30 de agosto de 2020

Cesto da Gávea

Insensibilidade e mau senso

Corria o ano de 1811 quando a escritora inglesa Jane Austen publicou sob o pseudónimo “A Lady”, o romance “Senseandsensibility”, uma obra na época notoriamente contracorrente. O romance deu origem a um sem número de edições, filmes e séries de televisão, tornando-se uma referência intemporal da literatura mundial. Tão intemporal que a mensagem do livro ultrapassou mais de 2 séculos e chegou até nós debaixo de muitas capas, inclusive políticas, mas não apenas essas. Tomando por exemplo o que ocorre atualmente nos Estados Unidos da América, conclui-se que a ausência de bom senso anda a par com a insensibilidade, o que é comprovado pelos números da pandemia em curso, tão pouco dignificantes eles são. Neste final de agosto de 2020, devido à falta de senso social da Administração Trump, o número de mortes americanas devidas à pandemia Covid-19 atingiu os 185.000, aproximando-se rapidamente da meta politicamente fatal dos 200.000. Paralelamente, o circo da propaganda eleitoral trumpiana continua a debitar histrionices, envolvendo no show-off vários familiares do presidente/candidato. A cólera popular, apoiada na violenta repressão racista da Administração, ameaça transbordar, num país que teve na guerra da Secessão de 1861-1865 um triste obituário de 1 milhão de vítimas, entre militares e civis. Mas para Trump e os seus seguidores, as pessoas são números estatísticos, principalmente de estatística financeira. Demonstrou-o claramente no programa televisivo “O aprendiz”, onde mostrou a fria insensibilidade que o caracteriza, governando a América como se estivesse num reality show de negócios. Daqueles que dão dinheiro, pouco importando como.
Dinheiro, muito dinheiro, é o que não falta na “guerra” das vacinas, onde a série de testes finais da famosa fase III já começou para meia dúzia de companhias. Num mercado global dominado em 80% por 5 grandes farmacêuticas, o volume de negócios das vacinas duplicou entre 2014 e 2020, roçando agora os 60.000 milhões de dólares. O pavor causado pela mediatização do número de infetados e das mortes causadas com origem no coronavírus, põe uma pressão insustentável nos governos, instituições não governamentais e empresas, paralisando contestações e favorecendo a grande indústria da saúde. É curioso verificar que o foco do desenvolvimento e distribuição dos fármacos, incide nos mercados dos países industrializados, onde se concentram os meios financeiros, cabendo o fabrico às economias ditas emergentes (Índia, Bangladesh, Vietname) onde a mão de obra é mais barata. As multinacionais tradicionais como a GSK, Pfizer, Merck, Novartis,  a que se junta a SPPharmaceuticals da Índia (um colosso que detém 17 a 20% do mercado), olham esperançosamente para o maná Covid19, que poderá atingir nos próximos 2 anos entre 150 e 160.000 milhões USD. Isto, sem contar as companhias de I&D que preparam as novas vacinas, tais Moderna, AstraZeneca, CureVac, mais a Cansino chinesa e os seus aliados/competidores russos do Instituto Gamaleya. No meio desta verdadeira corrida, alguns medicamentos para tratamento, como o antiviral remdesivir, vão sendo discretamente utilizados, enquanto não chegam os milhões de doses de vacinas previamente encomendadas pelos vários governos. Entretanto, a política vai insidiosamente tirando vantagens da confusão, ao que vemos nos debates das rádios, televisões e leituras de imprensa. O choque desastrado do Primeiro-Ministro com o Bastonário da Ordem dos Médicos evidenciou um “mau senso” contraproducente, revelador de algum inquietante nervosismo governamental.
No País e na Região, ao aproximar-se a época crítica outonal, há que manter o rumo e não ceder a tentações fáceis, como sucede com a festarola do Avante, uma “batata quente” que tanto pode escaldar o PS como o PCP. A posição dúbia da DGS de Graça Freitas pode sair-lhe cara, embora fique a impressão de que a “culpa” vem de cima. Idêntica situação ocorreu com as touradas da ilha Terceira, onde a cedência ao lóbi tauromáquico por parte da ARS de Tiago Lopes se apresenta discriminatória, relativamente a outros espetáculos e desportos. Tanto a festa do Avante, como as touradas terceirenses, lembram o velho ditado “ou há moralidade, ou comem todos”. Contrariando estasfalhas de senso, e porque se aproxima a rentrée escolar, citamos um estudo realizado pelo  Instituto Pasteur num surto Covid dos arredores de Paris. Concluíram os investigadores que o coronavírus afeta os alunos diversamente: apenas 9% no ensino elementar, contra 38% no secundário. Somente 7% dos professores e 4% dos auxiliares do elementar, contra 43% dos docentes e 59% dos auxiliares do secundário, testaram positivo no estudo, orientando a estratégia a seguir pelas escolas da área onde se tinha verificado o surto de SARS-Cov2. Na China, outro estudo envolvendo um universo de mais de 2.000 jovens, mostrou que 94% eram casos assintomáticos, leves ou moderados. Estejamos atentos, porque a insensibilidade e o mau senso pagam-se caro no futuro, como todos sabemos.

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Categorias: Opinião

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