5 de setembro de 2020

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia


Se lermos o que escreveu Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Antero de Quental, Fialho de Almeida, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro e outros homens ilustres do Portugal oitocentista, vemos nos seus escritos retratada, no essencial, a mesma realidade coletiva que existe hoje.
Há destino, há fatalidade, não se escapa ao destino individual e coletivo.
A liberdade política e económica ajuda a suavizar uma mau destino, mas só a liberdade moral nos torna superiores ao nosso próprio destino.
Desde o tempo de Eça e de Antero o país, de facto, mudou muito por fora e pouco por dentro.
O país, depois da adesão à então denominada Comunidade Económica Europeia, aproximou-se do modelo de desenvolvimento económico das economias de mercado, e parece outro país na aparência.
Por dentro não está muito diferente do que era no tempo desses dois ilustres amigos dos tempos de estudantes em Coimbra e das Conferências do Casino em Lisboa.
Então vejamos o que diz Eça do país político de então.
E repare-se que Eça ou Antero não escreviam roídos pela inveja, como e hábito em Portugal.
Eça colaborava nas “Farpas” de Ramalho Ortigão, que rachavam qualquer cachaço de ministro ou político da altura, mas que também inviabilizavam “un limine” qualquer aspiraçãoa homem do poder”.
Antero recusou mesmo ser candidato a deputado por Alcântara, por não concordar com a ideologia professada pelo partido que o queria fazer deputado, pai da pátria. (ditosa pátria que alguns bons filhos tiveste).

À pergunta qual é a posição dos deputados?
Na aparência sentados, por dentro de cócoras.
Segundo Queirós, os homens da política activa não chegavam a nichos apetecíveis pela via da competência; a via era só uma, a dos amiguismos, das cunhas, dos contatos familiares; havia boys e muitos jobs para ocupar.
O Governo, pois, nomeia os seus deputados; estes homens são naturalmente e lógicamente escolhidos entre os amigos dos ministros. Por dois motivos: Primeiro, porque a amizade supõe identidade de interesses, confiança inteira; Segundo, porque sendo a posição de deputado ociosa  e rendosa é coerente que seja dada aos amigos íntimos, aqueles que vão ao enterro dos parentes”
Em certas coisas Eça generaliza e as genaralizações são sempre arriscadas, pois há, apesar de tudo, gente com carácter que dá o seu melhor em prol de certas causas.
O pai de Eça, que era Juiz de carreira, sabe-se que intercedeu pela manutenção do filho num posto diplomático, junto do então  primeiro-ministro Hintze Ribeiro, que lhe garantiu a mobilidade do filho num consulado que era do agrado do Eça (o senhor juiz Queirós, pai do Eça, foi juiz no processo crime por adultério movido contra Camilo Castelo Branco e Ana Placido, que levou Camilo à prisão, onde conheceu e ficou amigo do celebre Jose do Telhado, uma espécie de Robin dos Bosques à portuguesa, que roubava ricos para dar a pobres).
 O lugar de cônsul dava-lhe todo o tempo e a disponibilidade mental para escrever a meritória obra literária e jornalística que escreveu; aliás chegou a começar por ser advogado, mas logo terá visto que não se ia safar, pois o advogado não depende tanto do talento natural como o escritor; mas ganhou a sua primeira causa, salvo erro, no tribunal de Évora, defendendo um diretor do jornal local.
Mas a advocacia absorve completamente o tempo e a energia do causídico; os processos intrincados sufocam a criatividade literária ou filosófica e nunca se sabe o dia de amanhã; o dinheiro, o vil metal, aquele que põe pão na mesa do advogado e da família não está certo no fim do mês; além disso, o advogado não escolhe o cliente, o cliente é que escolhe o advogado.
O advogado pode ser um génio da ciência e da técnica jurídica, mas se não faz prova da razão do seu cliente, por falta dela ou por viciação dela, vê a causa perdida.
Depois os juizes decidem; bem e mal, como acontece com os árbitros de futebol, mas o constituinte não se queixa da má sentença do juiz. Queixa-se frequentemente da falta de habilidade do advogado para convencer o juiz de que a razão está do lado dele.
Por isso acho que Eça fez bem em ser diplomata em vez de advogado; viajou pelo mundo á conta do erário público, ficou longe da mentalidade provinciana portuguesa dominante, viu outros mundos, outros povos, outras gentes: O senão foi que andou sempre teso, sem dinheiro, pois tinha filhos e a esposa não trabalhava e tinha tendência para lhe esvaziar a algibeira antes do fim do mês; além disso estava sempre com dores de barriga e soltura, dizem (hoje a medicina sabe que é a doença de Krohn; na altura diziam tuberculose intestinal), que Calvet de Magalhães, na sua biografia de Eça, diz que se atribuía a sua doença crónica, às grandes quantidades de sardinha frita que tinha comido nas tascas quando estudante de Coimbra; seja ou não certo a verdade é que Antero também sofreu imenso do estômago, quiçá também devido às tais sardinhas que terá partilhado nas noites de boémia com Eça, na alta coimbrã.
Eça tinha dinheiro à justa e perto do fim precoce estava torturado sem dinheiro e sem saúde, tendo morrido fora da pátria, em Paris, tal como vivera quase toda a sua vida adulta.
Mas escolheu bem: antes diplomata em Paris do que advogado em Évora; sempre dá outra “panache”, um toque cosmopolita (cest   trés rafinée) destas terras pequenas onde um juiz ou um advogado é enterrado vivo depois de sair dos bancos da universidade.
O mal deles foram as sardinhas, mas ninguém é perfeito.
Nele calça como uma luva a frase da sua própria autoria “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”. Mas, claro, Eça era um génio num país de medíocres e de provincianos, as tais más línguas de província, sempre ávidas de um sopro de escândalo susceptível de amenizar o tédio das suas vidas estúpidas e dos seus cérebros pouco esclarecidos.
Vejam só que a medicina estava tão atrasada (ainda hoje a doença está sempre um passo à frente do remédio), que nunca os médicos souberam diagnosticar a doença que ele tinha e que o vitimou precocemente, o mesmo aconteceu com o seu amigo (perdão, irmão) Antero de Quental a quem aquele que era considerado naquele século XIX a maior luminária da medicina, o mestre Jean Charcot, lhe diagnosticou uma histeria, uma doença de mulher, nas palavras de Antero, errando completamente o diagnostico conforme hoje se sabe.
Mas Antero de Quental, introdutor do socialismo em Portugal, na linha do intelectual francês Proudhon, nunca se entendeu nem com a política activa nem com os políticos portugueses.
Seduzido pela França e pelas ideias de Proudhon, nela encontrou “uma elite inteligentíssima, cultíssima e depois o plano infinito da vulgaridade.”
Camilo Castelo Branco ficou em Portugal e suicidou-se, como Antero.
Tanto Eça como Antero nunca desempenharam um cargo parlamentar ou executivo; não foram nem deputados nem ministros, nenhum deles; todavia Teofilo Braga, também açoreano, como Antero, foi Presidente da República sendo inquestionavelmente menos talentoso do que Eça e do que Antero mas também era poeta e escritor com algum talento.
Dos Vencidos da Vida, creio que Guerra Junqueiro, o imortal poeta autor “Da velhice do Padre Eterno) foi  embaixador de Portugal na Suíça e secretario do Governo Civil na Ilha Terceira.
Os Vencidos da Vida foram muito criticados pela opinião ilustrada do seu tempo, pois  constituía “comunus opininio” que era afrontoso e mesmo acintoso, que sujeitos que eram doutores, alguns com fartas fazendas, se auto denominassem Vencidos da Vida
Eu pessoalmente acho a designação muito boa, com o senão de que no final não há vencedores nem vencidos, há apenas os que mereceram o dom da vida que lhes foi dado e os que não o mereceram.
A esta censura aparentemente incontestável, respondeu Eça de Queirós afirmando que “para alguém se considerar vencido da vida basta que a aparência exterior a que chegou não corresponda ao ideal intimo a que aspirava.
E com esta acabou com a polémica então gerada.
Oliveira Martins foi Ministro da Fazenda. Abolida a Monarquia e instaurada a República em Portugal em 5 de Outubro de 1910, 4 anos antes da Iª Guerra mundial, o país descambou politicamente e colocou-se a jeito para o aparecimento de uma ditadura.
O país entrou em estado de emergência política e Salazar foi o escolhido para o salvar da pandemia política que se instalara em Portugal com a 2ª República.
No Portugal de Antero ainda havia lugar para idealistas e mesmo assim Antero não conseguiu fazer vingar a Liga Patriótica do Norte, da qual foi eleito seu presidente, que consistia num movimento de regeneração, de purificação da alma nacional que havia batido no fundo.
De Vila do Conde ele escreve aos amigos dizendo-se que o país se tinha feito tal que agora era bom só para eremitas; mas para esses era terra fadada com as suas praias, os seus vastos horizontes campestres que convidam a um cismar profundo e consolador”
Por sua vez Eça de Queiros, com o seu monóculo, escrevia ao cunhado lá de Paris, dizendo que o país tinha atingido tal estado de decomposição que nenhum esforço o poderia purificar.
Embora se diga vulgarmente que Portugal é um pais de poetas choque (Jorge de Sena dizia que era um país de bananas governado por sacanas), eu acho que Portugal  é um país de políticos sem causas, de meia-dúzia de nefelibatas e da imensidão de cabotinos oportunistas. Um país que prefere viver à custa de outros.
Antero tinha demasiada inteligência e carácter tal como Eça e outros para se aguentar num cargo político do topo.
O país político não anda a par do país real.
O país continua pobre e liderado por uma elite ridícula.
Melhores tempos hão-de vir.
Descreio dos  que me falam 
de uma sociedade sã.
Isto é hoje o que foi ontem
E o que há-de ser amanhã.
A.Aleixo - poeta popular natural de Loulé

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Categorias: Opinião

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