Investimento de 75 mil euros em fase de conclusão

Requalificação da ‘mítica’ Mata do Café transforma um espaço de lazer e desporto de gerações agora com novas dinâmicas

 A mítica Mata do Café, entre as praias das Milícias, em São Roque, e do Pópulo, no Livramento, está a transformar-se num pequeno e interessante mini complexo desportivo ao ar livre a fazer jus ao que sempre foi no passado mas em condições totalmente adversas.
Os mini-campos para basquet, voleibol, andebol, futsal, futebol de cinco e outras modalidades estão em fase final de conclusão e vão ser a delícia de crianças e jovens. E, em seu redor, bancadas em madeira, espaços verdes, espaços de lazer e estacionamento de 30 lugares, passeios para caminhadas, tudo feito com o requinte exigido ao longo de oito mil metros quadrados, muito longe de quando se praticava futebol de pé descalço há algumas gerações atrás.
O projecto distingue várias zonas, nomeadamente para lazer e desporto, “reordenando e requalificando esta área, para  que possa ser usufruída por famílias, residentes, visitantes, na sua mais ampla acepção, e também pela comunidade, uma vez que é habitual algumas festas da freguesia terem lugar aqui”, como diria a Secretária Regional Ana Cunha, quando visitou a obra e considerou o espaço “negligenciado”.
A empreitada, que está a ser ultimada pela Secretaria dos Transportes e Obras Públicas, representa um investimento superior a 75 mil euros, que, segundo Ana Cunha, “à partida, estará concluído antes do Verão, pronto a ser utilizado nessa época”. Afinal, faltarão duas semanas para a sua conclusão e o Verão ainda está aí. 
O actual Presidente da Junta de Freguesia do Livramento, Manuel António Soares, mostra-se radiante com o empreendimento. Como afirmou ao jornalista, este “é um sonho de 15 anos, uma obra que peca por tardia” e que, “finalmente, chega a bom termo”. O autarca não esconde a sua satisfação pela solução encontrada.
 Muitas gerações de residentes do Livramento e São Roque praticaram, de pé descalço, futebol na antiga Mata do Café por entre areias e pedras. Jogos entre amigos (e às vezes nem por isso), que acabavam, quase sempre, com os dedos esburgados e/ou sem unhas para além dos entorses que se desfaziam em casa da senhora Maria José que, depois de tanta paciência, acabava sempre por se despedir do jovem com um sorriso perante a pergunta: “quanto é que custa?”.
A senhora Maria José é um dos muitos nomes anónimos que passam na sociedade cujos feitos, em prol dos tão desfavorecidos como ela, ficaram totalmente desapercebidos. E pessoas como ela, que foram dando do pouco que tinham, em acções de benemerência, não deviam sumir-se socialmente sem uma homenagem.
Passamos muitas vezes pela casa da senhora Maria José para nos tirar o entorse e ela nem uma vez recusou. Usava uma pana de água quente, um pouco de azeite e era esperar pelo momento do seu toque de mestria.
Na ‘Mata do Café’ faziam-se campeonatos de rua. Cada rua tinha a sua equipa e cada jogo era levado muito a sério. Muitas fintas, muitos dribles, muitas ‘caneladas’ e, no final, alguns dedos ensanguentados.
Por vezes, as equipas assumiam um estatuto acima do ser um adversário saudável a quem se vai tentar ganhar num jogo de futebol. E quem perdia não gostava ao ponto de pedir satisfações e se chegar a vias de facto. Claro que nestes jogos não havias árbitros nem fiscais de linha e, mesmo que houvesse, bastava um pequeno erro para ‘o caldo ficar totalmente entornado” e o árbitro ser, com muita sorte, apenas despedido.
Mas, no meio destes ‘jogos de rapazes’, passaram alguns jogadores que foram nomes sonantes no futebol federado micaelense. Provavelmente, um dos que mais se demarcou foi o Francisquinho, do tempo em que a equipa de futebol do Santa Clara tinha apenas o sonho quase sempre alcançado (com onze jogadores micaelenses) de ser o Campeão de Futebol dos Açores. Muito longe, obviamente, de estar a militar na Liga Nós ao mais alto nível com dois jogadores açorianos, um deles terceiro guarda-redes e ainda o Nené, da Graciosa, que já entrou em campo em jogos da primeira liga.
Neste espaço de tempo viveu-se, entre a equipa totalmente micaelense do Santa Clara – todos eles a suar a camisola sem receberem nada ou quase nada em troca - muito elogiada pelos comentadores de São Miguel nas vitórias dos jogos com as equipas da Terceira e do Faial; e, agora, a equipa açoriana do Santa Clara, com dois jogadores açorianos, muito referenciada pelos comentadores do futebol nacional por ficar no ‘top-ten’ do campeonato maior do futebol português e somar por vitórias, até agora, todos os jogos deste período de pré-época.
E também é interessante evoluir no tempo entre a senhora Maria José que tirava os entorses de gerações de jovens futebolistas da Mata do Café, o Carlos Barbosa, que era massagista do Santa Clara por quem passou, entre outros, o Francisquinho do Livramento, e a actual equipa médica do Santa Clara por quem passam muitos jogadores que vêm aos Açores ganhar ordenado para manter a equipa na I Liga e, com isso, promover a Região no continente e, quiçá, num futuro próximo, na Europa.
Casa coisa no seu lugar, a merecer o realce que teve em cada momento e a importância que teve e tem na história de um lugar, a Mata do Café, e na actualidade do futebol de alto nível que se pratica na Região que pouco tem de açoriano. Mas esta, afinal, é outra questão que tem a ver com a formação das camadas jovens e que deveria merecer uma reflexão séria por parte dos especialistas.                                                            

J.P.
 
 
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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