“Cada vez que conheço um novo país acabo por dar muito mais valor aos Açores”, diz Jorge de Sá depois de vários anos ao serviço da TAP

Desde cedo que Jorge de Sá decidira que, assim que pudesse, deixaria para trás a ilha de São Miguel na esperança de poder viver entre as cidades mais cosmopolitas do mundo, sonho este que de alguma forma se concretiza quase diariamente nos últimos sete anos da sua vida, desde que faz parte da equipa da TAP Air Portugal enquanto comissário de bordo.
 No entanto, tal era a ânsia por viver diferentes experiências, o jovem natural da freguesia de Feteiras acabaria por, aos 18 anos de idade, ingressar no curso de Direito em Lisboa, percebendo de imediato que não era aquela a sua vocação.
O próximo passo seria o de desistir do curso na Faculdade Clássica de Lisboa na esperança de no ano lectivo seguinte poder voltar a concorrer ao ensino superior, desta vez apenas para cursos que realmente o interessavam, acabando assim por entrar no curso de Comunicação Social e Cultura da Universidade dos Açores, hoje extinto.
Enquanto esperava por uma nova oportunidade para completar o ensino superior, Jorge de Sá começaria a trabalhar na SATA como oficial de tráfego, fazendo do Aeroporto João Paulo II a sua segunda casa durante os seis meses seguintes, uma opção profissional justificada pelo facto de “sentir desde sempre borboletas no estômago todas as vezes que ouvia os motores de um avião” a preparar uma descolagem.
Em Setembro de 2009 viria então a ingressar na academia açoriana que, embora nunca tenha sido uma opção prioritária, acabou por ser onde este licenciado em comunicação social e cultura viria a aprender a maior parte dos conhecimentos jornalísticos que ainda hoje tem, tendo também tido a oportunidade de estudar em Itália ao longo de um semestre, ao abrigo do programa Erasmus.
Durante os três anos da licenciatura, todos os Verões optava por fazer os estágios proporcionados pelo Governo Regional, acabando depois da licenciatura por fazer o Estágio L na TSF/Açores, onde lhe foi permitido criar um programa de raiz para a estação, intitulado “Manifesto”.
Deste modo, todas as semanas Jorge de Sá assumia o papel de entrevistador com artistas emergentes naturais do arquipélago, sendo esta uma missão que acabaria por deixar depois de terminado o estágio, embora afirme que “gostaria muito de continuar a fazer rádio ou trabalhar noutro género jornalístico”, nomeadamente o televisivo, diz.
Porém, face a um estágio que não foi renovado, em breve surgiria a oportunidade de vir a trabalhar a TAP, uma experiência que não se arrepende de ter abraçado em 2014, sendo um dos 300 novos tripulantes que foram escolhidos entre os perto de três mil concorrentes de então, recordando assim um dos dias mais felizes da sua vida.
“Entro na TAP em 2014, num concurso onde concorreram perto de três mil pessoas para, na altura, serem admitidos 300 tripulantes. Foram dois meses intensos de formação e no dia 4 de Janeiro de 2014 informam-me de que fui admitido. Foi um dos dias mais felizes da minha vida mas, na verdade, só tive consciência de que tinha conseguido, cerca de duas semanas após ter começado a voar”, relembra.
Esta nova oportunidade profissional permitiria então que o comissário de bordo pudesse vir a conhecer um total de 32 países e que pudesse, de alguma forma, viver (embora por tempo limitado) em grandes cidades e ser “totalmente anónimo” entre as multidões mais agitadas.
Entre estes quase sete anos de viagens um pouco por todo o mundo, o micaelense recorda a sua primeira viagem à Rússia, onde foi brindado com uma temperatura de -22ºC o que foi “muito mau” em acréscimo à cidade que, embora “gira, com uma arquitectura genial e com estações de metro que são autênticos museus” é muito marcada também pela frieza das pessoas.
Em contraste, na semana seguinte partiu para São Tomé e Príncipe onde foi recebido com um calor estonteante, a beirar os 40ºC. Destas duas viagens, conta Jorge de Sá, resultou então uma “valente gripe à chegada a Lisboa”. Por outro lado, entre as viagens preferidas está a que teve a oportunidade de fazer até à floresta da Amazónia, no Brasil.
Para além de nunca estar parado, como mostra bem este exemplo de duas viagens que aconteceram no espaço de uma semana, há desafios diários que os comissários de bordo enfrentam e, também, alguns estereótipos associados facilmente a esta profissão.
Entre os desafios mais importantes, conta, está o facto de considerar que durante as horas de voo – sejam muitas ou poucas – as vidas de todos os passageiros e tripulantes estão nas mãos dos comandantes, embora admita ter “mais receio em andar de carro do que em andar de avião”.
Por outro lado, adianta, ao comissário de bordo há ainda uma ideia pré-concebida de que estes “são apenas empregados de mesa do ar, quando na verdade o serviço a bordo que prestamos é apenas um complemento de toda a viagem. Os tripulantes são também enfermeiros, psicológicos, professores, e mecânicos”, esclarece.
Adianta ainda que há ainda pessoas que pensam que ser comissário de bordo é o mesmo que estar de férias o ano inteiro, uma ideia que é “totalmente falsa”, explica, uma vez que “a aviação de hoje em dia em nada tem a ver com a aviação de há vinte anos e pensar que a aviação actual é ir de estadia para um destino paradisíaco e lá ficar oito dias é algo utópico”, embora tenha já acontecido no passado, salienta.
Com a entrada da TAP Air Portugal em lay-off, Jorge de Sá começou até a ponderar seriamente a hipótese de sair de Portugal e procurar trabalho no estrangeiro, uma decisão que “felizmente não foi necessário tomar”, diz.
Neste sentido, depois de três meses com os pés bem assentes no chão, quando a tripulação da companhia aérea retomou alguns dos seus voos em Julho, Jorge de Sá refere que “foi como se tivesse começado a voar novamente”, ganhando – por outro lado – certezas de que é na aviação que quer continuar a trabalhar durante os próximos anos.
Apesar dos tempos conturbados que são hoje vividos, o comissário de bordo afirma que se sente bastante seguro no exercício da sua profissão, mesmo tendo já feito alguns voos onde viajaram pessoas que testaram positivo para a infecção provocada pelo novo coronavírus.
“Sinto-me bastante seguro. Não só os aviões da TAP estão equipados com um sistema de filtragem do ar impecável, comparando mesmo a qualidade do ar dos aviões com a de uma sala cirúrgica, como todos os tripulantes têm ao seu dispor, em todos os voos, um kit de protecção individual, com máscaras, luvas e toalhetes desinfectantes. 
Nestes dois meses já fiz alguns voos onde posteriormente se confirmaram passageiros positivos para a Covid-19, mas há de imediato um contacto por parte da equipa médica da companhia que nos acompanha e monitoriza durante alguns dias”, refere.
Apesar do deste gosto pela aviação e de saber que ainda se quer dedicar a esta profissão durante mais algum tempo, Jorge de Sá salienta que uma mudança de profissão poderá ocorrer no futuro, não deixando de parte o sonho de voltar a trabalhar no jornalismo.
Por outro lado, e apesar de desde sempre ter sentido a necessidade de sair dos Açores, com o passar dos anos admite que ao conhecer um novo país ou cidade acaba por “dar muito mais valor aos Açores”, sendo hoje capaz de “olhar para São Miguel como um local para viver”, precisamente por ser nos Açores que vem “ganhar uma lufada de oxigénio para conseguir aguentar mais uma temporada longe do arquipélago”.             

Que sonhos alimentou em criança?
Visitar a Finlândia e trabalhar em Moda. A primeira, felizmente, já consegui concretizar. Em relação à Moda, um dia gostaria de lançar a minha própria marca de roupa.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
Incomoda-me o conformismo. Detesto a passividade. O que mais admiro é a autenticidade e a genuinidade das pessoas. 

Que coisas gostaria de fazer antes de morrer?
Escrever e publicar um livro, gostaria de saltar de um avião, andar em todas as montanhas russas que possam existir, visitar o maior número de países possível e ganhar o gosto pela condução (odeio conduzir).

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição.
É um dos meus maiores prazeres por isso é-me extremamente difícil eleger apenas um mas escolheria Inês de Castro, da Maria Pilar Queralt del Hiero e as Intermitências da Morte do José Saramago.

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
De uma forma bastante aberta e positiva (...), no entanto há que haver um maior cuidado e maior rigor na triagem desta informação uma vez que as fontes, na minha opinião, por vezes não são tão credíveis nas redes como, por exemplo, num canal noticioso oficial.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet?
Perfeitamente. Iria custar ao início, como creio ser algo natural, mas para mim seria uma questão de habituação. Um retrocesso que iria acabar por trazer novos hábitos maravilhosos. 

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto muito, aliás, seria difícil uma vez que o faço (quase) todos os dias, devido à minha profissão. As  viagens que mais gostei de fazer foram a São Francisco, Califórnia, Tel Aviv, Israel. Helsínquia e Finlândia.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Gosto de experimentar tudo! No entanto, vendo me facilmente por um bom prato de comida portuguesa.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Amanhã adoraria abrir o jornal e ler: “Foi descoberta a cura para o cancro”. Nunca ansiei tanto por ver esta notícia num jornal.

Qual a máxima que o/a inspira?
Há uma parte de uma música da Lana del Rey que me inspira todos os dias: “The road is long, we carry on, try to have fun in the meantime”.

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Talvez no final do século XIX , na Belle Époque, para poder vivenciar aquele período de cultura cosmopolita na história da Europa. 
 

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