27 de agosto de 2020

A Talho de Foice

O Pai do Filho Pródigo

Deus, através da parábola do filho pródigo, ensina-nos de que é permitido seguir a vida que bem entendemos, mesmo que na leviandade, na abastança, caindo em desgraça. Diz-nos que isto até nada de mal tem, se for este o caminho escolhido, porque a riqueza não está em quem recebe o que é seu e que depois a gasta ou a duplica, mas sim no coração de quem ampara, de quem reconhece os seus erros e de quem estará disposto a recomeçar do nada, humildemente carecendo de ser aceite e que lhe seja concedida uma oportunidade. 
Em desespero, o filho volta à casa do pai, arrependido e o seu pai recebe-o em festa, feliz pelo filho estar de volta, mas o seu irmão mais velho, rejeita-o. Não considera justo que o pai o receba com esta manifesta alegria no coração depois do que ele fez, uma vez que ele, o mais velho, sempre foi leal e fiel e nunca recebeu do pai uma festa como aquela. 
O Pai do filho pródigo, permitiu-se a satisfazer o pedido da partilha da herança em vida com orgulho, pois tinha em mente um plano, sabia que aquele acto seria necessário para que o filho se redimisse. Se ele o negasse, o filho ficaria revoltado e nunca se redimiria. 
O pai não estava preocupado com o gasto da herança que ele havia juntado com tanto esforço, a sua única preocupação era que o seu filho crescesse e se tornasse Homem através de uma dura lição de vida, mesmo que perdesse uma fortuna, porque com trabalho e afinco quase tudo poderá ser conquistado ou reconquistado, mas para isso é necessário carácter.
 Por vezes na vida é preciso cair, perder, para que possamos valorizar o que demais nobre temos em nosso redor e descobrir o verdadeiro sentido da vida. Deus, na Sua enorme paciência tem delineado um projecto para cada um de nós, mas para que o possamos encontrar, é necessário dar-nos tempo para que tenhamos a consciência dos nossos erros e para que possamos tomar por arrependimento as nossas falhas,  quando ocorre o arrependimento, da mesma forma que a semente jogada à terra tem de morrer para dar fruto, assim, por vezes temos que morrer em vida para renascer. 
A vida está repleta de filhos pródigos, embora falte o Pai, aquele que está disposto a receber-nos de braços abertos, sem julgamentos, até porque, é sempre mais fácil criticar, apontar o dedo, revoltarmo-nos contra a nossa incapacidade de progredir, como o direito à igualdade fosse um bem adquirido, o direito é apenas igual quando da vida se trata, porque o resto, é a capacidade de resiliência e determinação que nos prepara para a negação diária. 
A impotência da sociedade é quase sempre retratada na responsabilização da sociedade política, como se a culpa morresse sozinha, alimentando a vã esperança de que um dia tudo ficará melhor, mas se eu nada fizer, poucas serão as possibilidades de realizar com sucesso a minha integração na sociedade, na família, nos amigos, no trabalho. 
Embora verifique o desaparecimento da figura do Pai, ou seja, aquele que de coração aberto permanece disponível para aceitar quem falhou, de quem errou, mesmo que deliberadamente ou induzido em erro, a sociedade continua a suplicar a sua parte da herança, na esperança da resolução de todos os problemas, esgotando os recursos, destruindo as oportunidades de criação de valor. 
Embora o pai já tenha morrido, muitos ainda não se aperceberam desta realidade, agindo na expectativa de que se algo correr mal, poderão sempre voltar, ofuscados pelo brilho invulgar de uma fama promissora, onde não haverá ninguém de braços abertos para o amparo. 
Na nossa caminhada, há dias em que é necessário abrandar e em vez de questionar, o que podem fazer por nós, perguntar; o que posso fazer pelos outros, e assumir em cada um de nós a missão do Pai, porque, filhos pródigos é o que mais há neste mundo.

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima