Dia do Biólogo

Turismo deve ser uma actividade “que jogue em favor das populações e da economia dos locais” sem ultrapassar limites

No início dos anos 80, num Portugal ainda a celebrar os benefícios do 25 de Abril “e a vida das pessoas a melhorar um pouco”, as famílias tentavam que os filhos pudessem ter uma vida melhor e estudar para que conseguissem empregos que permitissem uma vida estável. Assim foi com a bióloga, docente e investigadora da Universidade dos Açores, Maria Anunciação Ventura que quando falou aos pais que queria seguir biologia, o que lhe perguntaram foi “se era para dar aulas”. Sem grande pressão por parte dos pais, que a incentivaram a seguir aquilo que gostava, formou-se em Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e até seguiu a docência. Na altura havia carência de professores de biologia, ao nível do secundário, e foi essa a primeira profissão que abraçou durante três anos “uma experiência única e maravilhosa, que guardo no coração”. Mas o ensino não a preenchia, “queria mesmo era investigação”, e foi fazendo alguns projectos e trabalhos, inclusive no antigo Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, localizado em Sacavém, “onde existia o único reactor nuclear do país, que entretanto foi desactivado”. 
Tinha portanto “alguma experiência, mas não tinha um emprego propriamente dito” e foi nessa altura que surgiu a oportunidade de se candidatar a um lugar na Universidade dos Açores. Era a oportunidade ideal para conjugar aquilo que mais gostava: “o ensino com a investigação, apesar da família ficar do outro lado do Atlântico. E em boa altura o fiz porque agora gosto muito de estar cá”, confessa.
Para Maria Anunciação Ventura, também Vice-presidente da Delegação Regional da Ordem dos Biólogos, “os Açores são o laboratório natural dos biólogos, temos coisas magníficas em termos de natureza terrestre, aquática, marinha. Temos várias vertentes para poder estudar e não me arrependo nada de ter vindo. O impulso de escolher biologia como o curso de eleição, acabou resultando naquilo que sonhava fazer. E hoje posso dizer que sou uma pessoa realizada em termos profissionais”.

Especialização em Ecologia
Perante os vários ramos da biologia, Maria Anunciação Ventura admite que desde o início do curso se começou a aperceber que o que mais gostava era “ao nível macro e das interacções dos seres vivos” e de ir para o campo “e ver a dinâmica em torno da natureza”. Acabou por se especializar na área de ecologia e tem desenvolvido trabalhos ao nível do turismo sustentável. 
A este nível, a investigadora refere que esta pandemia da Covid-19 veio trazer algumas “guias” para perguntas que os investigadores iam colocando antes. E dá o exemplo de países em África, na América do Sul e América Central que dependiam essencialmente do turismo de natureza e que com as receitas geradas conseguiam promover projectos de conservação da sua fauna e flora “porque sabiam que isso atraia turistas”. E actualmente, “algumas dessas zonas estão a ser seriamente atacadas por caçadores furtivos e por pessoas sem escrúpulos que estão a destruir os locais, precisamente porque esses países estão confinandos, as pessoas estão recolhidas, e o dinheiro não entra porque não há essa fonte de rendimento. E a primeira coisa a cair são os projectos de conservação”. A investigadora do CIBIO-inBIO da Universidade dos Açores, acrescenta que este conceito de turismo na natureza “é muito importante para países cujas economias mais débeis, precisam dessa vertente para poderem manter o seu património natural, que é o que atrai os turistas”. E isso também se verifica em ilhas, como os Açores. “Os pequenos territórios terão as suas economias mais frágeis, porque têm menos pessoas e menos actividades. O turismo também pode funcionar muitas vezes para equilibrar a balança económica dos espaços insulares”, explica. No entanto, alerta que não se pode “cair no exagero” que quantos mais turistas melhor. “Não é bem assim, porque temos de ter alguma noção de equilíbrio. Os impactos vão existir sempre, não podemos pensar que o turismo é uma actividade inócua, que não é. Temos é de fazer dele uma actividade que jogue maioritariamente em favor das populações, da economia e da dinâmica dos locais. Se deixarmos a situação ultrapassar aqueles limites que consideramos em que a manutenção do equilíbrio possa ser assegurada, podemos cair no outro extremo, de destruir o que é o nosso património natural”, alerta.
E não são só os turistas que podem destruir esse património. Adepta do mergulho subaquático, que pratica desde os anos 90 na Região, Maria Anunciação Ventura recorda quando foi mergulhar pela primeira vez na ilha das Flores. “Via-se bastante peixe debaixo de água e nas Flores, a primeira vez que mergulhei tive de ficar parada, para os peixes acalmassem, parecia que tinha mergulhado num aquário”, recorda. Em contraponto, na semana passada esteve na ilha do Pico a participar num outro projecto de investigação, onde “a pobreza em termos de peixe era notória” e nas fotografias que foi fazendo de forma aleatória apenas conseguiu fotografar dois peixes - uma moreia e uma pequena castanheta.
“Para valorizar o mergulho subaquático, os turistas gostam de ver peixe”, além da componente geológica subaquática. “E neste caso não são os turistas que estão a fazer desaparecer o peixe. Falo de um equilíbrio entre actividades económicas que têm de se manter, mas temos de perceber o que é preciso mudar no comportamento das pessoas, na captura, na gestão, que no fundo interferem com a qualidade da própria visita” e é isso que também tem de ser gerido.  
“Defendo o turismo da natureza e na natureza como forma de turismo sustentável que pode trazer dinheiro para a Região, desde que se consiga gerir isso de forma a que a actividade não seja autofágica. Não seja a própria actividade a acabar com o ex-libris”, explica. E as medidas que têm sido tomadas por parte do Governo Regional, quer no limitar a presença de visitantes em determinados locais turísticos, como a Caldeira Velha ou o Ilhéu de Vila Franca, quer na gestão de espécies piscícolas, “já é um começo mas ainda é pouco”. E há zonas onde o esforço de pesca foi vedado, como o Banco Condor, e que tem trazido benefícios para as espécies. Maria Anunciação Ventura realça que os pescadores têm de perceber que quando isso acontece, “não é para lhes tirar o ganha-pão, quando na realidade é para dar-lhes futuro” e à actividade que desenvolvem. 
E há vários projectos que tornam isso possível e que contam com o trabalho dos biólogos para sustentar essas decisões. Mas continua a haver muita incerteza na área da investigação e “o emprego científico em Portugal já merecia ser mais bem tratado, em termos de maior estabilidade e para que as pessoas se sintam mais capazes de avançar com os projectos familiares”. A incerteza, principalmente para os biólogos que se dedicam à investigação, “é sufocante” e Maria Anunciação Ventura destaca que muitos não encontram lugar em Portugal e têm de escolher outros países para seguir a sua carreira de investigação. “Se já têm família a família vai com eles ou há separação. Em termos sociológicos é muito complicado e devia-se pensar nisso”, conclui.
        

 

Print
Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima