Fábio Sousa, tesoureiro da Filarmónica Voz do Progresso

“Atravessamos um ciclo em que é difícil às filarmónicas recrutarem e cativarem jovens para as suas escolas de música”

Com sede na Ribeira Grande e fundada a 24 de Novembro de 1874, “a constituição desta sociedade foi possível mediante um apoio de 330,820 reis insulanos, atribuído pelo senhor António Jacinto, para a compra dos instrumentos necessários”, como explica Fábio Sousa, tesoureiro da Voz do Progresso.
Depois de ter passado por bons anos durante o final do século XIX, destacando-se aí a actuação durante as comemorações do tricentenário de Camões e a conquista da proteção do Marquês da Praia e Monforte, a banda acabou por ser infiltrada por progressistas que levaram à mudança de orientação política e a ‘guerras internas’. 
No início do séc. XX, surgiu uma comissão que reactivou a ‘Banda dos Casacas’. Os executantes musicais foram buscar os instrumentos guardados, tendo-se deparado com bichanas ariscas. A alcunha ‘Música dos gatos’, que ainda hoje permanece, tem origem precisamente nesse episódio, como nos contou o actual Tesoureiro da Voz do Progresso. 
Após ter estado fechada por alguns anos, a Filarmónica foi reactivada em 2011 tendo sido recentemente elevado, pelo Presidente do Governo Regional dos Açores, a Pessoa Colectiva de Utilidade Pública.
Apesar da rivalidade mantida com a outra banda da Ribeira Grande, Fábio Sousa explica que a Voz do Progresso tem feito um esforço por manter relações positivas com as restantes filarmónicas.
“Acreditamos que há sempre lugar para a competição saudável, principalmente quando esta contribui para melhorar o nível musical das nossas filarmónicas. Somos da opinião que é muito importante a união entre filarmónicas para a resolução de problemas que nos são comuns”, afirma.
Aquando do encerramento devido à pandemia de Covid-19, a Filarmónica Voz do Progresso contava com 36 elementos sendo que alguns deles frequentam o Conservatório Regional de Ponta Delgada, facto que acontece e é suportado “no âmbito da função social da instituição, pela própria Filarmónica”, explica o tesoureiro da banda.
Sobre os tempos da pandemia, Fábio Sousa admite que “foram vividos com muita incerteza e tristeza” e que a paragem devido ao Covid-19 trará problemas às filarmónicas.
“Atravessamos um ciclo social no qual é difícil às filarmónicas recrutarem e cativarem jovens para as suas escolas de música (…) tememos a descapitalização humana que esta suspensão de actividades irá, com certeza, originar neste tipo de instituições. Cada dia que passa sem actividades lectivas aumenta a desmotivação dos jovens e incrementa a possibilidade de vários abandonarem as filarmónicas”, alerta.
Depois de terem entrado em contacto com a Autoridade Regional de Saúde, com intuito de perceberem quais as condicionantes para a retoma segura dos ensaios, Fábio Sousa revela que a actividade acontecerá dentro de pouco e explica em que moldes irá ocorrer.
“ Já temos o Plano de Contingência preparado e estamos a apontar o reinício dos ensaios para finais de setembro ou inícios de outubro. Conforme as orientações que recebemos, os ensaios terão de respeitar algumas regras, entre as quais o limite de menos de 20 elementos no interior da sede da Filarmónica; afastamento de, pelo menos, 2 metros entre elementos; e higienização das mãos”, explica.
O tesoureiro refere ainda que o regresso aos ensaios era muito desejado pelos músicos da Filarmónica Voz do Progresso.
“Vários dos nossos músicos ficaram tristes devido à suspensão dos ensaios. Felizmente, muitos perceberam que não podíamos arriscar um foco de contágio no seio da nossa comunidade. Recebemos frequentemente perguntas de quando a Filarmónica irá recomeçar os ensaios e, felizmente, já podemos dizer que temos uma data estimada para a sua reabertura”, afirma.
A terminar o mandato no final de 2020, Fábio Sousa explica quais os principais objectivos que a actual Direcção pretende alcançar.
“Até final do ano, iremos focar-nos em angariar mais fundos para a Filarmónica, reunir o máximo de músicos possível e assegurar que os ensaios decorrem em segurança e dentro da normalidade possível”.
Questionado sobre a actual situação financeira da Voz do Progresso, o seu tesoureiro afirma que, apesar de a situação não ser a desejável, a banda encontra-se estabilizada nessa vertente e que a “sobrevivência financeira está assegurada”. 
“Entramos para este cenário de pandemia com alguma segurança financeira. Os apoios da Câmara Municipal da Ribeira Grande e da Junta de Freguesia da Conceição também foram essenciais para garantir a estabilidade da nossa instituição. Ao longo da fase de suspensão da actividade da Filarmónica tentamos procurar formas alternativas de receitas mas, excluindo os apoios que já referi, as oportunidades são escassas, infelizmente”, afirma.
Apesar de, neste momento, as finanças não serem motivo de grande preocupação para a Voz do Progresso, Fábio Sousa vê na falta de interesse dos mais jovens, um foco de maior ‘instabilidade’ e de incerteza face ao futuro das bandas filarmónicas.
“Independentemente dos estratos sociais, a sociedade tornou-se mais individualista. O virtual e o digital prevalecem sobre o físico, especialmente no que toca às formas de socialização e de consumo cultural. Os jovens também têm maior escolha nas formas de entretenimento e um vasto acesso a novas formas de cultura. Infelizmente, estes novos paradigmas sociais colocam em causa a relevância das Filarmónicas e restantes instituições fortemente alicerçadas nos valores do colectivismo, do voluntariado, da partilha identitária e da cultura tradicional”, destaca.
Para Fábio Sousa, e apesar das dificuldades que enfrentam, “as filarmónicas são, ainda, uma escola de vida e têm, um papel relevante na sociedade e cultura dos Açores. Somos muitas vezes esquecidos”, lamenta.   

 Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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