29 de agosto de 2020

Os grandes erros dos Açores

O fim das terras de pão (2)

Um dos grandes erros da Secretaria Regional de Agricultura e Pescas, dos Açores, foi aquele que se prendeu com a reconversão pecuária, fazendo uma grande aposta no melhoramento da nossa genética animal. 
Tal qual foi feita a reconversão com tentadores subsídios, praticamente todas as terras ditas de pão, pomares, matas e matos, foram reconvertidos em pastagens. Também, pela cegueira do chorudo subsídio, até se arrotearam terrenos manhosos de altitude sem qualquer outra aptidão que não fosse a retenção das águas pluviais e seu encaminhamento para as turfeiras existentes, as nossas grandes fontes de alimentação de água dos inúmeros lençóis freáticos, existentes, principalmente na ilha de São Miguel.
Os Açores ficaram, assim, reduzidos praticamente a pastagens, em todos os terrenos que pudessem ser arroteados e semeados de erva. E mesmo algumas das terras de pão existentes, não reconvertidas, foram canalizadas para a produção de forragens com grande incidência do milho forrageiro, e de prados temporários para fenos, ficando fora da pecuária um número bastante reduzido de pomares, algumas vinhas insignificantes, e restritas áreas de produção de hortícolas e vegetais.
Desta forma, por exemplo, quando São Miguel produzia cerca de 68% daquilo que comia, e exportava milhares de toneladas de batata, e de leguminosas, com a reconversão sucedida, passou a importar cerca de 70% daquelas que são as suas necessidades alimentares, não exportando praticamente nada, a não ser leite em pó, leite UHT, ou pouco mais do que isso.

Quanto ganha a Região com a exploração pecuária? 
Para se dizer a verdade, a Região não ganha nada com isso, tendo sim prejuízos enormes pois todas as nossas rações são feitas com produtos 100% importados, as terras de pão produzem essencialmente milho forrageiro, e tudo aquilo que comemos, imagine-se, até a salsa muita vez, é importada.
Assim produzimos ananases e bananas em quantidade que praticamente nos bastam, muito pouco vinho, e a esmagadora maioria dos vegetais, leguminosas, e hortícolas que comemos, são importadas juntamente com a fruta de duvidosa qualidade, provinda essencialmente de Espanha.
Por isso, arrepia ir-se à praça de Ponta Delgada, e ver-se que a esmagadora maioria dos produtos lá vendidos são importados. As laranjas vêm do Algarve ou da África de Sul, os tomates de Itália, de Portugal, ou de Espanha, as cebolas de França, milhares de toneladas de batata de várias origens, e por aí fora, quando não há muitos anos só a vila de Rabo de Peixe,  as terras baixas da Ribeira Grande, Ribeirinha, e Gramas, abasteciam os mercados dos Açores, com produtos hortícolas de excepcional qualidade.
Para além disso, exportavam-se cerca de mil toneladas de massa de pimenta para a Nova Inglaterra nos Estados Unidos, umas largas toneladas de inhames, para os Estados Unidos, umas largas toneladas de favas também para os Estados Unidos, muitas toneladas de feijão para o continente português, muitos contentores de fava, para o distante Japão, considerada a melhor fava do mundo e vendida naquele país à unidade por ser muito branca e enorme, assim como cerca de 5 mil toneladas de batata, muitos milhares de toneladas de chicória ,amendoim, etc, para o mercado português.

Éramos, em resume, uma terra farta e de rica produção, embora as aves negras da política regional digam que antes do 25 de Abril se passava fome, quando ela continua a existir, infelizmente, em maior quantidade, só que camuflada ou escondida pelos subsídios de reinserção social cedidos a torto e a direito, quase sem critério, pelo Governo, na louca procura do voto.
Aquilo que é hoje evidente, é que o sector leiteiro está a viver maus dias só disfarçado com toda a espécie de subsídios provindos da Comunidade, e do Governo português, porque de outra forma, estaríamos a viver, certamente, momentos dramáticos, com consequências muito graves para os Açores.
Contudo, é fundamentalmente na terra que reside a nossa verdadeira riqueza, e se sacia a fome da nossa gente, pois basta passar o arado num pasto, semear a terra e, passada uma semana, começar a germinar aquilo que queremos e poderá matar a fome das pessoas até que se criem os mecanismos que nos tragam ocupação e alguma riqueza.
Por tudo isso, terminando a monocultura do leite, tudo se reequilibrará e, passado pouco tempo, aparecerá a normalidade, nascendo novas explorações de uns quantos produtosd e primeira qualidade entre nós, os quais desafiarão nos diferentes mercados  as pessoas, pela sua qualidade, sabor e preços, os quais consumirão como produtos de alta qualidade.

Donde, a fertilidade da terra açoriana, com o nosso clima, a sua produtividade, a habilidade e criatividade dos nossos agricultores, substituirão o leite, um produto actualmente com um mercado complicado, por algumas culturas que, pelo seu exotismo e sabor, trazer-nos-ão altos rendimentos que alimentarão a economia regional, ocuparão  muita da nossa mão-de-obra, alimentando também os nossos mercados e uma população orgulhosa e satisfeita pelo consumo da sua qualidade numa terra despolida e abençoada por Deus.


 

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Categorias: Opinião

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