2 de setembro de 2020

“Na juventude aprendemos, na velhice entendemos” (Marie von Ebner Eschenbach)

Recentemente o médico Júlio Machado Vaz deu uma entrevista ao Diário de Notícias onde  fala de uma tentativa de infantilizar os idosos sob o pretexto de os salvaguardar do risco de contágio e da qual aqui reproduzo um excerto:
“Claro que tenho medo, mais a mais, pertenço a um grupo de risco, tenho 70 anos, e todos os dias se vê a diferença de mortalidade entre os mais velhos e os mais jovens. O que acontece é que, em minha opinião, tem havido um movimento entre os mais velhos de recusa a serem infantilizados. O risco não vai desaparecer, desejavelmente irá diminuir, mas, perante as pessoas mais velhas que estão bem informadas e capazes de tomar decisões, não podemos entrar numa espécie de imperialismo sanitário. As pessoas têm o direito de, depois de pesar os riscos e as vantagens, decidirem o que é considerado válido para elas, o mínimo para que possam ter qualidade de vida.”
(Entrevista ao Diário de Notícias)

A este propósito recordo as infelizes notícias que chegaram até nós sobre a situação no Lar do Nordeste. Uma vez iam para o hospital, outra vez para um centro de saúde criado para o efeito, outra vez eram levados para a Povoação, outra vez para a Ribeira Grande. Tudo cuidados de primeira linha, mas pergunto, esperando que a resposta seja afirmativa: - Alguém lhes perguntou o que queriam? Alguém teve em conta a sua própria vontade? Certamente que muitos deles estão bem informados e capazes de decidir. Espero do fundo do coração que a personalidade, idiossincrasia e vontade própria daquelas pessoas tenha sido levada em conta numa ocasião tão profundamente traumática das suas vidas. 
E, agora que regressaram ao que afinal é a sua casa, com a ausência de mais de uma dezena de pessoas, faço votos para que esse vazio esteja a ser acompanhado por algum tipo de cuidado suplementar, seja psicológico, seja de amor ou carinho, porque nem só de pão vive o homem e ninguém deve haver no mundo a passar fome de afeto e cuidado. Neste momento difícil o desvelo precisa de ser reforçado, senão não valeu a pena terem-lhes salvo as vidas.  
E, por favor não infantilizem os idosos como vi acontecer num programa  do canal 1. Todas as tardes ligavam a um lar de idosos com a melhor das intenções, no que vi e mais não vi porque me recusei, foi dezenas de idosos, especialmente preparados para a aparição na televisão com um balãozinho na mão a cantar uma canção próxima do infantil. Pelo amor de Deus!
Augustina Bessa Luís afirmou: “Nasci Adulta e Morrerei Criança”.
Não queria com isso dizer que se devesse ser infantil e aderir ao seu folclore, que a ela serve muito bem, mas já não ao adulto e ainda menos ao idoso. Quereria antes a escritora referir que a vida nos ensina a sabedoria que parece trazermos intata à nascença. A sabedoria de que fala o filósofo Agostinho da Silva que citamos: … é a criança quem deve mandar em todos nós, primeiro para que nos dê alguma coisa da sua imaginação, da sua inocência, do seu contínuo sonho, do seu esquecer-se do tempo e do espaço, da sua levitante vida, e depois para que dela se desenvolva, sem que nenhuma qualidade se perca e muitas outras se acrescentem, um adulto bem diferente de nós.” Isto é Sofia (sabedoria), não infantilismo.

Teresa Tomé

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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