Casal micaelense fixa raízes na Escócia e não pretende regressar aos Açores

Depois de analisadas as condições de vida em países como a Finlândia, a Austrália e a Noruega, Cátia e Hugo Medeiros decidiram fixar a sua vida na Escócia no ano de 2014, deixando para trás a ilha de São Miguel, de onde ambos são naturais – ele da Lagoa e ela de Ponta Delgada.
Em adição a esta grande mudança, este casal, ela enfermeira e ele assistente de enfermagem num lar privado, foi ainda pai de duas meninas gémeas há cerca de dois anos, vendo-se agora a passar pela “difícil” experiência de criar as filhas sem a proximidade da família, sendo este um dos maiores desafios que enfrentam diariamente, dizem.
Tanto para Hugo como para Cátia Medeiros emigrar foi sempre uma opção e um tópico de conversa entre os dois, pois embora tenham ambos completado toda a sua formação profissional na ilha de São Miguel – ele na área Audiovisual e ela na Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada – a realidade exigia que trabalhassem longas horas para poderem comportar as despesas comuns às famílias.
Isto é, para além do trabalho de enfermeira que Cátia Medeiros tinha antes de deixar São Miguel, numa empresa destinada a garantir a prestação de cuidados à população, Hugo Medeiros via-se obrigado a manter três empregos diferentes. 
No entanto, mesmo nestas circunstâncias, o casal afirma que “chegava ao final do mês com o suficiente para as despesas e muito pouco para colocar na poupança” familiar, tendo inclusive abdicado da sua lua-de-mel devido “à dificuldade para pagar algo fora da ilha e por falta de flexibilidade nos empregos”, levando o casal a pensar que “emigrar era o mais certo a fazer”, conforme afirma Hugo Medeiros.
Em acréscimo, durante o seu percurso académico, a enfermeira acabou por conhecer vários colegas que acabaram por emigrar para o Reino Unido, o que viria também a despertar a curiosidade em relação a novas experiências que poderiam ser vividas profissionalmente, embora o Reino Unido não fosse propriamente a primeira opção do casal.
“Inicialmente, a Escócia nunca nos havia passado pela cabeça. Por investigação própria eu sabia que o custo de vida era elevado na Inglaterra e que as pessoas não eram afáveis. Não era o que tínhamos em mente para emigrar e queríamos algo semelhante a São Miguel para que a mudança não fosse tão significativa”, diz Cátia Medeiros.
No entanto, tudo mudou após estabelecer contacto com uma amiga que trabalhava na Escócia, o que permitiria ao casal “trocar ideias” e perceber quais as vantagens daquele país que viria a ganhar outro encanto devido ao sistema de saúde e de educação gratuitos, devido à “cultura interessante, às pessoas acolhedoras, ao custo de vida razoável e ao cenário muito semelhante a São Miguel”.
Tomar esta decisão devido ao encerramento da empresa em que Cátia Medeiros trabalhava, relembra o casal, foi “entusiasmante e assustador ao mesmo tempo”, uma vez que em 2014 o casal estava casado de fresco e tinha entre mãos várias responsabilidades financeiras e familiares.
No entanto, “por não existir uma grande selecção de empregos na Região, por a lista de espera para o hospital ser enorme e por a maioria das vagas existentes para enfermeiros em Santas Casas estar preenchida pelo concurso Estagiar L”, a enfermeira acabou por entrar em contacto com uma empresa portuguesa de recrutamento para o estrangeiro, recebendo uma “resposta imediata para trabalhar num lar que presta cuidados a pessoas com lesões cerebrais e medulares”.
Depois de aceitar este emprego e de ambos perceberem que a vida em comum iria tomar um rumo diferente, Cátia e Hugo Medeiros recordam que o mais difícil foi partilhar os planos com a família que num primeiro momento encarou a decisão apenas como uma “aventura” que o casal planeava viver para depois regressar.
“Foi muito difícil partilhar esta decisão com a nossa família. Eles receberam a notícia como se estivéssemos a contar uma piada e não acreditaram a princípio, mas à medida que o processo de candidatura evoluiu eles aceitaram a notícia com tristeza e com a antecipação de voltarmos para trás depois da nossa aventura, como tantos fazem”, explicam.
Posto isto, face à urgente necessidade expressa pela empresa à qual se candidatara na Escócia para que a enfermeira entrasse no trabalho, Cátia Medeiros viria então a emigrar a 16 de Dezembro de 2014, sem ter a oportunidade de passar mais um Natal com toda a família conforme desejava, sendo este um dos seus desejos para o futuro: voltar a passar um natal com toda a família reunida.

Os benefícios da emigração

Dois meses depois seria a vez de Hugo Medeiros partir para a Escócia, depois de terminado o vínculo profissional em todos os seus empregos em São Miguel, optando por trabalhar também no sector da saúde uma vez que, para além do gosto pela área, tinha também a possibilidade de se transferir da base de trabalho portuguesa para a base de trabalho inglesa, mantendo alguns trabalhos na área do design em modo freelancer, adianta.
Aquando da chegada de Hugo Medeiros ao Reino Unido, onde depressa conseguiu encontrar emprego, conforme referiu, a sua mulher tinha já conseguido um emprego fixo e um T2 para viver.
Entretanto, fora da pequena “caixa” que consideram ser os Açores, Hugo e Cátia Medeiros adiantam que por esta altura já viajaram “por vários países da União Europeia e até África, conseguindo manter uma boa conta poupança e assegurando todas as despesas”, tendo inclusive comprado uma casa “sem necessidade de fianças ou pedidos de empréstimo ridículos”, conseguindo ainda “manter um estilo de vida confortável que permite aproveitar as coisas boas que a vida oferece sem endividamentos ou culpa”.
A nível profissional, os dois consideram que se sentem realizados devido à experiência que têm adquirido e que, sobretudo no caso de Cátia Medeiros, seria “impossível adquirir noutro contexto”, embora para Hugo Medeiros tenha havido um agravamento das condições de trabalho no sector da saúde, devido à Covid-19, mesmo que essas condições “sejam esperadas mundialmente, em todos os hospitais e nações”.
Ainda assim, mesmo com as restrições existentes e com os impactos sofridos em todo o mundo, Cátia Medeiros afirma que foi “afortunada em relação à Covid-19”, tendo em conta que o sector privado para o qual trabalha encerrou em Março, permitindo-lhe trabalhar a partir de casa e fazer novas aprendizagens, mas também ter mais tempo para dedicar às filhas devido ao encerramento das escolas.

Os entraves criados pelo Brexit

Em relação às filhas, nascidas na Escócia, Cátia e Hugo Medeiros adiantam que há vantagens em permanecer naquele país, devido à educação gratuita que inclui a opção pelo ensino superior, mas que o Brexit tem também implicado algumas complicações, sobretudo no que diz respeito à questão da cidadania e, também, no serviço de creche.
“Com o Brexit a questão da nacionalidade das meninas foi uma grande complicação e de futuro temos que nos candidatar todos à cidadania, o que no pré-Brexit seria atribuído a elas à nascença aqui no Reino Unido.
Outra desvantagem é que até atingirem os três anos de idade a creche é paga e é extremamente cara, cerca de 50 libras por dia por criança. A maioria dos pais aqui depende dos seus familiares ate aos três anos de idade o que para nós e impossível. A separação da família - de novo - vem a salientar o quão difícil é emigrar”, diz o casal.
Para Cátia Medeiros, todo o processo referente à saída do Reino Unido da União Europeia é “um período de grandes incertezas e um grande fechar as portas para a próxima geração”, referindo-se, como é natural, às filhas e às crianças da mesma geração.
“Teremos a certo ponto que escolher uma nacionalidade diferente para podermos permanecer aqui no Reino Unido e o simples facto de termos que abdicar de sermos portugueses e do nosso passaporte português gera grande tristeza. A dupla nacionalidade ainda está a ser discutida entre os dois países e infelizmente o nosso consulado não dá grande suporte nesse aspecto”, acrescenta ainda a enfermeira açoriana.
Por outro lado, para Hugo Medeiros, lidar com a questão e com as exigências do Brexit “foi fácil”, tendo em conta a necessidade que o país tem de trabalhadores qualificados, o que abriu portas para que o casal ali consiga “residir por tempo indeterminado”.
Outra questão complicada, sobretudo para Cátia Medeiros está nas diferenças culturais entre cada país, não lhe sendo possível “sequer pensar em algo que seja paralelo nas duas culturas”, sendo difícil “viver constantemente noutra cultura que não a nossa”, uma vez que no Reino Unido é difícil manter uma proximidade cultural com Portugal e, sobretudo, com os Açores.
“É difícil termos a sensação de sermos portugueses fora das nossas casas e encontrar produtos açorianos é quase que impossível. As encomendas com mimos dos Açores são sempre uma grande alegria e momento de comemoração. Chegamos a comer bolos lêvedos com um pouco de bolor só mesmo por que estávamos com tantas saudades disso. Passar a cultura portuguesa e açoriana para as meninas é um desafio grande especialmente quando tudo o que as rodeia é inglês”, dizem.
Apesar destas saudades de uma terra que hoje é para este casal sinónimo de “amigos e família”, regressar aos Açores de forma permanente não é uma opção, embora tentem visitar a ilha pelo menos uma vez por ano para que as filhas tenham a oportunidade de criar alguns laços com a terra dos pais e com a respectiva família.
 

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