Novas medidas de apoio ao sector do Turismo trazem mais esperança ao futuro da restauração, dizem empresários

Esta semana, numa reunião levada a cabo entre o Governo Regional, a Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada e a Comissão Especializada de Turismo, foram anunciadas três novas medidas de apoio que podem vir a beneficiar os empresários e as empresas que se dedicam ao turismo e que atravessam actualmente uma das maiores crises já sentidas no sector.
Entre estas empresas estão as ligadas à alimentação e bebidas que há muito aguardavam este tipo de resposta por parte do Governo Regional, conforme o jornal “Correio dos Açores” tem vindo a dar conta ao longo das últimas semanas, uma vez que os proprietários das empresas desta área sentem que foram severamente prejudicados ao longo da quarentena e, mais recentemente, com a ausência de clientes.
Assim sendo, em relação a estas novas medidas, Joana Raposo, sócia-gerente d’A Comercial – A Cervejaria da Cidade, adianta que apesar de a informação ser ainda pouca, esta será “uma boa iniciativa” uma vez que parece, por fim, existir a consciência de que “os sócios-gerentes precisam de ajuda para manter toda a sua estrutura e não apenas os salários”, como até aqui se acreditava.
No entanto, a empresária espera que estas medidas “sejam postas em prática o mais rapidamente possível”, tendo em conta que o sector enfrenta a aproximação de mais um Inverno e que continuarão a existir contas para pagar.
Entre as medidas recentemente apresentadas, a empresária e o seu sócio, João Couto, referem que a mais apelativa será a referente ao apoio de 75% previsto para atenuar as despesas elegíveis e que há muito preocupam aqueles que, mesmo de portas fechadas, tiveram de continuar a pagar rendas, electricidade, água e seguros, sendo esta, por isso, “uma ajuda enorme ao negócio nos próximos meses”, embora não conheçam ainda os requisitos para a respectiva adesão.
A par desta novidade, a empresária salienta ainda que também a iniciativa levada a cabo pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, o “vale de restauração PDL”, que comparticipa até 25% do valor de uma refeição até 20 euros nos restaurantes aderentes, uma vez que pode aliciar as pessoas a irem a esses mesmos estabelecimentos.
Para estes dois empresários, responsáveis há cerca de dois anos pela nova imagem d’A Comercial, o encerramento da restauração ocorreu numa péssima altura, uma vez que este ocorreu exactamente no dia anterior àquele em que a nova gerência do espaço assinalava dois anos de funcionamento, deixando assim cancelados todos os eventos e celebrações que tinham sido cuidadosamente planeados.
Nessa altura, contam Joana Raposo e João Couto, foram muitas as dúvidas que surgiram na cabeça dos empresários, dúvidas essas que se foram agravando por não existir uma atempada resposta da parte do Governo Regional, que entretanto apresentou as medidas relacionadas com o lay off para manter o emprego, o que tornou possível “manter o funcionamento do restaurante e manter a equipa a trabalhar”.
Para estes sócios, o ano de 2020, à semelhança do que se previa de uma forma geral, seria “o ano do retorno” de todo o investimento que foi feito ao longo dos últimos dois anos, uma vez que iriam “começar a produzir e a facturar como deve ser”.
Entretanto, a 29 de Maio A Comercial abria de novo as portas aos clientes, uma experiência que passados já alguns meses permite estes sócios concluírem que “a reabertura foi pior do que abrir o restaurante novamente”.
Isto porque, explicam, “uma coisa é começar um restaurante com planeamento e saber para onde vamos e ter algum fundo de maneio para isso acontecer, outra coisa é começar um restaurante a menos de zero”, retomando a actividade “já com mensalidades e com segurança social para pagar” sem que para isso tenha existido tempo de facturação.
Quanto aos apoios entretanto divulgados, tais como as moratórias ou as linhas de crédito, os empresários adiantam que são medidas que servem para “atirar areia para os nossos olhos”, uma vez que apenas permitem “um maior endividamento”.
Conforme adianta João Couto, “para se manter o negócio aberto e não despedir as pessoas a solução não é endividarmo-nos mais, pois endividado já qualquer empresário está. A solução é darem apoios com alguma ajuda para conseguirmos manter o nosso negócio vivo”, algo que neste momento pode estar mais assegurado com as novas medidas anunciadas.
Antes da pandemia, adiantam, nas noites de Verão chegavam-se a servir uma média de 60 jantares, número este que se vê agora reduzido a 85%. Apesar de tudo, dizem os empresários, o mês de Agosto foi até ver o melhor mês desde a reabertura do estabelecimento graças aos turistas nacionais que procuraram o restaurante, no entanto, João Couto afirma que “o mês de Agosto, aquele que ia salvar o ano, está a ser igual a um mês de Março”, assemelhando-se por isso a um mês da época baixa.
Este fraco resultado por parte dos restaurantes, deve-se em grande parte ao receio que os açorianos continuam a ter para os frequentar, afirmam os sócios-gerentes d’A Comercial.
“Os restaurantes, como qualquer negócio, precisam dos seus clientes para facturar e para sobreviver. Sentimos muito que o mês de Agosto faz a diferença mas os micaelenses não estão a sair. Os restaurantes fizeram investimentos enormes para ter segurança para os seus clientes e para reunir as condições de segurança para que os clientes possam lá ir e sentimos medo da parte dos micaelenses”, apontam.
Este é um tabu que, afirmam, “tem que ser quebrado” para que os empresários ligados à restauração consigam manter os seus negócios, sendo também urgente quebrar com o mito de que “os restaurantes se tornaram caros ou que só querem turistas”.
Neste momento, diz Joana Raposo, é importante que a população local tente combater estes receios, ajudando assim os empresários locais com os seus negócios: “O que nós achamos é que a pessoa não tem que ir comer fora todos os dias, mas se de 15 em 15 dias, o que equivale a duas vezes num mês, for a um restaurante diferente já estará a ajudar duas pessoas”.

Embora valiosas, medidas deveriam existir há mais tempo

Também para Júlio Macedo, proprietário da Lan’s Pizzaria, as medidas recentemente apresentadas pelo Governo Regional parecem ser “o primeiro passo” para que a situação de alguns empresários melhore, embora sempre condicionados ao número de clientes que irão visitar os restaurantes no futuro.
Contudo, estas são medidas que na sua opinião enquanto empresário “pecam pela demora”, tendo em conta o “grande risco de colapso económico e do tecido empresarial” que actualmente existe num momento em que “o país entrou de férias, incluindo políticos e parlamentares”, pelo que estas são “medidas que já deveriam ter sido anunciadas há mais tempo”, diz.
Quanto à validade destas medidas, o empresário adianta que os resultados provocados por estas serão apenas conhecidos mais à frente, embora acredite que “só estas medidas não sejam suficientes” tendo em conta os elevados prejuízos que as micro empresas continuam a ter neste momento, mesmo passando por uma época alta, dependendo muito deste tipo de apoios para manter portas abertas.
“Se o montante do apoio for aceitável em termos daquilo que se irá perder nos próximos seis ou oito meses, talvez as empresas se mantenham. Hão-de recuperar e manter o emprego mas, caso contrário, se esses valores começarem a ser muito grandes – estamos a falar numa facturação média de menos de 60% a 75% em relação aos meses homólogos – essa é uma perca muito grande e, por isso, se não houver ajudas as empresas vão fechar e não há que esconder que não é isso que vai acontecer”, explica Júlio Macedo.
Nos Açores, refere, a maior parte das micro empresas trabalha no Verão para ganhar dinheiro suficiente para o ano inteiro, acabando por depender muito do turismo e do cliente local para que isso aconteça e para que, chegado o Inverno, consigam fazer face às despesas e fazer com que no final do ano o balanço seja positivo.
Caso estes apoios não sejam suficientes para a restauração, no caso de não permitir que os empresários ligados ao turismo de uma forma geral não consigam recuperar-se nos próximos anos, a única solução será, diz, a de “levar toda a gente para o desemprego”, o que para além de prejudicar as estatísticas a nível regional irá obrigar a que o Governo apoie e pague na totalidade todas as pessoas que estejam no fundo de desemprego.
À semelhança dos empresários entrevistados acima, também Júlio Macedo confessa que a medida que mais lhe atrai diz respeito aos 75% de apoio às despesas elegíveis e que sempre tiveram que ser pagas, uma vez que “é evidente que as empresas têm custos fixos que não desaparecem por não haver clientes”. No entanto, no que diz respeito às duas outras medidas anunciadas, o empresário confessa não ter ainda entendido bem em que consistem, adiantando que “não estão ainda muito bem explicadas” mas que este é “um sinal de esperança” para a pizzaria familiar de que é proprietário, tendo em conta a incógnita que continua a ser o futuro.
“O facto de se anunciar que se vai criar apoios já é positivo e já é pelo menos um sinal de esperança porque andámos nas últimas semanas a pensar em como seria o futuro, uma vez que toda a gente tem noção de que haverá um aumento exponencial do número de casos e não sabíamos se íamos contar com o apoio dos nossos governos, e havendo esse sinal é positivo. Agora é importante saber os pormenores e como vai funcionar, e assim decidir qual a melhor forma de aderir aos apoios”, diz.
Retrocedendo até ao mês de Março, o casal responsável por este restaurante acreditou que o encerramento da restauração seria uma medida correcta e necessária face à informação existente, no entanto, cedo chegou à conclusão de que iria continuar a trabalhar por intermédio do take away.
“Nos primeiros dias tivemos a noção de que seria uma coisa que se iria arrastar durante bastante tempo, e decidimos que tínhamos que continuar a fazer alguma coisa, até por uma questão de saúde mental.
Decidimos continuar a trabalhar, uma vez que era possível continuarmos a laborar em take away, e tomámos todas as medidas recomendadas para as precauções tanto para os funcionários como para as pessoas que cá vêm. Continuámos a trabalhar sempre na esperança de que fossem pelo menos minimizados os danos que foram causados na economia e na empresa”, conta Júlio Macedo.
Contudo, feitas as contas, os empresários depressa perceberam que o take away não se tornaria tão rentável como esperado, servindo sobretudo aqueles que se encontravam “retidos na ilha” ou pessoas que “habitualmente não cozinham”. Porém, tendo em conta a dimensão da população, foi uma opção que não se tornou tão viável do ponto de vista financeiro.
Depois da reabertura, e com a ocupação da pequena sala da Lan’s reduzida a 50%, começaram a surgir os primeiros números que reflectem a quebra financeira até agora: 80% em Junho, 75% em Julho e 70% em Agosto, embora tema que este último número sofra de novo uma quebra ao se entrar na nova época baixa, afirmando que apenas se poderá “falar num reinício muito lento da actividade económica – talvez – a partir da próxima Páscoa”.
Em acréscimo, apenas com um tratamento ou vacina para a Covid-19 é que os turistas irão começar a remarcar as suas férias, sendo importante “não esquecer que no mundo inteiro há pessoas que ficaram desempregadas, empresas que faliram, e que por isso toda a economia vai estar bastante fragilizada e vai haver menos pessoas com capacidade para fazer turismo”.
Nesse sentido, conclui, acredita que será “muito importante trabalhar bem para captar as pessoas que vão ter capacidade para fazer férias em 2021”, pois só a partir daí “as coisas irão poder melhorar”.


 

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