3 de setembro de 2020

Desvelando, ao de leve…

O Livro de João de Melo, cheio de Vozes e Sombras

Uma das minhas leituras deste último mês de julho. Inevitavelmente. Livro de Vozes e Sombras, de João de Melo. Um livro, quanto a mim, de desencantos profundos e fortemente sustentados na visão experiente e arguta do seu autor.
    
No verão de 1975, eu tinha nove anos. Nada à minha volta parecia complicado. O contacto mais “profundo” que tive com as conturbações políticas da época deu-se numa tarde em que atravessava a Avenida Marginal, em Ponta Delgada, e vi um enorme ajuntamento de pessoas, em turbilhão, a ser controlado pela Polícia de Choque, que eu nem imaginava que existia. Valeu-me o meu Pai que, por acaso ou milagre, lá apareceu e me levou a salvo para casa. Isto para dizer que Revolução, Ditadura, Causa Separatista eram, para mim, expressões soltas, perfeitamente abstratas e demasiado distantes do mundo protegido da minha infância.
Fui crescendo e, aqui pecadora me confesso, não cheguei a aprofundar a causa separatista. Li coisas dispersas, ouvi outras tantas, é claro, mas nada que me convencesse a tomá-la como causa minha. Desde que penso sobre o assunto, não consegui identificar-me com esse desejo de Independência. Nunca me senti de outra pátria que não a portuguesa, embora adore o canto dela onde nasci. Pátria é o nosso percurso histórico, que cria o espírito de um país, uma identidade cultural em que cada um de nós, individual e coletivamente, se reconhece. Gosto de sentir que tenho raízes fundas, sinais de um tempo mais velho do que o da juventude da Ilha. 
Este breve começo vem um pouco para justificar que, embora estejamos perante um livro que lança um forte olhar sobre a nossa História recente, optei por defender-me do que não sei a fundo dessa época e foi sobretudo como ficção que o  li, pensando que um autor com a dimensão do João de Melo olha necessariamente para o seu e para outros tempos, usando a liberdade ficcional que entender.
Não queria aqui dizer banalidades, que se esvaziam de imediato, mas gostei muito de lê-lo. É uma obra ousada, de perdas e de desencantos, como já disse. Foi, certamente, escrita a pulso, pois é difícil desfazer os mitos e os sonhos de grandeza, transformando heróis – falsos ou verdadeiros – em gente de carne e osso, o reverso da medalha da “Ilha dos Amores”, em que os homens ascendem à condição de semi-deuses.
Açores, África e Lisboa – três grandes universos do autor, que se entrelaçam neste romance, constituído por sete sequências que conseguem reunir a questão açoriana, o fim da Guerra Colonial e a Revolução em Lisboa que, de certa forma, surge como símbolo do declínio. Dos três espaços, a capital é, curiosamente, o mais “periférico”, na minha opinião.  A ação desenrola-se em tempos também distintos, criando uma teia que se vai urdindo habilmente.
É o próprio autor que diz, numa longa entrevista que deu no JL, de 30 de junho passado, que “(…) O 25 de Abril e a Revolução dos Cravos transformaram-se na solução política de três guerras coloniais que tão cedo não conheceriam vencedores nem vencidos. O paralelismo das situações reside nos seus contrários: Açores versus Lisboa e a sua esquerda política; a África branca versus movimentos negros de libertação, mais a perda e o retorno à chamada Metrópole. Fui em busca de uma nova mitologia histórica: aquela que nós, que tudo vivemos, não soubemos passar à ‘geração seguinte’. Foi também para ela que escrevi o romance.” (Jornal de Letras, pág.13).
Este livro é tudo isto e muito mais e exigiu do autor uma longa investigação de factos, dos seus protagonistas e também das suas vítimas, para poder, livremente, criar uma ficção que traz, ainda, a novidade de abordar literariamente a existência e a atuação da FLA (Frente de Libertação Açoriana).
 Surgem aqui várias personagens fortíssimas e surpreendentes, que o leitor irá conhecendo, mas destaco uma que é, para mim, particularmente fascinante - Ângela Mendes Pinto, cega de nascença, mas que vê muito para além do que os outros conseguem ver. Nela encontro muito do humanismo e da sensibilidade do seu criador. É uma voz que nos embala, contra a crueza e a brutalidade da raça humana. Aqui fica uma passagem, em primeira pessoa: Eu, Ângela Maria Mendes Pinto, nascida para ser o feminino do anjo e comigo trazer a maldição e a cegueira da pedra, perdi-me afinal de tudo: da minha casa da infância em Munakala, da ordem interna, dos destinos do meu bando. Sou uma ave sacrílega, a que enfrenta sozinha o vento contrário na noite do mundo. Só tenho a memória. Os sentidos, a pele, e o ser dos humanos, tudo se submete à existência primordial da memória. Esse o meu segredo. Em tudo o mais, é a natureza em mim; efémera como o fogo, a erva, a chuva que às vezes passa sobre o fogo e sobre a lenha – mas sem apagar o lume nem molhar a lenha. (Livro de Vozes e Sombras– Publicações Dom Quixote, Junho de 2020, página 117).
O ambiente social e político de São Miguel nesse tempo e a sua paisagem esmagadora; as longas noites de África – os seus amores e os seus ódios, mistérios e encantamentos; o ambiente conturbado de Lisboa, nos sonhos e nas desilusões. Tudo pela mão do João de Melo. 
Fica tanto por dizer desta obra complexa e com um enredo labiríntico. Uma obra sobre o desfazer dos sonhos dos homens e dos heróis por ser. Livro de Vozes várias e dispersas que o universalizam e Sombras - os pequenos mistérios de que somos feitos e que nos ensombram os desejos, fazendo-nos questionar constantemente sobre o nosso papel no teatro do mundo.
Agosto de 2020

Maria João Ruivo

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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