FACE A FACE!... com Max Almeida

“Num momento tão crítico para a Autonomia que em 2026 comemora o seu 50º aniversário era obrigatório melhorar o quadro de deputados”

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Max Almeida - Casado pai de três filhos, sou feliz, gosto de viver, conviver e viajar.
Procuro estar atento ao que me rodeia.
A minha profissão e o desporto proporcionaram-me amigos em várias latitudes.
Sou fã das nove ilhas dos Açores porque todas têm o seu encanto.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Quase sempre ligado à Banca. Passei por diversos bancos e em todos eles fui aprendendo e a evoluir na carreira. Nos últimos quatro anos, estive ao serviço do Banco Santander, do qual me reformei em Dezembro de 2019, depois de ter sido Diretor Regional durante três anos e meio.
Como atleta ou dirigente desportivo, fiz parte de diversos clubes desportivos: Judo Clube de Ponta Delgada, Volei Clube de São Miguel, Clube de Ténis de São Miguel e Clube União Micaelense.
Fui ainda membro e dirigente do Rotary Clube de Ponta Delgada

Como se define a nível profissional?
Toda a minha vida profissional foi sendo construída e conquistada à custa de trabalho e dedicação, respeitando e apoiando sempre os clientes, procurando o sucesso das Instituições, tendo sido sempre exigente para comigo e para com os outros, procurando simultaneamente ser próximo dos colaboradores.
A exigência e a proximidade com as pessoas podem coexistir. Foi esta a minha maneira de estar nos diversos cargos que desempenhei e confesso que não me dei mal.
Ter acabado a minha carreira como Diretor Regional do Santander/Açores, o maior banco nos Açores, o maior banco privado em Portugal e um dos maiores da Europa e do Mundo, foi uma honra muito grande.  

Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional numa sociedade insular como a açoriana?
Em todos os tempos e em todas as latitudes, a família tradicional esteve sempre ameaçada e contudo, ela não desapareceu. Este conceito de família tradicional como sinónimo de família numerosa e, assim, solidária e disponível para ajudar o outro, estará mais ameaçada a esse nível do que na defesa e permanência de um punhado de valores (solidariedade, partilha, responsabilidade social, assistência à família, etc). É um facto que, em meios muito pequenos, geográfica e socialmente, a erosão das estruturas de organização social tradicional, acontecerá rapidamente e de forma drástica, e deste modo compete às autoridades e poderes públicos estimular, assegurar e preservar aquilo que a sociedade, per si, não será capaz. Nesse sentido, caberá ao Estado fixar casais jovens e garantir factores de produção e de desenvolvimento nas ilhas mais pequenas que, pela ordem natural, sofrerão drásticas consequências com a desertificação.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família de hoje perdeu progressivamente o seu papel e a sua função social. Mas, como tantas vezes nos prova a História, a cada nova era de mudanças em larga escala a sociedade prova a sua resiliência e redescobre de novo o seu lugar. As famílias do século XXI, têm dificuldade em adaptar-se e a redesenhar o seu papel numa sociedade cada vez mais mecanizada e “escrava” do trabalho. Temos que reinventar o papel e o espaço que a família ocupará no futuro. Isto é, um papel de transmissão de afectos e um espaço de reunião que não será possível encontrar no universo do trabalho altamente competitivo. Portanto, o papel da família nunca foi tão importante e determinante para o equilíbrio social no futuro.

A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões. Que abordagens, em sua opinião, devem ser feitas?
Sobretudo no Ocidente, estamos a viver ainda uma era em que a forma como alguns pais educam os filhos não seja a mais adequada. Quando uma criança, habituada desde cedo a possuir bens materiais em excesso, e é privada desses mesmos bens, normalmente torna-se num foco de problemas para os pais, para a escola, e para a sociedade. Daí podem nascer tensões irreparáveis. Os pais, os avós, os educadores serão como supervisores à distância do crescimento equilibrado e saudável do jovem.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Os amigos, conjuntamente com a família, muito embora em graus diferentes, são fundamentais na nossa vivência.
Felizmente, fui fazendo muitos amigos do Corvo a Santa Maria, passando pela Madeira, Portugal Continental, Canadá e EUA. Muitos foram dos tempos de estudante, do serviço militar, do desporto e, principalmente, do trabalho.
 
Adaptou-se bem à reforma? Continua a ser activo. Que atividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Num primeiro momento sentes um vazio, mas depois, tirando as saudades dos colegas de trabalho, adaptei-me muito bem.
Continuo a planear acções para me manter activo.
Ando a fazer coisas que antes o tempo não me permitia. Tenho ainda alguns projetos em curso.

Vê televisão? 
Diariamente as notícias.  O Telejornal da RTP-Açores religiosamente e depois a SIC Notícias principalmente. Não perdi um único episódio dos Mal-Amanhados da RTP-Açores, um dos melhores programas que alguma vez foi feito nos Açores. Vejo o Canal Discovery e ainda algumas séries da Netflix.

Que sonhos alimentou em criança?
Venho de uma família numerosa em que os meus pais trabalharam muito para nos educar e criar.
Fomos uma família feliz, sem luxos e abundância, mas nunca nos faltou nada.
A determinada altura o sonho era ajudar no negócio do meu pai, mas chega o dia em que temos de seguir com a nossa própria vida.

Qual o seu clube de futebol? É um adepto ferrenho daqueles que vão para os estádios de cachecol em volta do pescoço?
Sou adepto do Sporting Clube de Portugal, mais ou menos ferrenho, sem no entanto ser fanático e de me chatear com os amigos de outros clubes. Sempre que vou a Lisboa vejo os jogos.
Cá em casa são todos ferrenhos do Sporting.
Aqui nos Açores sou do Clube União Micaelense.
 
O que mais o incomoda nos outros?
A ingratidão e a falta de lealdade.

Que características mais admira no sexo oposto?
A sua inteligência, a sua intuição, a sua capacidade de trabalho, a sua organização e a sua ambição, desde que saudável.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Leio pouco. Neste momento estou a ler um romance do Joel Neto, “Arquipélago”, e a folhear um livro do padre Lourenço Jorge, “Notas do Corvo”, que contém muitas curiosidades e factos históricos daquela Ilha.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Vou acompanhando alguma. A minha profissão obrigava-me a ter uma relação mais distante e sem intervenção por razões óbvias.

Costuma ler jornais?
Procuro ler os jornais locais, vejo as capas dos jornais nacionais e outrora comprava o Expresso com mais regularidade. Gosto mais do papel do que online.

O que pensa da política? Gostava de ser um participante activo?
Todos temos a obrigação de sermos mais participativos na política. É um dever cívico e verifica-se um alheamento generalizado das pessoas quanto à política, prejudicando toda uma sociedade. Vejam o nível da abstenção das eleições. Mesmo os que votam, uma parte vão forçados ou com medo de perder alguma coisa ao mesmo tempo que são completamente passivos civicamente. Poucos estão a decidir por muitos, muitas vezes sem competências e sem provas dadas.
Em 1985 cheguei a ser vereador da Câmara Municipal de Ponta Delgada, numa altura em que as pessoas eram mais participativas e tinham menos interesses pessoais. Era um jovem no meio de pessoas maduras e com muita experiência. Fui sempre respeitado e ouvido. Como estava no início da minha carreira profissional na Banca, optei por esta, pedindo a escusa de mandato pois não queria estar dependente da política. Hoje não estou arrependido.

Que opinião tem sobre os políticos?
Existem bons políticos, mas infelizmente são poucos. O grande problema é que a maioria dos políticos entra para a política para obter um emprego e ter um modo de vida. Depois vão-se perpetuando e bloqueiam a entrada de outros com experiências de vida, de trabalho e com pensamento livre.
Quem olha para a composição das listas dos diversos partidos para as próximas eleições para a Assembleia Legislativa Regional, reconhece valor a muito poucos candidatos.
Estão lá os do aparelho, alguns muito gastos e que não acrescentam qualquer valor, outros são lá colocados para cativarem algum eleitorado, mas que não conhecemos nada de relevante da sua autoria enquanto profissionais ou mesmo de pensamento e poucos são aqueles de reconhecida competência.
Hoje é consensual na sociedade de que não são necessários tantos deputados a tempo inteiro. Podiam muito bem alterar a lei permitindo alguns deputados estarem a tempo parcial e assim poderíamos ter cidadãos mais bem preparados e a acrescentar valor na Assembleia Legislativa Regional. São poucos os que querem abandonar a sua carreira profissional para assumirem um lugar de deputado nas actuais circunstâncias.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Libertava definitivamente o sector empresarial do Estado e entregava aos privados. Abria concursos para ocupar a maioria dos lugares de nomeação política que estão na nossa administração pública, excluindo os Secretários e Directores Regionais, obviamente. Todos os beneficiários do Rendimento Social de Inserção teriam a obrigação de fazer serviço comunitário.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto de viajar sempre que as finanças o permitem.
Todas aquelas em que levei os meus filhos todos.
Em 2019 fui ao Japão com a minha mulher. Foi uma viagem de sonho e o concretizar de um desejo antigo.
Este ano fiz turismo interno no Pico e Santa Maria.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Sou um bom garfo e como de tudo. Não é bem prato, mas não dispenso as cracas, o melhor marisco do mundo.

Que noticias gostaria de encontrar amanhã no jornal?
A Covid-19 foi erradicada em todo o Mundo.
O rendimento médio das famílias açorianas passou a ser o mais alto do País.
Os Açores têm pleno emprego.
Acabaram-se as listas de espera nas consultas e cirurgias nos Açores e todos têm já médico de família.

Qual a máxima que o/a inspira?
Optimista mas ter sempre um plano alternativo para alguma eventualidade.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Não me posso queixar da época em que estou a viver. Não apanhamos nenhum conflito armado à escala global, a guerra nas ex-colónias Portuguesas não me apanhou, tivemos muitas oportunidades de emprego nos anos 80 e 90 do século passado. Não houve necessidade de sair do país para procurar trabalho até 2010. Todas as grandes estruturas básicas dos Açores, portos, aeroportos, hospitais algumas estradas, etc., foram executadas na minha geração. O avanço tecnológico foi brutal, lembremo-nos dos computadores, da TV, dos telemóveis e muito mais. Passamos a ter uma capacidade de mobilidade enorme e de conhecer o Mundo.  

Exerceu toda a sua atividade na banca. Foi um activo bancário quando a Região tinha no BCA o Banco dos Açores. Há quem considere que a Região deveria ter ficado com um Banco público até hoje. Há quem diga que a decisão deveria ser de venda a um grupo económico açoriano...
Sinceramente não havia opção, a venda teria que ser feita mais tarde ou mais cedo. Pode-se discutir, no entanto, sobre a capacidade e qualidade do comprador, mas a concurso só foi mais um concorrente.

Hoje os Açores estariam melhor com um banco público regional? Quer explicar?
Considero que nos Açores não existe capital suficiente para ter um Banco Regional. As necessidades e consumos de capital não enormes, as Autoridades Reguladoras impõem regras muito apertadas, O Complaince é muito complexo e exige superestruturas com custos elevados.
O problema é que não temos dimensão na economia Açoriana para sustentar um Banco Regional que chegue a todos os concelhos e a toda a população. Quando falamos da economia Açoriana, estamos a juntar a empresarial, a familiar e a pública. Temos micro mercados espalhados pelas nove ilhas. Tirando São Miguel e, numa escala muito inferior a Terceira, a operação bancária nos tempos de hoje e com as exigências inerentes não é muito apelativa nos Açores.
Temos que nos preparar para uma redução gradual das agências bancárias em alguns conselhos e localidades. Este movimento já está a acontecer atualmente. O prejuízo para as comunidades será enorme e o risco da desertificação destas freguesias ou vilas é potenciado.

Com 30% do mercado, o Santander Totta é considerado uma instituição de crédito com uma estratégia rígida que terá dificuldade em entrosar com o tecido empresarial regional. Têm razão os que pensam assim? Ou será as empresas que estavam mal habituadas e, agora, têm de seguir critérios mais apertados? Pode explicar?
Por razões óbvias não gostaria de responder a esta pergunta.

É um observador da vida política regional. Chegou a ser apontado como promessa do PSD/Açores mas nunca se quis envolver na política partidária. Que expectativa tem para as próximas eleições legislativas regionais?
Como já referi, optei por uma carreira profissional no sector bancário e não me arrependi. Fui militante activo mais ou menos até ao final dos anos 80. Depois daí passei de activo a “não praticante”. Entendi que na sociedade açoriana as questões são muito politizadas e a militância política traria prejuízos para a minha vida profissional. Enquanto gestor bancário, nunca me importou a cor partidária de ninguém.
Num momento tão crítico para a Autonomia dos Açores, que em 2026 comemora o seu 50º aniversário, e em que se volta a questionar as suas competências, era obrigatório melhorar o quadro de deputados.
Olhando para os candidatos apresentados pelos dois maiores partidos, PS e PSD, considero que podiam ter enriquecido as suas listas com candidatos que viessem acrescentar valor ao debate político. Verificamos, contudo, três ou quatro excepções e que temos esperança no seu contributo em prol dos Açores. Faltam pessoas com pensamento político ou com experiências e competências no mundo das empresas e do trabalho. Estava na hora de alterar a composição da Assembleia Legislativa Regional, menos deputados a tempo inteiro e outros a tempo parcial. Só assim podíamos ter deputados com outro nível, porque ninguém quer abandonar a sua carreira profissional durante quatro anos para estar na ALR. Esta alteração traria uma elevação do debate, mais competências e menos custos. Claro que as máquinas dos partidos não gostam destas alterações.

Preocupa-o a previsão de um alto nível da abstenção nas próximas eleições regionais? Que impactos poderá ter no futuro?  
A minha convicção é que vamos eleger novamente uma Assembleia Legislativa Regional com 50% dos eleitores e vai formar-se um Governo com os votos só de 25% dos mesmos.
Sobre o impacto que irá ter no futuro, não haverá nenhum, será igual ao passado.

Como tem lidado, em família, com a Covid-19? Em sua opinião, a estratégia da Região de prevenção para que o vírus não se alastre nas ilhas é a mais correta? Quer comentar?
Nós cá em casa tivemos todos os cuidados e os meus filhos ainda mais.
Não sou fundamentalista e acho que não podemos parar tudo, porque não há dinheiro público que aguente a falta de economia.
A aposta deve estar na responsabilização individual. Todos deverão ser responsáveis, usar máscaras e cumprir com as outras normas recomendadas.
Inicialmente, o Governo Regional dos Açores esteve muito bem na comunicação, jogou a seu favor politicamente, colocou as coisas muito feias mas dando a sensação que tudo estava sob controlo. Depois, os factos demonstraram que nem tudo ia bem e começaram a aparecer a descoordenação e as incoerências. Presentemente, misturou-se a política partidária com as medidas e orientações sobre a pandemia. Estão a decidir de acordo com as pressões sofridas e torna-se necessário não perder votos.
Não existe uma separação de poderes entre a Autoridade de Saúde e o poder político, o que na minha opinião carece de correcção.

Como está a lidar com o facto de ter os filhos em aulas presenciais nas escolas em tempo de Covid-19?
Foi perfeito, tenho um filho no Instituto Superior Técnico que acabou a licenciatura em casa sem problema.

Acredita que se poderia ter encontrado condições para a realização do Azores Rallye ou concorda com a decisão do cancelamento? 
A minha convicção é a de que não existiram condições logísticas para pôr na estrada, em tão pouco tempo, o Azores Rally, que poderia por em causa as excelentes realizações do passado. Também o lote de pilotos inscritos ou interessados não devia ter muita qualidade, os patrocínios iam ser menores e o passivo do Grupo Desportivo Comercial poderia aumentar. Por outro lado, deu jeito ao Governo Regional do Açores, porque o custo-benefício este ano era muito duvidoso. Mais uma vez o Governo Regional dos Açores foi muito inteligente, passando a decisão para a organização da prova e assim as touradas na Terceira não trouxeram grande impacto, porque factualmente ele autorizou os dois, só com uma pequena diferença relativamente aos assistentes.
 
                                           

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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