4 de setembro de 2020

O país precisa de estabilidade

Dificilmente se poderia especular que uma pandemia iria trocar as voltas aos atores políticos de forma tão inaudita como a que estamos a viver. Trump, depois de ter a reeleição garantida, corre agora o sério risco de perder para Biden, devido à sua pouco esclarecida gestão da doença e dos seus efeitos. Alexander Lukashenko, após décadas a simular eleições e prender opositores internos, encontra-se na mais delicada situação da sua governação, porque tratou a pandemia como qualquer outro adversário, partindo da certeza que iria claudicar perante a força do seu poder. Pode agora vir a ceder ao povo, já que nunca quis ceder à realidade. Na China, o governo central viu-se obrigado a demitir altos dirigentes partidários da região na qual apareceu a doença pela primeira vez, receando que as críticas pudessem subir na hierarquia até Pequim. A gestão da pandemia mudou por completo o rumo político de inúmeros governos, sejam eles democracias multipartidárias de estilo ocidental, sejam eles regimes autoritários ou ditaduras de partido único. 
Perante as dúvidas e incertezas que a pandemia a todos levanta, mesmo nas democracias mais consolidadas, a dificuldade de se manter a estabilidade social perante a adaptação a esta nova forma de viver, o aumento do desemprego, a necessidade de maiores estímulos à criação de emprego ou o crescimento da concessão de apoios sociais, têm levado os vários governos a rever os seus apoios com vista a fazerem face ao que aí vem. O que aí vem, depois de aprendermos a viver com máscaras, álcool-gel e viseiras, é um processo complexo, lento e quase estrutural de reanimação da economia do país. Haverá áreas nas quais a recuperação será mais demorada. Noutras, a reconversão profissional de empregados e empregadores será uma realidade. Noutros casos ainda, a adaptação forçada às carências que a pandemia evidenciou, deixará marcas para muitos anos. No nosso país, as diferenças não serão muitas. 
Se António Costa soubesse, em outubro de 2019, quais seriam os indicadores económicos e sociais em setembro de 2020, não duvido que teria chamado os bloquistas à governação, mesmo que tal opção posicionasse os comunistas na oposição em toda a legislatura. Socialistas e bloquistas contam 127 parlamentares, sendo necessários 116 para se constituir uma maioria. O primeiro-ministro, após a legislatura anterior ter decorrido sem grandes estorvos, esperava que esta fosse a sua continuação, com o apoio parlamentar dos antigos parceiros. Mas esta legislatura, com outros escrutínios a realizar, mas fundamentalmente por via desta nova realidade que é uma pandemia que veio para ficar, é um processo novo, assimétrico e de difícil administração. Costa teria aceitado fazer cedências em outubro de 2019 para a certeza de estabilidade política para todo o mandato, evitando assim a tibieza da negociação orçamento a orçamento. 
A obtenção desta estabilidade será a todo o custo? Para já, António Costa diz que não. Mas todos sabemos que o discurso político se adapta facilmente às novas circunstâncias. A aproximação aos bloquistas é exemplo disso. Tal como o é o aparente perene afastamento dos sociais-democratas. Um acordo de incidência parlamentar com uns ou outros estará nas coagitações de Costa. Numa situação-limite, aceitará que os bloquistas integrem o executivo. Um governo repartido com Rio é uma possibilidade. Ao contrário do que poderia acontecer quando Passos Coelho ofereceu ao atual primeiro-ministro o cargo de vice-primeiro-ministro, em 2020 e perante uma crise que apenas um governo forte ultrapassará, não existe o risco de Rio vir a colocar em perigo o espaço maioritário que os socialistas consolidaram. Niccolò Machiavelli escrevia em 1513 que «quem dá azo a que alguém se torne poderoso, arruína-se a si próprio». Não seria o caso. Rui Rio não terá tempo de arruinar outros quando se arruína a si próprio. 
 

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Categorias: Opinião

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