Vestígios encontrados na Grota do Medo

Descoberta peça de cerâmica na Terceira com cerca de 2.530 anos que confirma presença humana na ilha antes dos Portugueses

Correio dos Açores - Esta peça de cerâmica descoberta na Grota do Medo, na ilha Terceira, e datada com 2.530 anos, é uma descoberta que surge no seguimento de outras?
Félix Rodrigues (Investigador da Universidade dos Açores)- É um processo muito longo que já dura desde 2011 e que resulta de um conjunto de estruturas que vão sendo encontradas na Terceira, mas também nas outras ilhas. Em todas as ilhas do arquipélago. E que a mim me provocaram alguma perplexidade desde o primeiro momento em que comecei a encontrar construções provavelmente arcaicas, pela tipologia que apresentavam, com semelhanças enormes com sociedades pré-históricas e que não faziam sentido em termos culturais. Que tinham a ver com a reprodutividade deste tipo de estruturas, de construções, porque há um hiato temporal enorme entre uma sociedade pré-histórica e uma sociedade desenvolvida como a sociedade portuguesa na altura dos descobrimentos, que tinha na altura tecnologia de ponta, com os melhores construtores, com as melhores tecnologias de navegação. 
Perante isto, houve sempre um conjunto de dúvidas que nos colocaram, e a outros, inclusivamente arqueólogos. Ao longo dos vários tempos, vários trabalhos têm vindo a ser feitos. E alguns que culminam em datações.
Até agora, tinha conseguido, juntamente com dois colegas, fazer datação de duas estruturas na ilha Terceira. Uma pia com desenhos, e que tinha sedimentos no fundo que estavam sedimentados de forma quase rocha mas que continha pedaços de insectos no interior. O que significava que os mosquitos tinham entrado na pia, depois de ela estar feita. Depois de serem datados, esses mosquitos deram uma idade de mil anos, o que significa que podia dizer que a pia tinha mais de mil anos. E aí entroncamos logo na lógica do pré-português, porque Portugal tem 950 anos. Mesmo que fosse só mil anos, que não é forçosamente a altura de construção da pia, é a idade mínima, porque implicava que os mosquitos tinham morrido logo na altura em que a pia se fez, e não posteriormente, ficávamos logo com este paradoxo. 
Na sequência disso, há um outro trabalho em que tentou datar-se as relheiras da passagem das bestas, que é um sistema vasto que resultou de uma limpeza que a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo fez, para transformar aquilo num trilho pedestre, onde juntava a parte patrimonial à parte mais natural. Eu fui lá e acompanhei um pouco a limpeza e fiquei impressionado quando comecei a perceber que elas enterram-se muito no solo, à medida que os trabalhadores iam limpando, e que tinha sido coberta por uma erupção. Tentei perceber qual teria sido a erupção, fiz vários processos de datação, e concluí exactamente o mesmo: que as relheiras tinham mais de mil anos.
Esta publicação [do pedaço de cerâmica com mais de 2.530 anos] é diferente e faz muito mais sentido. Havendo construções megalíticas implicava que tínhamos um megalitismo nos Açores que não podia ser feito pelos povoadores, porque o megalitismo vai para o Neolítico – Idade do bronze, Idade do ferro – e as cronologias até então encontradas não batiam bem. 
Trabalhos posteriores foram feitos na Lagoa das Sete Cidades, em São Miguel, em que se detectou através de pólen e que corresponde a produção de cereais, a presença humana há pelo menos há 750 anos, antes da descoberta dos Açores pelos portugueses. E no Pico, presença humana com 1.200 anos.
Isto é algo que tem vindo a ser trabalhado. O que foi feito agora e tem vindo a ser trabalhado há algum tempo, é material encontrado numa construção, tipo argamassa, e depois de estudado se percebe que é tipo cerâmica, terracota. E consegue-se perceber a sua composição e como foi feito. É isto que foi datado. E há outros materiais que foram recolhidos, sem escavação, para análise posterior. A conclusão a que chegámos é que o material foi colado numa parte das pedras que foram inequivocamente trabalhadas pelo homem há 2.530 anos. Ou seja, estamos a falar no mínimo do primeiro milénio antes de Cristo. O que bate bem com um conjunto de outras coisas que se têm vindo a observar, como tipologias de âncoras de pedras, tipologias de estruturas.

É trabalho de vida esta investigação?
Este é um dos meus trabalhos. Tenho outros trabalhos que são muito pertinentes e que são feitos paralelamente. Mas é um trabalho para gerações. Há muita coisa, espalhada por todas as ilhas dos Açores, sem excepção. E que necessitam de ser investigados. Isso implica um trabalho sistemático, um trabalho científico utilizando tecnologias de ponta das ciências naturais, a par de outro tipo de ciências que também são fundamentais, como a arqueologia, a história, etc., que de forma interdisciplinar e transdisciplinares, contribuam para o conhecimento da realidade pré-histórica dos Açores. Isto torna-se, do meu ponto de vista, extremamente importante, na medida em que demonstra que numa antiguidade muito remota e da qual não tínhamos a mínima ideia, havia navegação no Atlântico profundo. E se calhar, temos em períodos muito mais antigos, num período muito mais antigo do que se imaginava, viagens entre a Europa e a América. 

Dá novas perspectivas da história dos Açores…
Temos duas histórias. Temos a história dos Açores, ilhas, e da sua ocupação. E temos a história dos açorianos que é claramente uma história portuguesa. São duas coisas diferentes que não se ligam mas fazem parte de um local e que está à nossa guarda. O património é nosso.
É importante porque tudo isto se constitui algo extremamente importante do ponto de vista turístico. Todos os estrangeiros que têm vindo cá de propósito para ver algumas das coisas, ficam fascinados e querem saber respostas, como toda a gente, mas que são difíceis de dar neste momento. Mas isto gera sempre algum ruído, porque as pessoas partem de hipóteses para conclusões, e não podem, relativamente à origem de quem é esta gente, como aqui chegou, se terão sido náufragos. E há questões a que posso responder neste momento. Não foram náufragos. Foi uma comunidade, ou várias comunidades, que andaram por cá, viveram cá durante um período relativamente longo. Se saíram, não sabemos porquê. Mas é uma comunidade que aqui esteve e que se aqui esteve, sabia vir e voltar. Agora, de onde vinham e voltavam para onde? É a grande questão que continua em aberto. 

Esta é mais uma evidência deste lado desconhecido da história.
Eu não quero ter razão. Quero é estar certo. Porque a ciência não se faz de opinião. E é evidente que se os arqueólogos tivessem assumido este tipo de investigação, até podia ter colaborado, mas não estaria envolvido neste processo. O que pessoalmente me motiva, são os argumentos irrealistas dos ditos especialistas que não batem certo. E como não batem certo, não os consigo aceitar racionalmente. 
Não tenho problema em assumir que estou errado, é preciso é que me provem. E não preciso de 50 pessoas a dizer que estou errado, preciso de uma que me demonstre isso. O que interessa é, independentemente de quem tiver feito, as construções são património valiosíssimo. Porque seriam uma réplica do passado muito remoto, único. Que é exactamente da mesma tipologia que as outras que se encontram pelo mundo fora. Isto, curiosamente, fortalece a arqueologia, que trabalha com tipologias. Porque se a tipologia dos Açores estivesse errada, põe em causa todas as datações que são feitas por tipologia noutros locais e isto era revolucionário, nesta perspectiva. 
Há trabalho e tenho muito cuidado, tenho feito muitas análises, levo muito tempo a fazê-las. Poderia ter muitas publicações se utilizasse só tipologia, mas como não utilizo só tipologia, tento ir pelos caminhos mais seguros para a conclusão. 

E há apoio do Governo? Tem havido mais abertura para estas descobertas?
Tive várias conversas com governantes. A questão é que, quando isto tudo estiver provado, eles aceitam. Acho que depois de tudo provado, qualquer pessoa aceita. Este interesse, ou desinteresse, pode resultar por falta de conhecimento, porque muitos não viram as coisas e não sabem do que se trata. Vêem uma fotografia ou outra e há sempre alguém que tira outra fotografia noutra perspectiva enviesante e que baralha tudo. Compreendo que é uma coisa complexa. É preciso perceber porque é que tem interesse. É uma coisa que é paradigmática, que provoca algum desconforto, e há pessoas que nunca vão voltar atrás naquilo que disseram. Porque isso implicava um pedido de desculpas, e não o vão fazer.

Disse que todas as ilhas tinham estas evidências. Mas a ilha Terceira tem tido mais avanços, porquê?
Provavelmente porque eu estou aqui e estou envolvido. Algumas ilhas têm coisas também extremamente interessantes, mas ficam fora de mão e só esporadicamente é que lá se vai. 
Há uns anos houve investigação sobre os Maroiços do Pico. Não se conseguiu concluir que existia gente antes dos portugueses, com a investigação dos Maroiços. Mas a investigação paleo-ecológica, feita na Lagoa do Peixinho, no Pico, demonstrou que havia criação de gado e produção de cereais há cerca de 1.200 anos. E os Maroiços são estruturas fabulosas. Quem diz o Pico, diz outras ilhas. Aqui tem-se avançado mais porque eu tenho estado a fazer algum trabalho, tenho conseguido agregar algumas pessoas. Noutras ilhas faria semelhante se houvesse gente a investigar. O que acontece é que eu não vi nada como a dita Grota do Medo nas outras ilhas. Em termos de Maroiços existem pelo menos nas Flores, na Terceira e em São Miguel, e não há nada comparável em termos de Moiroços, que eu tenha visto, aos Maroiços do Pico.

Do ponto de vista turístico isto tem sido devidamente aproveitado principalmente na ilha Terceira?
Não, não tem sido devidamente aproveitado até porque os terceirenses não conhecem, não imaginam e às vezes até conhecem o local mas quando lá vão não vêem nada porque não é chegar lá, olhar e já está. Não percebem porque aquilo tem lógicas e não tem sido devidamente aproveitado, os guias turísticos não sabem. Já tive o caso do director do Museu de Berlim vir aqui a Angra do Heroísmo para tentar ver a colecção de materiais pré-portugueses do Museu de Angra do Heroísmo e dizerem que não havia nada, que era uma ilusão e uma criação mental. Tenho conhecimento disto e principalmente daqueles que vêm de propósito e são muitos aqueles que todos os anos vêm de propósito e que normalmente me contactam.
Eu acompanho cientistas, e há de facto um potencial. No ano passado tive cerca de 30 cientistas de vários países a vir especificamente para ver. Turisticamente seria um cartaz com interesse, porque Malta tem 4 milhões de visitas por ano nesta zona das relheiras, não nesta altura da pandemia, mas quatro milhões de visitas por ano significa que isto tem interesse e nós temos relheiras em todas as ilhas, a maioria liga-as como sendo da passagem sucessiva de carros de bois, eu garanto que há umas que não são e que não têm nada a ver com isto, as outras precisavam de ser investigadas, e cada sistema de relheiras poderia de alguma forma ser datado, mas seria preciso perder tempo em cada uma delas, perceber a sua lógica, tentar perceber a sua génese e andar ali à procura de forma sistemática de algum material que nos desse alguma evidência da sua génese. 
            
                                                  Carla Dias
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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