Rota das queijarias artesanais açorianas

“Recebíamos em média 2 autocarros por dia e este ano ainda só recebemos 3 autocarros de 20 pessoas”

Conte-nos um pouco da história da queijaria? Como foi criada?
O meu pai era produtor agrícola e em 1998, onde estão localizadas hoje em dia as instalações, ele tinha um pequeno barracão da altura da lavoura e ele começou a fazer uma coisa provisória. Claro que sem câmaras de cura nem nada. Começou a fazer o queijo tradicional, o único que ele aprendeu e comprou a patente. Ao fim de dois anos as coisas começaram a crescer, começou-se a receber turismo e aquilo ao nível de higiene era péssimo. Eles (turistas) adoravam e ao nível de experiência era muito giro porque se andava a fazer o queijo e eles andavam no meio do queijo, iam à prateleira escolher o queijo para levar, mas claro que ao nível e higiene e assim, era muito complicado. Foi aí que se fechou e se fez obras para a actual fábrica que foi inaugurada em 2002. 

Hoje em dia é tudo muito diferente desses primeiros tempos…
Actualmente temos uma fábrica já com condições. Com uma vitrina para se poder ver a produção, com toda a higiene e sem haver cruzamentos entre os visitantes e os funcionários. Junto à fábrica foi criado um bar de apoio que é o que tem vindo a crescer mais. Temos sempre os nossos 4 queijos em exposição com provas gratuitas dos produtos, para incentivar a compra. As pessoas vêm cá, bebem uma cerveja e nós oferecemos um prato de queijo para ajudar no petisco e também como forma de ficarem a conhecer o produto e de incentivo à compra do queijo. Esta é uma fábrica familiar. O meu pai tem uma exploração agrícola e transforma o queijo. Há cerca de 10 anos criamos os iogurtes, uma coisa muito pequena e artesanal, sem conservantes. Criamos porque a queijaria era muito visitada por estrangeiros e eles não compravam muito o queijo e com o iogurte, foi uma forma de eles comprarem porque é um produto com muita qualidade e que eles apreciam. Conseguimos fazer 200 iogurtes de cada produção. Hoje em dia somos um ponto de passagem de turismo. Nós só servimos sandes e tábuas de queijo. Claro que também temos uns doces, como a dona Amélia, para acompanhar, e conseguimos ter a casa cheia e ter bastante movimento. Temos uma esplanada bastante agradável, com um por do sol bonito com vista para o Pico e São Jorge. 

Já é um ponto de passagem obrigatória na Terceira…
Quase todos os turistas passam e mesmo os locais quando estão de férias, gostam de cá vir tomar o pequeno almoço e dar um passeio. Entretanto começamos a fazer alguns eventos de música. Começamos muito com o Luís e com a Maria Bettencourt, que são nossos amigos, e em vez de tocarem na nossa casa, vieram tocar aqui no Vaquinha e acabar por chamar alguma gente. O ano passado, no aniversário, já fizemos mesmo o primeiro festival para comemorar a data. É uma fábrica de queijo que acabou por ser um ponto de passagem. No fundo para comer queijo e não só. É um ponto de convívio. 

Fale-nos um pouco mais dos produtos que têm à disposição. Quantos tipos de queijo vendem?
O queijo vaquinha tradicional, o queijo ilha terceira, o queijo picante e o vaquinha tipo ilha. Para além disso temos também o queijo fresco do dia.

Para além disso têm também os iogurtes…
Sim. Nos iogurtes temos o natural, o natural açucarado, aroma de morango, pedaços de morango e pedaços de frutos do bosque.

Essa vertente dos iogurtes tem bastante saída?
Sobretudo para turistas. Os locais, como é um iogurte com um preço acima da média, vendemos a 70 cêntimos cada um, acaba por não se vender muito.

Quantos funcionários trabalham na fábrica?
Estamos dividos em três sectores. Na lavoura temos três funcionários, na fábrica são cinco e no bar contamos também com outros cinco. No verão acabamos por ter sempre mais dois ou três, para cobrirem os meses de verão e para fazer horas para os funcionários do bar poderem tirar férias. 

Qual é a vossa capacidade de produção?
Produzimos 2500 litros de leite por dia. Essa é a nossa capacidade máxima, mas claro que este ano estamos a produzir muito menos devido à pandemia. Este ano está tudo mais calmo.

Isso traduz-se em quantos queijos diários?
Deve andar à volta de 260 a 300 quilos de queijo diários. Temos um horário das 8 às 22 horas, todos os dias, sem pausas, e agora, de verão, aguentamos até à meia noite e aos fins de semana até às 2 da manhã. 

Quais são os vossos principais mercados?
Só vendemos o nosso queijo em Portugal. 80% das nossas vendas são feitas aqui ao balcão. Principalmente a turistas mas também muitos locais que vêm cá buscar para consumir. Depois vendemos para Lisboa, para as Lojas Açores, para o Rei dos Queijos em São Miguel e para a Yoçor que agora também está a começar a distribuir os nossos queijos em Lisboa. Estes são os nossos principais clientes. Há também muita gente que nos visita e que se torna depois cliente. Vão encomendando e nós enviamos directamente.

Falar da Pandemia de Covid-19 é inevitável. Como foram esses tempos?
Obviamente que tivemos de fechar a parte das vendas durante dois meses. Claro que a fábrica teve de continuar porque não podíamos deitar o leite fora. Tivemos de produzir porque tínhamos leite todos os dias e claro que tivemos prejuízo porque se perdeu algum queijo. Estávamos a começar a fazer stock para o verão porque esperávamos ‘uma loucura’ de turistas e a pandemia surgiu exactamente nessa altura em que nos estávamos a preparar. Perdemos algum queijo que se estragou, que ficou muito seco e velho. Numa situação normal, como já disse, produzíamos 2500 litros diários durante 7 dias por semana e este ano estamos a produzir 1000 litros 3 a 4 vezes por semana. 

Trouxe-vos grandes prejuízos…
Claro. A verdade é que as despesas fixas são as mesmas. Quer ao nível de pessoal quer ao nível de luz. Os custos fixos mantêm-se porque não podemos desligar as câmaras por vendermos menos. Nos dois meses de confinamento mandamos os funcionários para layoff com excepção de 3 funcionários da fábrica.

O seu pai é o único fornecedor de leite da queijaria?
Sim. No verão costumávamos comprar a mais um produtor de leite mas, este ano, ainda nunca o fizemos. A maior do leite é nosso. Nós é que o produzimos para transformar.   

A vossa queijaria tem algum projecto pensado para os próximos tempos?
Não, não. Isto agora da maneira que as coisas estão é tentar manter e não querer crescer nem inventar muito. Nós somos uma fábrica virada para o turismo e é no verão que fazemos o nosso ‘mealheiro’ para aguentar de inverno porque isto do Covid se tivesse vindo em Setembro não teria feito grande mossa. O objectivo é mesmo tentar manter e salvar a casa. 

Tem-se notado muito a quebra de turismo?
Muito, muito. Recebíamos em média dois autocarros por dia e estamos a entrar em Setembro e só recebemos 3 autocarros de 20 pessoas. É uma quebra muito, muito grande. Está muito calminho ao nível do turismo. Este ano temos recebido muitas pessoas dos Açores.

A Queijaria Vaquinha foi uma das contempladas por um apoio do Governo Regional dirigido às queijarias artesanais. Esse apoio é suficiente?
Esse apoio foi calculado consoante a quebra no número de litros que tivemos em relação ao ano passado. Calcularam ao nível dos dois meses que estivemos fechados vão nos dar a diferença da quebra de litros que não produzimos. Isto nunca é demais. Antes pouco mas a fundo perdido do que nos darem balúrdios em empréstimos que tenhamos de devolver. Com esse valor conseguimos pagar algumas coisas e alguns dos prejuízos que tivemos. 

Quais são os grandes objectivos da vossa queijaria para os próximos tempos?
O objectivo é manter a qualidade e continuar a cativar os nossos funcionários, já que temos um grupo muito jovem e claro que, no futuro, poder criar um ou outro produto novo. Melhorar também aqui ao nível de bar, em que estamos limitados de espaço, criar uma ementa com mais variedade ao nível de queijos. Tudo só com queijos mas conseguir alargar a oferta a nível de bar.  
                                              Luís Lobão

                                              
                                            

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Autor: CA

Categorias: Regional

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