5 de setembro de 2020

Tecnologia, homem e mundo

“O que os engenheiros sabem” (1)

Neste mês em que se inicia mais um ano letivo, que espécies de conhecimento desafiam os estudantes e professores de engenharias? E quem diz essas tecnociências, diz gestão de empresas, medicina… até as demonstrações de teoremas a que os matemáticos se dedicam.
Nas últimas décadas, provavelmente a resposta mais influente a essa pergunta é a de Walter G. Vincenti (v.fotografia) na obra com o título que importei (em parte) para esta crónica*. Este engenheiro aeronáutico, historiador e filósofo classificou os referidos conhecimentos em três variantes distribuídas por dois tipos.
Uma dessas variantes é a descrição d e estados de coisas. Por exemplo, a carga suportada por rebites com um certo diâmetro. Os conhecimentos descritivos são avaliados conforme a correção (ou verdade) das proposições que os explicitam. Podem ser mais ou menos corretos, mas, em qualquer caso, essa correção depende da adequação deles aos estados de coisas que referem. Não depende dos objetivos, desejos etc. do sujeito de conhecimento – se um designer ceder ao desejo de poupar nos rebites das asas, é provável que o avião não “aterre” no sítio e da forma desejados.
Esses ajustamentos aos interesses do sujeito são feitos porém nos conhecimentos que prescrevem o modo como as coisas devem ser feitas para que se cumpram os objetivos. Por exemplo, o design de certos rebites tem variado entre construtores aeronáuticos segundo as respetivas considerações sobre aerodinâmica, custos etc. Prescrevem-se assim os procedimentos que devem ser implementados nessas empresas. Em conformidade, os conhecimentos desta variante são avaliados conforme os graus de sucesso que facultam no cumprimento dos objetivos propostos. Ou seja, não são verdadeiros ou falsos, mas sim mais ou menos úteis.
Tal como as descrições de estados de coisas, as regras práticas que prescrevem procedimentos são explícitas. Mas o design e a produção da tecnologia também comportam conhecimentos procedimentais não explícitos. Os quais não se transmitem pela linguagem, apenas se adquirem na experiência. Estes conhecimentos designam-se “tácitos”. Vincenti reconhece-os nos operários que executam as rebitagens, ou na redução dos custos desta função por educated guessing dos engenheiros de produção. Os conhecimentos tácitos são necessários ainda para certas operacionalizações técnicas, daí a requisição de um número mínimo de horas de voo aos aviadores, dos estágios aos professores etc. Como conhecimentos de tipo procedimental, são avaliáveis conforme as respetivas utilidades.
Em suma, todas essas atividades requerem conhecimentos tácitos, exclusivamente procedimentais; conhecimentos descritivos, exclusivamente de tipo explícito; e conhecimentos prescritivos, que satisfazem ambos os tipos.
Estou em crer que haverá em Portugal algumas escolas, em quaisquer níveis de ensino, que se comportem sob a prioridade da obtenção de esses conhecimentos pelo menos ao nível de exigência normal  nas sociedades alemã, britânica, norte-americana, japonesa… Aos estudantes e professores que tenham a sorte, e naturalmente os méritos necessários, para trabalhar em quaisquer dessas eventuais escolas desejo um grande ano letivo!

*Aos académicos mencionados, aqui fica a referência: W.G. Vincenti, What Engineers Know and How They Know It: Analytical Studies from Aeronautical History,Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1990.

Miguel Soares de Albergaria

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima