“Temos cerca de 80 plantas endémicas e a maioria ainda não foi estudada sob o ponto de vista da sua composição bioquímica”

Entre o chá verde que cresce tranquilamente nas extensas plantações da Fábrica de Chá Gorreana e uma espécie de cogumelos não comestível e não existente nos Açores, o Xerocomusbadius, há em comum o facto de serem estes os únicos que contêm a presença do aminoácido L-teanina, pelo menos tanto quanto se sabe através da literatura publicada até hoje.
Nos Açores há já vários projectos de investigação desenvolvidos na área dos produtos naturais, incidindo sobretudo no chá de Camelliasinensis, na sua grande parte iniciados pelo professor José Baptista, cujo entusiasmo por esta planta começou após ler um trabalho executado por um professor da Universidade de Cleveland que explorava o impacto positivo que o chá verde teria na prevenção do cancro.
Motivado por estes descobrimentos, o professor e investigador acabou por adquirir amostras de chá verde de vários países (China, Japão, Coreia, Taiwan, etc.) com a intenção de fazer um estudo comparativo com o chá verde de C. sinensis dos Açores, conseguindo assim perceber nos estudos efectuados que “o chá dos Açores era menos adstringente do que a maioria dos chás de outros países”, concluindo-se que este apresentava um teor superior de L-teanina”, uma vez que este é reconhecido por ser “ligeiramente adocicado”.
O passo seguinte, conta, foi o de tentar obter este aminoácido no seu estado puro, através do Japão, para que este fosse utilizado como padrão num estudo comparativo do seu teor nas amostras recolhidas dos diversos países, mostrando as diferentes concentrações existentes nos diferentes chás, onde se destacou o potencial do Chá Gorreana, com elevada concentração deste aminoácido.
Neste sentido, iniciou no ano de 2018 em conjunto com a investigadora Lisete Paiva um projecto apoiado pelo PO Açores 2018, com o objectivo de perceber de que forma será possível potenciar a concentração de L-teanina no chá dos Açores, tornando-o ainda mais poderoso no combate à degeneração cognitiva que afecta sobretudo os mais idosos, e também no alívio da ansiedade e do stress, conforme explicam os investigadores nesta entrevista.
Porém, e à semelhança do que aconteceu com muitos outros projectos de investigação devido ao plano de contingência aplicado pela Universidade dos Açores, impedindo o acesso aos laboratórios, a chegada da Covid-19 aos Açores acabou por atrasar o estudo de José Baptista e de Lisete Paiva.
De acordo com a investigadora, o ano de 2020 seria “um ano essencial para o desenvolvimento do projecto”, uma vez que iria permitir que se fizesse um estudo comparativo com os dados obtidos anteriormente.
Isto é, seria essencial para os investigadores na medida em que permitiria que se fizesse a análise das amostras colhidas nos primeiros meses de colheita, entre os meses de Março e Maio, para que se tomassem decisões e para que se delineasse “a melhor estratégia fabril no sentido de se obter maior rendimento”, mas a pandemia obrigou, em vez disso, a suspender os trabalhos.

(Correio dos Açores) É conhecido por fazer e coordenar várias investigações relacionadas com as plantas e com os seus benefícios para a saúde humana. De que forma este projecto que iniciou em 2018 se tornou pertinente?
(José Baptista, Professor e investigador da Universidade dos Açores) O nosso grupo tem vindo a desenvolver investigação em vários projectos na área dos Produtos Naturais e particularmente sobre o chá de Camelliasinensis. 
O entusiasmo pela planta de C. sinensis começou após ter lido um trabalho do Professor Jerzy Jankun da Universidade de Cleveland (USA) publicado na NATURE (1997, vol 387, p 561) cujo título era “Why drinking green tea could prevent cancer”. Na altura o entusiasmo levou-me a adquirir amostras de chá verde de vários países (China, Japão, Coreia, Taiwan, etc.) com a intenção de fazer um estudo comparativo com o chá verde de C. sinensis dos Açores (Baptista et al. 1998, 1999, 2007).
Durante o desenvolvimento destes estudos, apercebemo-nos de que o chá dos Açores era menos adstringente do que a maioria dos chás de outros países, particularmente quando comparado com as amostras da China e do Japão, o que nos levou a pensar que o chá dos Açores poderia apresentar um teor superior de um aminoácido, referido por L-teanina, que é ligeiramente adocicado.
Após a obtenção, através do Japão, deste aminoácido puro, para ser usado como padrão, avançamos para um estudo comparativo do seu teor nas amostras dos diferentes países. 
O resultado mostrou as seguintes concentrações: China 1.52% (média de 13 diferentes chás), Japão 1.34%, Coreia 0.83%, Taiwan 2.83% e Açores 3.12% (Baptista et al., 2012). 
Portanto, o chá verde da Gorreana apresentou um valor duas vezes superior ao da China, facto que nos entusiasmou a estudar este aspecto, não pelo facto deste aminoácido ser ligeiramente doce, mas sim pela sua influência ao nível das células neuronais, isto é, este aminoácido altera-nos a química do cérebro.
O projecto apresentado e aprovado pelo PO Açores 2020 em 2018 tem por objectivo estudar as várias fases e os vários parâmetros envolvidos durante o processamento quer do chá verde quer do chá preto no sentido de se perceber a influência do tempo e temperatura do murchamento das folhas, da temperatura e tempo de secagem, do período da colheita assim como a comparação das diferentes zonas da plantação no sentido de se potenciar a concentração da L-teanina. 
Este trabalho está a ser desenvolvido com muito entusiasmo e muita dedicação pela Lisete Paiva doutorada em Biologia pela Universidade dos Açores, cujo resultado será a produção de um novo tipo de chá com efeito benéfico na saúde humana e com impacto na economia da empresa de chá e, consequentemente na economia da Região. 

Qual a importância da L-teanina na nossa saúde e que benefícios apresenta quando ingerida através dos alimentos?
É do conhecimento geral que a elevada incidência, nas sociedades industrializadas ocidentais, de doenças relacionadas com a nutrição está a conduzir a grandes mudanças nos padrões do consumo alimentar, com a preocupação da procura de alimentos funcionais que possam promover a saúde e/ou reduzir o risco de algumas doenças. 
Entre a grande variedade de alimentos funcionais que têm despertado a atenção dos consumidores, encontra-se o chá de C. sinensis, muito conhecido pelas suas propriedades organoléticas, pelo seu baixo custo, pelos efeitos estimulantes e sobretudo pelo seu extraordinário poder antioxidante (atribuído sobretudo ao seu elevado teor em polifenóis) e outras propriedades benéficas para a saúde humana. 
De salientar, neste contexto, que um estudo prévio desta equipa de investigação, comparando folhas de C. sinensis dos Açores com outras, mostrou que o chá dos Açores apresenta propriedades antioxidantes superiores, devido ao teor mais elevado de componentes fenólicos quando comparado com amostras de outras origens.
Desde os tempos mais remotos se afirma que beber chá promove relaxamento. O aminoácido L-teanina é a substância responsável por reduzir o stress mental e físico e produzir essa sensação de relaxamento. 
Por experiências com animais de laboratório verificou-se que a L-teanina atravessa a barreira hemato-encefálica sem qualquer alteração metabólica, alcançando o cérebro em menos de 30 minutos. 
Este aminoácido tem a propriedade de estimular neurotransmissores que são substâncias químicas produzidas pelos neurónios com a função de bio-sinalização e de enviarem informações a outras células e também estimular a continuidade de um impulso ou efectuar a reacção final no órgão ou músculo alvo. 
Por exemplo: A dopamina, dá-nos uma certa sensação de auto-confiança, a serotonina, é fundamental na regulação do sono, do humor, do apetite, do ritmo cardíaco e da temperatura do corpo, a acetilcolina, desempenha um papel importante nas funções cognitivas com impacto na doença de Alzheimer e ainda o ácido gama-aminobutírico (GABA) é um relaxante natural, responsável pela sensação de bem-estar e ainda induzir o aumento das ondas alfa do cérebro ajudando a reduzir a ansiedade, a insónia e a controlar o stress, não provocando sonolência nem falta de coordenação cerebral. 
Com o avanço da idade, geralmente estes neurotransmissores começam a ficar “preguiçosos” e, consequentemente, o raciocínio e os esquecimentos frequentes são factores comuns nos idosos.

Tendo em conta os vários benefícios que têm vindo a ser comprovados no que ao chá e diversos produtos regionais diz respeito, acredita que há ainda muito potencial por explorar?
Desde as últimas décadas tem havido um grande interesse, potenciado por estudos epidemiológicos, em identificar as propriedades farmacológicas e estudar os efeitos fisiológicos dos componentes químicos de muitas plantas, particularmente dos polifenóis, tais como: propriedades antioxidantes e inibidoras da lipoperoxidação, protegendo componentes proteicos e o ADN celular (Yen et al. 1995), antibacterianas (Sakanaka et al. 1989), hipocolesterolémicas (Yang et al. 1997), anticancerígenas (Fujiki et al, 1998; Jankunet al. 1997), e outras de relevante atividade terapêutica. 
A área dos Produtos Naturais (terrestres e marinhos) é muito aliciante e é um desafio para o desenvolvimento de metodologias na fronteira do conhecimento para se perceber os mecanismos usados pelas plantas para sintetizarem compostos com determinadas funções, como por exemplo defenderem-se dos radicais livres criados pela radiação solar, defenderem-se de predadores, etc., assim como os organismos marinhos que em condições extremas de pressão e temperatura, conseguem sintetizar componentes para os ajudar a sobreviver, factos que nos levam a perceber que o universo, em todas as suas instâncias, possui algumas peculiaridades que parecem ser necessárias à sua estabilidade, isto é, na Natureza todos os fenómenos tendem para um equilíbrio ou melhor para um estado de energia mínima.
Temos nas ilhas dos Açores cerca de 80 plantas endémicas e a maioria ainda não foram estudadas sob o ponto de vista da sua composição bioquímica e do seu valor farmacológico. Entendo que a Universidade dos Açores deveria desenvolver mais a investigação na área dos Produtos Naturais procurando descobrir novos fitoquímicos, isto é, novas estruturas moleculares com propriedades farmacológicas, privilegiando novas metodologias analíticas de trabalho, usando como ferramentas de trabalho a Ressonância Magnética Nuclear e outras técnicas de elucidação molecular.

De que forma investigadores e governos estão empenhados nesta missão?
Compreendo a sua pergunta, mas estamos a falar de investigação aplicada, e sobretudo, na área da prevenção das doenças. Julgo que todos: o governo, as empresas e as pessoas estão interessados na redução das despesas com a saúde e, sobretudo, em manter para todos uma boa qualidade de vida. 
A dieta humana evoluiu nas últimas décadas, e revela que a ingestão actual de antioxidantes é muito menor do que em tempos ancestrais. 
Presentemente, sabemos que o sistema de defesa antioxidante endógeno é insuficiente, e precisamos dos antioxidantes obtidos através da dieta. A compreensão dos mecanismos subjacentes aos efeitos dos polifenóis com actividade biológica e outros fitoquímicos na saúde permite reconhecer os benefícios do consumo de frutas e vegetais. 
Existem vários estudos epidemiológicos que evidenciam o potencial dos fitoquímicos na profilaxia e no tratamento de alguns distúrbios de saúde. Além disso, estes compostos podem ter influência na incidência de várias doenças, uma vez que a saúde de um indivíduo e da população em geral resulta de interacções entre fatores genéticos e uma série de fatores ambientais, tendo a nutrição um forte peso.
Entendo que sendo os Açores uma Região de limitada área de superfície e de empresas de micro e média dimensão, em particular na área agro-alimentar, a associação entre universidade-indústria-governo deverá ser a chave mestra para melhorar a qualidade dos seus produtos e vencer a competição dos mercados emergentes e da competitividade global.
Sem ser pelo chá, há registo na Região de outros alimentos ricos em L-teanina ou que possam ter benefícios igualmente interessantes?
Tanto quanto sabemos através da literatura publicada, só há registos da presença do aminoácido L-teanina nas folhas de chá de Camelliasinensis e numa variedade de cogumelos da espécie Xerocomusbadius, que é uma espécie não comestível.

Que passos foram dados no início desta investigação? De que forma estas metodologias estão a ser desenvolvidas?
(Lisete Paiva, investigadora na Universidade dos Açores) Esta investigação partiu de um estudo realizado pelo Professor José Baptista que, como já referiu, adquiriu chás de vários países e constatou que o chá da Gorreana era menos adstringente comparativamente com os outros e pensou que o chá da Gorreana poderia ser mais rico em L-teanina, visto que é um aminoácido que dá um sabor adocicado ao chá, contribuindo para o sabor “umami” do chá que em japonês significa “gosto saboroso e agradável”.
Na altura foram realizadas experiências que confirmaram a presença deste aminoácido no chá da Gorreana. Estas metodologias estão a ser desenvolvidas desde esta altura e agora com a possibilidade da realização deste projecto, financiado pelo PO Açores 2020, foi possível uma investigação mais abrangente que engloba os nossos conhecimentos e a experiência dos funcionários da fábrica. 

Conseguiram comprovar os efeitos positivos do chá dos Açores (rico em L-teanina) no equilíbrio da pressão arterial?
É do conhecimento geral que a dieta Mediterrânica, rica em antioxidantes naturais, reduz a incidência das patologias do foro cardiovascular e, particularmente, o equilíbrio da pressão arterial. 
O número crescente de publicações científicas sugere que os polifenóis, tais como os flavonóides e carotenóides existentes nas folhas da planta de C.sinensis, são alguns dos ingredientes naturais capazes de “travar” a acção dos radicais livres e, consequentemente, de retardar o progresso das doenças típicas das sociedades mais industrializadas. 
A pressão arterial elevada, geralmente resulta da transformação do decapéptido (angiotensina I) que é convertido pela acção da enzima conversora da angiotensina, referida por ECA, no octapéptido (angiotensina II) que é um forte vasoconstritor reduzindo a secção dos vasos sanguíneos e consequentemente aumentando a pressão arterial. 
Através de experiências laboratoriais verificamos que o chá, particularmente o preto (rico em teaflavinas e teorubiginas) apresenta um efeito inibitório da referida enzima ECA e, consequentemente, da diminuição da angiotensina II responsável na maioria dos casos de hipertensão.

Para ser possível beneficiar destes efeitos, de que forma o chá deve ser incluído na alimentação e qual a forma correcta de o preparar para seabsorver todas as propriedades necessárias?
Este tipo de chá, mais rico em L-teanina, não existente no mercado internacional, é útil para todos e particularmente para os seniores que são mais susceptíveis ao declínio da acção dos neurotransmissores e consequentemente à diminuição das suas funções cognitivas, será portanto destinado a pessoas interessadas em reduzir a ansiedade e o stress e particularmente aos seniores na intenção de minimizar a degenerescência cerebral, que aumenta com a progressão da idade. 
Como é evidente não se pode dizer por exemplo quantas chávenas de chá uma pessoa pode ingerir, pois isto irá depender de pessoa para pessoa, e cada uma deverá consumir o chá de acordo com aquilo que o seu organismo conseguir tolerar, tendo em atenção à acção excitante das xantinas (cafeína, teofilina e teobromina). 
Para a preparação deste tipo de chá, é necessário ter em atenção à temperatura da água, nomeadamente esta não deverá estar acima dos 70°C de forma a preservar todas as propriedades funcionais, particularmente para manter a estrutura molecular dos polifenóis.  

De que forma a pandemia veio prejudicar/atrasar o desenvolvimento deste estudo?
Esta situação de pandemia que estamos a viver veio atrasar o nosso estudo, pois este ano seria um ano essencial para o desenvolvimento do projeto permitindo fazer um estudo comparativo com os dados anteriores.
A colheita iniciou-se em Março e fomos obrigados a parar nesta altura devido à pandemia e era essencial analisar as amostras colhidas nos primeiros meses de colheita (Março até fins de Maio) para tomarmos decisões e delinearmos a melhor estratégia fabril no sentido de obtermos maior rendimento.

 

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