encobre a verdade, que uma vez desvelada aponta caminhos de prosperidade. É este o tempo novo que muito esforço e dor exigirá –o da Verdade. 


                              24 de agosto de 2020 
                              Manuel Leitão
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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