A medicina é uma área fascinante
porque profundamente humana
põe o médico perante a realidade do paciente.
Redimensionando-se nele, diagnostica-o.
Dá-lhe força e esperança.
É como se uma luz de novo se
se acendesse na sua vida.
A medicina é um apostolado.
Não sei por ventura se alguns dos meus antepassados longínquos se dedicaram à medicina. O que constato é que, de repente, estou rodeado de mais de uma dezena de familiares, irmãos, sobrinhos, sobrinhos netos que se dedicam a área da saúde. Julgo que o meu irmão os tenha influenciado. Assim, abraçando as várias especialidades, eles prestam os seus serviços, com eficiência a milhares de utentes. É curioso assinalar que a maioria são mulheres que tão diligente e aplicadamente fizeram os seus cursos e hoje são muito consideradas nos hospitais onde desenvolvem a sua ação. Por todas as razões os médicos merecem-me uma simpatia e admiração especiais. Até porque alguns deles deram-me vida à vida, daí a minha gratidão eterna aqueles que, como costumo dizer, me salvaram e com seus conselhos estou ainda onde estou, contemplando a mais maravilhosa baía que conheço do mundo; aquela que me acompanha todos os dias como um privilégio. Diria como um prémio de vida. Por isso jamais me cansarei de repetir os seus nomes, vivem diariamente na minha memória: António Drumond, João Manuel Rodrigues, António Brazão, Ferdinando Pereira e António Alfredo Caldeira e dra. Eva Serrão. Infelizmente desconheço o nome do médico que psicologicamente me arrancou das minhas dúvidas no hospital de Olhão, pondo-me perante uma terrível realidade que só não aconteceu porque o seu grito estridente fez-me aceitar a situação aconselhável. Cá estou de novo, sem sequelas, a escrever inclusivamente esta crónica.
A minha lista tem agora um novo nome: Miguel Silva, um cirurgião, de 46 anos de idade, que chefia, por mérito próprio, a equipa de médicos do Hospital da Luz, no Funchal. Não o conhecia pessoalmente, mas dele ouvia as melhores referências, como médico competentíssimo e como ser humano. Acontece, porém, que absorvido pelas minhas dores que dominava todos os meus pensamentos não liguei o nome à pessoa do médico que me assistia. Só mais tarde, depois de operado, comecei a coordenar as minhas ideias e constato que o Dr. Miguel Silva era aquele que alguns dos meus amigos, com tanto entusiasmo, me falaram, pondo sempre em evidência a sua simpatia pessoal e competência profissional.
Não o conhecendo confiei-me nas suas mãos porque me inspirou confiança, desde o primeiro instante. Aos 85 anos, mais debilitado do que nas situações anteriormente vividas era natural o meu receio. Não há dúvida que o seu espírito de generosidade e poder extraordinário de comunicação com os doentes, elucidando-os ao pormenor das suas maleitas, dando-lhes toda a atenção, suavizando-lhes as queixas, encorajando-os. Assim, estabelece-se de imediato uma relação amistosa entre médico e o doente o que constitui uma força incomensurável e um acreditar que tudo se resolverá pelo melhor. A ilusão faz parte do contexto e as suas palavras assumem um papel preponderante. O dr. Miguel Silva usa-as com cuidado e muita habilidade. É o primeiro medicamento que dá aos seus doentes. Mete em sossego o desassossego do utente. É um médico de uma humildade impressionante.
Antes de chegar à chefia da equipa médica do Hospital da Luz trabalhou em vários hospitais e clínicas, no Funchal, no SESARAM e ainda no hospital particular, tendo sempre, em todas as instituições onde colaborou, deixado a sua marca de competência e profissionalismo consciente, o que o leva a um empenho por um estudo continuado e cada vez mais atual na sua área.
Como ser humano é maravilhoso, diz-me o meu grande colaborador dos tempos de governação, Gilberto Teixeira, a quem o dr. Miguel detetou, a tempo, uma doença grave. Aconselhando-o. Salvou-o. Uma outra das suas características é o de ajudar todos quantos batem à sua porta. Sempre de bom humor, mantém um grande respeito pelos outros.
Nasceu numa ilha onde uma vegetação intensa, bordada de hortênsias, invade as lagoas. Na ilha que Antero e Natália cantaram como ninguém; São Miguel. Ilha aprisionada à capital – Cidade dos Poetas – onde uma nova geração constrói futuros mais vem alicerçados no estudo profícuo, no conhecimento detalhado, no brio profissional e nas técnicas mais avançadas. O dr. Miguel Silva vem dessa geração. Dominado pela sua vivência de ilhéu universal, que ultrapassa todos os limites geográficos, estabelece-se numa outra ilha, atraído pelo seu ecumenismo. O fascínio das gentes, com olhares sempre estendidos na linha do horizonte. A fuga dos sonhos que constrói as ilusões e a vida corre no tempo. Porque o tempo, imparável, preenche-se com a invenção e a fantasia de todas as coisas.
Homem de sonhos, de uma humanidade que o dignifica e fá-lo empurrar a vida entre a medicina e os seus hobbies.
Colecionador de peixes de mar ou de animais domésticos aos quais proporciona toda a liberdade. Esta vertente revela bem a sua grande sensibilidade. Pai de duas jovens às quais incute-lhes o sentido e a beleza da vida, o dr. Miguel Silva fará certamente uma carreira preenchida de amor. Aquele único que dá todo o sentido à vida.
Este médico cirurgião, jovem, prestigia os Açores e a medicina. Exalta a sua classe. Um dos seus sonhos é aproximar, cada vez mais, os dois arquipélagos atlânticos. Eles completam-se e complementam-se na generosidade das suas gentes. E na riqueza das suas variadas e espetaculares paisagens. Aproximá-los, através da Casa dos Açores na Madeira, por ele fundada, é defende-los nos seus direitos e na concretização dos seus projetos. É dar a conhecer ao mundo a história de dois povos que das rochas fizeram cidades e vilas; dois povos que construíram tantas esquinas do mundo.
Ao dr. Miguel Silva auguro as maiores felicidades e manifesto-lhe o meu reconhecimento. Faço votos para que continue a ser o que é como pessoa humana, porque como médico cirurgião sei que ganhará o espaço que merece, pela sua inteligência e competência.
Se por um acaso nos seus propósitos de trazer os Açores à Madeira e vice-versa, precisar de um apaixonado pelas ilhas conte comigo. Não se esqueça que eu amo os Açores e admiro os Açorianos, o que se reverte numa força capaz de derrubar todos os obstáculos...
A medicina é uma área apaixonante, porque profundamente humana põe médico e doente perante uma realidade em que o papel primordial compete ao médico: saber colocar na mente no paciente a esperança de vida. É no discurso das palavras, cujo poder e reflexos das mesmas não se pode medir nunca, que reside a sabedoria de utiliza-as e convencer, dando tranquilidade ao doente. Nisto o dr. Miguel Silva é mestre porque descobriu que a verdadeira questão às vezes submete-se à razão de muitas outras razões...