Mónica Martins, Chefe de Estado-Maior do Comando da Zona Marítima dos Açores

“O esforço dos navios que vêm aos Açores é muito grande mas eles têm garantido todas as missões com uma taxa de eficácia exemplar”

Correio dos Açores - Em que consistem as suas novas funções?
Mónica Martins, Chefe do Estado-Maior do Comando da Zona Marítima dos Açores - Com o meu destacamento para o Comando da Zona Marítima dos Açores vou assumir três grandes cargos: sou a Chefe do Estado-Maior do Comando da Zona Marítima dos Açores, o que significa que assumirei a parte operacional do comando de zona, e desempenho funções como adjunta do Segundo Comandante.
Ou seja, serei responsável por todos os processos administrativos da unidade e de todas as unidades que são apoiadas pelo Comando de Zona Marítima dos Açores em termos administrativos, como o Centro de Comunicações dos Açores, e o Depósito POLNATO de Ponta Delgada.
Há ainda uma função que de momento não estou a exercer por uma questão de certificação, mas que hei-de exercer brevemente que é a de ser coordenadora das acções de busca e salvamento no mar.
Isto significa que no MRCC (Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Ponta Delgada),que tem como função encetar todas as acções de busca e salvamento que são desenvolvidas na SRR de Santa Maria, eu serei depois a coordenadora dessas acções.
Mas como este é um processo que requer uma certificação, uma formação específica e depois uma qualificação aqui no MRCC, ou seja, fazer algumas acções como observador e fazer testes para verificar se tenho os conhecimentos adequados para desempenhar a função, é algo que ainda vai demorar algum tempo. Só quando tiver essa certificação terminada é que irei exercer estas funções. Neste momento há outro oficial a exercê-las.

No entanto, está muito familiarizada com acções de busca e salvamento…
Estou familiarizada com a busca e salvamento em si, na perspectiva do navio. Na perspectiva da coordenação de um MRCC não, isso tenho que aprender. É algo muito mais complexo e que pela sua importância e complexidade requer este processo de certificação.

Objectivos e desafios para os próximos três anos?
O meu grande objectivo para já, uma vez que acabei de chegar, é continuar aquilo que tem vindo a ser feito até agora e que tem sido muito bem feito. Se possível, tenho a ambição de conseguir melhorar aquilo que encontrar e que considerar que deva ser melhorado ou que tenha conhecimento de que pode ser melhorado.
Não consigo especificar porque ainda estou a conhecer a unidade, estou com os restantes oficiais a conhecer as pessoas que aqui trabalham, os diferentes locais, a perceber como a unidade funciona e por isso é muito cedo para definir objectivos concretos.
Em termos de desafios, o maior será conseguir – depois de ter a minha certificação enquanto coordenadora de acções de busca e salvamento no mar – conseguir manter a estatística de vidas salvas a 100%.

A comandante é uma mulher de estreias: foi a primeira mulher a pilotar helicópteros na Marinha e foi a primeira comandante no NRP Sines. Como se sente agora ao ser a primeira mulher a exercer este cargo?
O facto de ser a primeira mulher a fazer algumas coisas é decorrente de ter pertencido ao primeiro curso de mulheres na Escola Naval. Há 26 anos que estou na Marinha e isto não é nada de novo, é o seguimento normal da vida.
Se pertencemos ao primeiro curso é normal também que sejamos as primeiras mulheres a exercer alguns cargos. Ser a primeira mulher aqui como Chefe de Estado-Maior do Comando da Zona Marítima dos Açores é igual a outro cargo qualquer, para mim não tem diferença nenhuma. Fui a primeira mulher, mas não fui a primeira pessoa, já muitos o têm feito antes de mim.

E como se sente ao estar de regresso aos Açores?
Muito bem. Eu gosto muito dos Açores, já conheço o arquipélago há 20 anos. A minha primeira comissão nos Açores foi na corveta João Roby em 1999. Depois fiz uma segunda em 2000 e a minha terceira comissão no Navio de patrulha oceânico Sines, em 2019. 
Acompanhei o evoluir, principalmente na ilha de São Miguel, em todos estes anos, e os Açores sempre foram um local que me fascinou pela sua beleza natural. Sou oriunda do interior do país, por isso tenho muita ligação com a natureza e vim para os Açores porque é um local que me agrada bastante.
Agrada-me principalmente o estilo de vida que se vive nos Açores, por ser um pouco mais calmo do que no continente, e tendo a possibilidade de vir com a minha família torna tudo mais fácil.

E a nível profissional considera os Açores mais exigentes?
Existe exigência em todos os cargos de Marinha. Nisto os Açores não são diferentes do resto, a exigência é sempre muita e é uma coisa com a qual convivo há muitos anos. A grande diferença é que no continente demorava quase uma hora de casa até ao trabalho e aqui demoro uma média de oito a dez minutos. E isso no dia-a-dia de uma família faz muita diferença.

No tempo em que conhece os Açores, considera que os desafios se têm vindo a alterar?
Creio que os desafios têm sido vencidos ao longo dos tempos. A forma como nós temos lidado com a busca e salvamento, e até mesmo a fiscalização marítima, é algo no qual a Marinha tem vindo a ganhar cada vez mais capacidades, tem vindo a aprimorar os seus conhecimentos e tem vindo a adquirir mais meios que possam auxiliar a tarefa.
A Marinha cada vez se prepara melhor para enfrentar os desafios. Os Açores, pela sua gigantesca área de busca e salvamento marítimo, que está sob a nossa responsabilidade, é um grande desafio.

A Marinha tem todos os meios necessários para cobrir esta “gigantesca área” de busca e salvamento?
Em relação aos meios, neste momento temos um navio atribuído à Zona Marítima dos Açores, todo o ano. Um Navio Patrulha Oceânico ou uma corveta, e na altura do Verão o dispositivo é reforçado nos Açores com o navio hidrográfico que vem fazer algumas missões no âmbito da hidrografia, mas que acaba também por estar disponível para o resto das missões.
Se é suficiente? Com a taxa de sucesso que temos tido na área da busca e salvamento eu diria que sim. Este ano estamos com 100% de taxa de eficácia no ano passado foram 99%, o que é uma taxa de eficácia muito boa. Temos a lamentar uma vida perdida no ano passado, mas olhando para outras áreas de busca e salvamento, olhando para outros países é muito bom.
Obviamente, sabendo nós que há uma intenção e uma necessidade da Marinha em ter mais navios – e havendo o projeto para ter dez navios de patrulha oceânicos – é claro que eles são necessários para conseguir dar continuidade a este esforço.
Actualmente o esforço que está a ser pedido aos navios que vêm aos Açores ou que estão no continente ou na Madeira a executar as mesmas tarefas é um esforço muito grande, e efectivamente são precisos mais meios para se conseguir diluir este esforço, logo que a Marinha seja dotada de mais unidades navais, conforme previsto no documento do Sistema de Forças, de forma a que estes navios consigam perdurar mais no tempo.
Os navios de patrulha oceânicos fazem missões não só nos Açores, como no continente e fazem ainda missões na costa africana, no Golfo da Guiné, e também participam por vezes em missões junto à costa do Canadá.

O que pode ser feito para que mais açorianos se interessem pela Marinha?
Existe um conjunto de iniciativas que são feitas, no entanto, em virtude dos recentes desenvolvimentos da Covid-19, não estejam em andamento. (…) Creio que aquilo que está a ser feito neste momento está a chegar não só aos jovens nos vários escalões, como também está a ser disponibilizada a informação e mostras ao público em geral.
É claro que continuaremos a fazer estas iniciativas e a fazer mais caso surjam mais ideias, porque a Marinha está sempre aberta para mostrar à comunidade civil o que é que faz e como faz, embora obviamente estejamos muito restringidos actualmente por causa da pandemia.

Que percepção tem a comunidade de uma forma geral, no seu entender, em relação ao ser marinheiro?
Relativamente aos Açores especificamente não sei responder porque estou cá há muito pouco tempo, mas na minha percepção, pelas pessoas com quem tenho convivido ao longo da minha vida na Marinha, percebo que a comunidade civil se tem afastado muito das Forças Armadas, provavelmente porque – felizmente – não participamos num conflito armado directamente há muitos anos.
Isso faz com que a comunidade civil se vá dissociando das Forças Armadas e não se aperceba da necessidade de ter umas Forças Armadas ou daquilo que elas desempenham, quer seja no âmbito militar puro e duro, quer seja no âmbito do apoio à comunidade civil que é o que fazemos mais, principalmente aqui nos Açores, quer seja na questão da fiscalização marítima, da busca e salvamento e do apoio em caso de uma catástrofe natural. São estas as áreas em que estamos mais focados aqui nos Açores.
(…) A Marinha é capaz de ser o ramo das Forças Armadas em que é mais difícil mostrar o que é feito, porque o que nós fazemos é feito no mar ou para o mar, por vezes longe de vista. O produto da nossa atividade está sobretudo no mar.

                                 

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