27 de agosto de 2020

Discutir a Autonomia – O verdadeiro poder na Região

Todos os regimes e organizações estão permanentemente sob ameaça. Sempre foi assim ao longo da história. Não vou abordar neste artigo a falência financeira que a autonomia encerra e a permanente mão estendida a Lisboa, que muitos tentam negar ou escamotear. Ou tão pouco a fraca qualidade do nosso parlamento, ela é resultado direto da fraca sociedade e da pouca cultura que temos. Não vou comparar o nosso antes e depois da Autonomia e os indicadores económicos e populacionais por Ilha. Não irei abordar a confusão, que na minha opinião se estabeleceu na sociedade Açoriana, entre os benefícios da Autonomia e o fluxo financeiro que veio da Europa. Podia, mas também não vou falar, da forma como os Açores estão reféns de uma política de transportes que castra o desenvolvimento de 8 das 9 ilhas. Tudo pode e deve ser discutido, pois não existem tabus em democracia. No entanto quero abordar o que em meu entender destrói a Autonomia: O verdadeiro poder da Região. O Poder oculto. Recentemente vimos nos USA um exemplo que a todos nós deve fazer refletir profundamente. De uma forma breve e simples, os “GAFA” (Google, Apple, Facebook, Amazon) foram alvo de um inquérito, movido por Democratas e Republicanos, no sentido de impedir que estas empresas tenham atitudes que as levem ao monopólio, que no entender destas duas forças políticas, seria prejudicial para a economia e democracia daquele pais e como tal colocaria em causa os seus princípios basilares. Estamos a falar dos Estados Unidas da América. Nos Açores tal situação seria impossível. Os principais grupos económicos, privados e públicos, apoderaram-se do poder Regional, das suas instituições e dos principais partidos políticos, de tal forma que aniquilaram a Autonomia e a destruíram. São eles o verdadeiro poder da Região. Apenas vêm na Autonomia uma forma de se tornarem mais fortes e poderosos e assim garantirem o seu “pequeno mundo”. Neste momento não faz qualquer diferença quem está no Governo, ele irá ser sempre manobrado por este poder paralelo. Como somos poucos, não temos massa critica acompanhado de um fraco escrutínio, somos duplamente vulneráveis. Quero deixar bem claro que não falo de corrupção, falo de influência junto de quem governa, condicionando e moldando as suas decisões. Tudo isto acontece porque somos pobres, tudo isto acontece porque somos poucos, tudo isto torna as instituições vulneráveis e permissivas. Sermos tão pequenos é mau para todos! O Governo e Parlamento Regionais não são capazes de controlar e fiscalizar a ação destes grupos de forma independente e assim garantirem o bem comum. Entendo, pois, que tal situação não seria possível, neste contexto, se dependêssemos de Lisboa, onde essa capacidade de influência e manobra não existiria. Todos estes grupos e interesses só são grandes nos Açores. A nível nacional são insignificantes e inexistentes a nível internacional. Tudo tem a ver com a dimensão da realidade onde estão inseridos.
O centralismo que estas entidades estão a impor na Região, nada tem a ver com os desígnios da Autonomia, de que o partido que milito foi pedra basilar. A autonomia é um sonho que se tornou pesadelo para 8 das 9 Ilhas. Sim sou de direita, dentro desta mais próximo do liberalismo económico que Passos Coelho representou, mas nunca fui a favor de um domínio dos poderes económicos sobre o bem comum. Sim sou Autonomista, mas cheguei à triste conclusão que, não temos capacidade para nos governarmos.Poder-se-á pensar que esta situação a que chegámos se prende com o poder socialista que vivemos nos últimos 24 anos na Região. 
É conhecida a tendência que os socialistas têm para as relações promiscuas com os poderes privados! Mas a verdade é que o principal partido da oposição, a que pertenço, nunca mostrou qualquer preocupação com esta realidade. Muito pelo contrário! Sempre compactuou, de forma silenciosa com a mesma. Se olharmos para a composição dos quadros de gestão dessas empresas, associações comerciais, etc... entendemos a razão. A Autonomia morreu, política, social e economicamente e precisamos de uma alternativa urgente! Não vejo no atual espectro político regional quem seja capaz de resgatar a Autonomia moribunda que temos. Os discursos líricos e românticos dos que se opõem a esta minha opinião nada mais são que isso mesmo, sempre na tentativa de manter o “status quo” de poder Regional que temos, ele próprio terrível para 8 das 9 ilhas dos Açores. marcos.couto@sapo.pt
 

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Categorias: Opinião

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