(Re)Descobrir Ponta Delgada

Como descobrir “os pequenos tesouros” da cidade junto de quem os conhece

Pouco antes das 10 horas junto à Igreja de Nossa Senhora da Graça, no centro de Ponta Delgada, já Bento Cordeiro aguardava devidamente identificado e com um dossier de informação. Aguarda pacientemente, chamando a atenção de um e outro que vão passando, e actualizando as redes sociais, para a visita guiada que vai decorrer a partir dali, de hora a hora, e que tem acontecido todas as Sextas-feiras no âmbito do projecto (Re)Descobrir Ponta Delgada. 
Guia de informação turística desde 2016, Bento Cordeiro explica que tem estado nos vários locais onde é possível fazer as visitas guiadas no âmbito desta iniciativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada que faculta gratuitamente a munícipes e visitantes acesso a visitas guiadas e actividades turísticas no concelho. Ontem esteve responsável pela visita ao Mercado da Graça. 
Uma visita que não tem hora marcada “porque depende sempre do interesse e da dinâmica das pessoas”, mas que normalmente dura cerca de 50 minutos a uma hora. A Sexta-feira é sempre dia de grande azáfama no Mercado e talvez por isso os locais estejam mais interessados em conseguir entrar no parque de estacionamento do mercado para ir às compras do que propriamente saber um pouco mais sobre a história daquele local que começa num outro local: no Largo de Camões. “Normalmente os locais dizem que já conhecem tudo” sobre o local onde moram, mas depois quando lhes é perguntado se sabem onde fica aquele que foi o primeiro Liceu de Ponta Delgada e onde estudaram o segundo Presidente da República, Teófilo Braga, ou o escritor e poeta Antero de Quental, “ficam curiosos e descobrem que afinal há coisas que não sabiam”. É por aí que começa a visita guiada, dando informações sobre a Igreja de Nossa Senhora da Graça e o Convento dos Gracianos, frades Agostinhos, mas de devoção a Nossa Senhora da Graça. “Foram os primeiros ocupantes da Ermida de Sant’Ana”, explica Bento Cordeiro que conta que os Agostinhos chegaram a Ponta Delgada e não tinham onde viver ficando em Sant’Ana. No entanto, foram começando a tentar arranjar “casa própria” e isso aconteceu com um terreno oferecido pelo Ouvidor da altura, exactamente naquele que é agora o Largo de Camões. Ali foi concluído, em 1680, o Convento da Graça onde ficaram 20 frades em reclusão.
E é uma parte dos jardins (da parte traseira do Convento) que vai dar lugar depois ao Mercado da Graça que “ainda mantém a cerca original” do Convento. Antes foi horta que servia um batalhão de militares que estava instalado no Convento de Santo André. Isto até 1848, altura em que os Agostinhos, tal como outras ordens religiosas, foram extintas e os frades Agostinhos abandonaram os Açores. É dada “nova utilização pública” àquele Convento de Nossa Senhora da Graça e passa a funcionar ali o tribunal. Mais tarde criam-se novos edifícios, onde actualmente se situa a Biblioteca Municipal e o Conservatório Regional de Ponta Delgada, e é ali que passa a existir o primeiro Liceu de Ponta Delgada “onde estudaram grandes vultos que depois ajudaram a moldar o país”, explica Bento Cordeiro referindo-se a Teófilo Braga e Antero de Quental. 
Por essa altura é também ali que passa a funcionar o Museu Açoriano, impulsionado por Carlos Machado, que depois de se mudar para as dependências actuais adoptou o nome do seu fundador. Em 1981 a Igreja passa a ser sede da Academia das Artes e actualmente está “infelizmente abandonada”, lamenta o guia de informação turística já que por ali passou “uma boa parte da história de Ponta Delgada”. 
Feitas as apresentações sobre o Convento e Igreja de Nossa Senhora da Graça, é tempo de recuar de novo na história para justificar a localização do Mercado naquele local. “Em 1850 o mercado da cidade surge para libertar Ponta Delgada de um problema grave”, explica. É que o mercado, na altura, era em frente à Câmara Municipal e, além de produtos hortícolas, também era ali vendida carne “fresca” de animais mortos e esquartejados no local que em nada ficava dignificado “devido ao sangue que ia escorrendo para o mar e que ficava por ali, onde também havia muitos barbeiros”. Era ali também, acrescenta Bento Cordeiro, que ficavam as Varandas de Pilatos onde as pessoas se juntavam para ver chegar e partir os barcos e onde os micaelenses se juntaram para ver a chegada do rei D. Carlos e a rainha D. Amélia na visita que fizeram a São Miguel. 
Esse muro está actualmente “debaixo das actuais Portas da Cidade” e as “famosas Varandas de Pilatos, estão à vista de todos mas poucos sabem” reconhecê-las, já que agora estão pintadas de vermelho escuro e cercam a entrada Norte do Jardim António Borges. “A cidade tem pequenos tesouros” que se pretendem desvendar com estas visitas guiadas que abrangem também a Praça Gonçalo Velho, um circuito citadino Nascente, o Campo de São Francisco, um circuito citadino Poente, o Jardim António Borges e três estufas de ananás (aos Sábados e Domingos). 
Avançando já em direcção ao Mercado da Graça, Bento Cordeiro indica que com a chegada do Governo Liberal passa a haver três mercados em Ponta Delgada: o Mercado da Graça – que era mais dedicado aos agricultores; o mercado do peixe – que ficava no Cais da Sardinha; e o mercado dos lavradores – junto à actual Junta Autónoma dos Portos. O novo mercado também vai permitir retirar “os táxis” da altura do centro da azáfama e de todo aquele sangue a escorrer pelas ruas. Era ali que se juntavam burros e seus donos, que transportavam “quem ali chegava e tinha mais posses” para o destino. “Isso também acaba por permitir à cidade crescer”, avança o guia de informação turística.

Produtos tradicionais

Enquanto se faz o pequeno trajecto até à entrada lateral do Mercado da Graça, e porque àquela hora não houve mais interessados, Bento Cordeiro diz que há alguns locais que procuram saber mais sobre a sua cidade através destas visitas guiadas, mas que são normalmente os turistas nacionais e alguns estrangeiros, que mais aderem à iniciativa. Normalmente os nacionais “perguntam sempre o preço” da iniciativa enquanto os estrangeiros “estão habituados a pagar” e quando sabem que é gratuito até ficam surpreendidos. À entrada, são os produtos locais mais emblemáticos que merecem destaque. Além da carne, os queijos, o ananás, as bananas “que muitos continentais ficam surpresos quando vêem que temos banana porque, ao contrário da Madeira, nunca ouviram falar que tivéssemos banana”, o peixe e o artesanato, são motivo de explicações e de conselhos sobre o que comprar e até o horário de funcionamento do mercado, para mais tarde irem ali abastecer-se. 
“Em 1852, na zona central, foi mandado vir de Lisboa e instalar, um fontanário. Entretanto foi retirado e está agora no Poço Velho, em São Roque”, explica enquanto vamos passando por entre as bancas com a azáfama habitual de uma Sexta-feira no Mercado da Graça. “Muitos turistas vêem ao mercado pelos sons, pelo falar das pessoas. Até isso lhes agrada”, refere Bento Cordeiro que confirma que cada vez mais a fruta e hortícolas que se encontram no mercado são locais e os turistas gostam desse genuinidade, e muitos, quando vêm em grupos e ficam em alojamentos locais, até vão ao mercado comprar peixe para o provar. É toda aquela azáfama, os sons, os cheiros, as expressões típicas, que os turistas procuram no Mercado da Graça que apesar de várias modificações e remodelações ainda mantém a cerca original que delimitava o Convento de Nossa Senhora da Graça, e ainda ostenta na sua entrada principal um símbolo da revolução liberal e a data de construção. 

Conhecer a história dos Açores
Bento Cordeiro, que também faz parte da direcção da AGITA – Associação de Guias de Informação Turística, destaca a importância dos mais novos saberem mais sobre a História dos Açores e aplaude a disciplina de História dos Açores nas escolas. Quanto à massificação do turismo, antes da pandemia, o guia de informação turística entende que “ainda temos muito por onde seguir, desde que não se massifique” e o que se verificava é que “não havia muitos turistas nos Açores, eles estavam era muito concentrados nos mesmos locais”. Mas com a pandemia, muitos dos pontos de interesse ficaram sem as enchentes do ano passado e os guias de informação turística, muitos deles trabalhadores independentes, ficaram sem fonte de rendimento e a passar por dificuldades. Bento Cordeiro elogia, por isso, o facto da Câmara de Ponta Delgada ter trabalhado em conjunto com os Guias (e com a Associação Regional das Empresas de Actividades Turísticas – AREAT e que gere as actividades turísticas disponibilizadas pelo concelho desde o whale watching aos passeios de bicicleta ou de jipe) para se chegar a esta iniciativa (Re)Descobrir Ponta Delgada. Bento Cordeiro diz que a iniciativa, apesar de ter acontecido apenas durante o mês de Agosto, “correu bem” e sempre foi uma forma de ajudar “até mentalmente” os colegas que tiveram de parar de trabalhar devido à pandemia. Alguns estão a realizar as visitas e outros estão a ter formação, conhecendo também um pouco mais da história dos Açores, “para estarmos melhor preparados” para responder à curiosidade dos turistas. Agora, é tempo de voltar ao local de partida à espera de novos visitantes para conhecer melhor o Mercado da Graça.         
                                                    
                                   
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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