5 de setembro de 2020

Cesto da Gávea

Medo e submissão

Henri Clouzot realizou em 1953 um filme que marcou a história do cinema, quando ainda estávamos na época do preto e branco. “Salaire de la peur”/Salário do medo, foi um fenómeno meio revolucionário feito com tanto talento e mestria que ganhou os 2 mais cobiçados prémios cinematográficos europeus, a Palma de Ouro de Cannes e o Urso de Berlim. Como cinéfilo de longa data, para além de ter visto o filme há 50 anos, deliciei-me com as críticas e análises da época nos “Cahiers du cinema”, uma revista francesa que, volta e meia, andava debaixo de olho da censura portuguesa. Nos Estados Unidos foi pior: o filme foi primeiramente proibido, por mostrar o lado maléfico da exploração de petróleo pelas companhias americanas na América Latina; mais tarde, passou nas telas americanas com cortes no que não lhes agradava. Recordando isto, comparando com os dias correntes da América de Trump, parece que há quem goste do regresso ao passado. 
Esse regresso, como não podia deixar de ser, assumiu novas formas, mais pérfidas e subtis nuns casos, mais violentas e descaradas noutros. Sob a capa das democracias de modelo ocidental, por desfiguradas que sejam, as inúmeras maneiras de manipulação dos processos democráticos vão ganhando corpo em vários países desenvolvidos. Dentro e fora da União Europeia -- a qual devia servir de exemplo da evolução democrática, mas apresenta dentro de portas Estados com tiques autoritários – o mundo está cheio de prósperos países onde a democracia corre sérios riscos. O malfadado SARS-Cov-2 trouxe ao de cima, com a sua torrente de fatalidades, muitas das fragilidades, para não dizer iniquidades, sobre as quais assenta o liberal-capitalismo do século XXI. A corrida às vacinas nesta fase crucial da pandemia Covid-19, colocando em competição umas 150 ou mais, tentando cada uma chegar à meta primeiro e conseguir o “jackpot”, é bem a amostra da irracionalidade e do desprezo pelos objetivos humanos existentes. Se os esforços fossem coordenados e financiados globalmente, com transparência e objetividade, com o mesmo critério comparativo de avaliação das vacinas em desenvolvimento, a segurança dos resultados seria outra – e o preço da vacina também muito mais baixo. Esta missão que compete às Nações Unidas através da OMS, que finalmente despertaram do letargo e acabam de anunciar a Aliança para as Vacinas, destinada à aquisição e distribuição de centenas de milhões de doses. A UNICEF lidera o programa de compra e acesso global Covax Facility envolvendo 172 países, dos quais 92 de baixos ou médios rendimentos e 80 de maior desenvolvimento. O medo afasta-se e a submissão dele decorrente só assim se elimina.
O medo é uma arma eficaz para entorpecer e docilizar os povos, nada havendo como uma pandemia destas para dar oportunidades únicas aos mais fortes. O anúncio da vacina russa, juntando o secretismo habitual à propaganda, levanta a questão dos efeitos colaterais, dos quais as alterações imunitárias são um risco sério. Há 40 anos que se conhece a “boleia” que certos anticorpos podem dar a novos invasores, fenómeno estudado pela Universidade do Hawai nos anos 70 para o dengue, conhecido como ADE-Antibody Dependent Enhancement ou aumento da anticorpo-dependência. O ADE permite aos anticorpos de um coronavírus facilitar a doença, donde o cuidado que se deve ter na fase III das vacinas, aquela onde se testam os humanos. Além deste possível efeito negativo, que pode agravar a doença em vez de a travar, outros existem, justificando os cuidados da investigação, previamente ao lançamento de uma vacina. Ora, com o medo que a pandemia incute, as pessoas anseiam por uma vacina, tornando-se vulneráveis a outras ameaças, incluindo remédios milagrosos, não devidamente testados. Isto no que respeita à saúde, porque os efeitos secundários da pandemia vão muito mais além. O aumento do desemprego, a falta de perspetivas futuras de vida, quando só se ouve falar “que o pior está para vir” (o que é provável) a instabilidade política mundial (EUA, Mediterrâneo Oriental, Bielorússia e o mais que se verá) exigiria concertação transatlântica e maior solidez duma União Europeia, ferida por um brexit estúpido que tende a acabar mal. Tudo sinais que apavoram e intimidam as massas populares, presas fáceis de oportunismos políticos. 
O pior é que o oportunismo político que a pandemia favorece, alastra como nódoa malsã, contagiando listas eleitorais e dirigentes partidários, um pouco como o coronavírus que desconhece fronteiras. Veja-se a campanha eleitoral nos Estados Unidos e o aproveitamento da violência racial, a irracionalidade na diversidade dos critérios de exclusão das quarentenas por parte da Escócia, Gales e Inglaterra relativamente a Portugal, ou ainda, a autêntica palhaçada criada pela festarola comunista do Avante. O pano de fundo comum é o medo, o diabólico controlador da submissão.
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Categorias: Opinião

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