Tio José Braga dos Anjos - 86 anos - Uma homenagem


 Dia 27 de Agosto de 2020 levanto-me às 5 horas da manhã e não é para caçar, mas com a mesma alegria e uma sensação de liberdade tranquila, que só em poucas ocasiões tenho a felicidade de poder sentir. Tenho de ir apanhar um voo para a Ilha de Santa Maria com partida pelas 6h25, e não é para caçar, nem trabalhar, com regresso a Ponta Delgada marcado neste mesmo dia para as 20h05. Não saio da Ilha há 6 meses, o que na minha profissão e na minha vida, equivale a um isolamento de anos, mas a Covid-19 a tal obrigou e há que respeitar. 
Diga-se em boa verdade que não estou desesperado, até porque hoje temos ao nosso dispor meios tecnológicos que nos permitem estar ligados ao mundo quase sem limitações, e isto a partir da nossa Ilha,  o que me custou mais,pessoalmente, foi não ter podido ir à Ilha Graciosa neste mês de Agosto, viver a procissão do Santo Cristo, estar com os amigos, comer umas meloas, andar pela Ilha na companhia do meu amigo caçador o Celestino e dos meus outros companheiros que são os meus cães. Mas não havendo barco a partir da Ilha de São Miguel a solução foi ficar por cá. 
Em síntese, esta passagem pelos aeroportos não me seduz mesmo nada, só o faço por uma grande causa, que, na fase em que me encontro, tem o nome de amizade, ou a caça, ou o trabalho, e no caso em apreço assume o nome de amizade. É que o meu amigo José Braga dos Anjos, nasceu a 27 de Agosto de 1934, e é por esta razão que me desloco à Ilha de Santa Maria, vou lá só para estarmos juntos umas horas.
É verdade que esta Ilha do sol e do barro, do Aeroporto, que foi dos coelhos bravos, do vinho, das vejas, da gastronomia única, das especiarias, do endro, dos nabos, dos búzios, das cavacas, dos biscoites de orelhas, e tantas outras iguarias, sempre exerceu sobre mim um grande fascínio, em parte alimentado pela minha mãe e outros furnenses que viveram e trabalharam naquela Ilha no período do eldorado dos tempos áureos do seu aeroporto e quando regressavam relatavam muitas maravilhas sobre Santa Maria. 
O José Braga, o Tio Braga dos Anjos, o Senhor Braga, como é conhecido, mas de nome oficial José Monteiro, com o seu irmão mais velho o Senhor António Monteiro, Pai de um dos mais importantes produtores da magnifica  meloa de Santa Maria e o seu irmão mais novo o João, já falecido, são o que se pode chamar, Boa Gente e trabalhadora.Cacei com os três “irmãos Braga”. 
O nosso conhecimento, com uma história de muitos anos, teve origem na caça e por intermédio do saudoso Chefe Lima. Logo no primeiro dia que caçamos juntos apercebi-me que o Tio José Braga era um Líder natural, e que a sua dimensão como homem era de uma envergadura fora do normal. Tinha um conhecimento da biologia das espécies e do meio ambiente impressionantes, e era incapaz de tomar uma decisão que não conjugasse o passado, o presente e o futuro. 
Com ele nada era improvisado, as regras eram para se cumprir e todo o produto da caça e da pesca era devidamente aproveitado, nada se desperdiçava. Com o tempo fomos ficando amigos e crescendo dentro de mim a convicção de estar na presença de um grande caçador e pescador desportivo, que foi emigrante, taxista, agricultor, mas também de um Líder que foi procurador de muitas famílias de emigrantes, que reconheciam a sua capacidade e honestidade, mas também de um organizador de Festas do Espírito Santo que sempre deu conta do recado.
Está claro a Dona Conceição também o ajudou muito. Escrevo com conhecimento de causa e a testemunho de vários amigos, como o Monteiro da Silva, o José Frias, o João Paz, o Maçanita, o Carlos das Furnas, Pedro Silveira, o Olívio, o Tibúrcio, o João Belém, o José António Mesquita, o Horácio, o Jorge Santos e tantos outros.   
Para os que não conhecem o Senhor Braga, recomendo que vejam a sua participação no filme de Marc Weymuller – 2019, de nome Little América sobre os Tempos de Ouro do Aeroporto e os traumas na Ilha associados à sua decadência. 
O Senhor Braga é uma referência e uma memória viva da Ilha de Santa Maria e, como escrevia há dias ao meu amigo Onésimo Teotónio de Almeida, “no dia 27 de agosto de 2020 vou dar um “abraço” a um companheiro de caça, amigo e Filósofo da Ilha de Santa Maria”. 
Como podem deduzir desta pequena homenagem, valeu a pena levantar-me às 5 da manhã e não foi para caçar.
                                         
27 de agosto de 2020

Gualter Furtado
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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