Isabel Cássio, presidente do Conselho Médico da Ordem dos Médicos

“Os limites actualmente existentes não têm qualquer sentido na retoma da produção adicional cirúrgica no hospital do Divino”

 Tendo em conta a “lenta retoma” do Serviço Regional de Saúde (SRS) que, conforme diz a Presidente do Conselho Médico da Ordem dos Médicos nos Açores, foi iniciada “demasiado tarde”, para combater os efeitos que esta tem vindo a ter na saúde da população – nomeadamente através dos atrasos na realização das consultas e no diagnóstico de problemas de saúde graves –, Isabel Cássio defende a contratação de mais médicos para o SRS, como há muito tem defendido.
No entender desta médica, é “inadmissível” que os jovens recém-formados e que completaram o seu internato na Região abandonem o arquipélago, ou que tantos outros médicos “optem por só exercer a actividade privada”, sendo por isso urgente criar condições para que estes profissionais de saúde se fixem no arquipélago e no SRS.
Em acréscimo, Isabel Cássio defende ainda que devem ser criados programas de produção adicional para consultas e exames complementares, de forma a permitir “a retoma da produção adicional cirúrgica sem os limites actualmente existentes”, diz nesta entrevista.
Quanto ao número de pessoas que se encontram actualmente à espera de uma cirurgia, defende que para que este número seja reduzido devem ser contratados mais anestesiologistas, considerando – no entanto – que o mais grave é que perto das 13 mil pessoas que se encontram nesta lista de espera estejam já a aguardar mais do que o Tempo Máximo de Resposta Garantido.

Correio dos Açores - Na sua opinião enquanto presidente do Conselho Médico da Ordem dos Médicos nos Açores, de que forma se tem vindo a retomar a normalidade no Serviço Regional de Saúde (SRS) no que diz respeito ao atendimento dos utentes?
Isabel Cássio - A retoma foi iniciada demasiado tarde. As medidas necessárias de protecção em relação ao COVID obrigaram a várias alterações nomeadamente o espaçamento das marcações de consultas o que implica que sejam atendidos menos doentes por período de trabalho, o que não ajuda à recuperação das consultas canceladas ou adiadas durante o período inicial da pandemia.
As consultas telefónicas não resolvem o problema dado que são complementares às presenciais e em algumas especialidades muito residuais. Os exames complementares de diagnóstico e cirurgias ficaram obviamente mais atrasados do que o habitual e estamos muito longe de conseguir compensar o que não foi efectuado.
Todos os médicos, de Medicina Geral e Familiar (MGF) e hospitalares, estão a fazer um esforço para esta recuperação mas o tempo de trabalho e os espaços físicos em que decorrem têm limites. 

O que justifica o facto de algumas consultas necessitarem de uma espera de cinco meses até ao atendimento? Será este o “novo normal” do SRS?
Infelizmente a situação não decorre da pandemia, foi simplesmente agravada por ela, não sendo comum a todas as áreas. Decorre da escassez de médicos em algumas especialidades e necessita, na minha opinião, duma reorganização no circuito de comunicação entre Medicina Hospitalar e MGF

Que impactos haverá a longo prazo desta “era Covid” no Serviço Regional de Saúde?
Como já vem sido dito os doentes não COVID foram muito prejudicados nos seus cuidados de saúde e os reflexos desta situação vão verificar-se a curto e médio prazo, com o aumento da mortalidade e morbilidade, por vários motivos: atrasos de diagnóstico (nomeadamente por ausência de rastreios, demora de marcação de consultas e exames), aumento do tempo de espera para cirurgia prioritária. O receio que as pessoas tiveram e provavelmente ainda têm de recorrer às Unidades de Saúde também contribui para a degradação do seu estado de Saúde.

Também as esperas no Serviço de Urgência (SU) têm atingido tempos elevados, podendo ascender às cinco ou mais horas. Deve isto ser encarado como normal tendo em conta as circunstâncias actuais?
A espera no Serviço de urgência é um problema muito anterior à pandemia e que se prende com a procura inapropriada. Existe um sistema de triagem de prioridades que permite que os doentes verdadeiramente graves não esperem e os moderadamente graves tenham tempos de atendimento apropriados. 
Os restantes (triados  como verdes ou brancos) não deveriam recorrer à urgência. Obviamente isto implica outro tipo de resposta atempada fora do SU, em MGF e Hospitalar.

Na sua opinião, julga que há ainda medo/receio em recorrer ao serviço de urgência?
O Serviço de Urgência, como os restantes Serviços Hospitalares, têm condições de segurança, habituais e redobradas pela pandemia, para que as pessoas aí possam recorrer com confiança 

Para que a resposta do Serviço Regional de Saúde seja mais célere, que medidas deveriam ser implementadas urgentemente?
1- Contratação de mais médicos para o Serviço Regional de Saúde. É inadmissível que os jovens especialistas, que fizeram a sua formação como internos da Região, a abandonem e que tantos médicos tenham optado por só exercer actividade privada.
Como venho repetindo, os médicos precisam de condições para poderem desenvolver a sua actividade e de se sentirem respeitados e reconhecidos pelo esforço que fazem, diariamente, para conseguir o melhor para os seus doentes. Pelos seus superiores hierárquicos, Governo e utentes
2- Programas de produção adicional para consultas e exames complementares.
Retoma da produção adicional cirúrgica, sem os limites actualmente existentes, que não têm qualquer sentido quando a produção normal está tão limitada

Há actualmente mais 580 doentes à espera de cirurgia desde o último ano, sendo que o total desta lista ascende a perto de 13 mil pessoas que aguardam algum tipo de intervenção. Que análise faz deste número e o que deve ser feito para atenuar esta situação?
O número de doentes à espera de cirurgia na Região é preocupante. Mas mais importante que este número é o tempo de espera que ultrapassa, numa grande percentagem, o Tempo Máximo de Resposta Garantido. Este tempo de espera, embora os doentes graves nomeadamente os oncológicos tenham prioridade, tem um impacto muito grande na qualidade de vida das pessoas.
A solução passa sobretudo por conseguir contratar mais Anestesiologistas. A sua escassez é actualmente o maior entrave à produção cirúrgica. Sabemos que são poucos para as necessidades, em Portugal e na Europa,  mas é preciso muito mais esforço da Região para os cativar, nomeadamente, como já disse, os nossos internos.

Recentemente, numa edição   do “Correio dos Açores” o médico Ricardo Sampaio Cabral afirmou que “a política da Região tem levado à deterioração dos cuidados de saúde primários”. Concorda com esta afirmação? Explique.
Acho que a quantidade e qualidade dos médicos de MGF. tem vindo a melhorar nos Açores permitindo uma maior e melhor cobertura da população na área dos Cuidados Primários.                          Joana Medeiros 
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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