Francisco Agatão abre o jogo e confirma que existiram jogadores a passar por dificuldades no Praiense

“Estivemos mês e meio a comer uma única refeição”

Está encerrado, para si, o “assunto” Praiense, ou há ainda “feridas abertas”?
Há «feridas abertas», que se prendem, sobretudo, com a forma como fomos tratados, particularmente durante o período da Covid-19. Durante a época, fomos postos à prova a todos os níveis, quer do ponto de vista financeiro, quer ao nível do tratamento que nos foi dispensado. E estou a falar da administração e de alguma parte da estrutura. Fez com que tivéssemos de congregar forças no sentido de evitarmos que houvesse os mesmos reflexos em termos desportivos. Como é evidente, valeram a fortaleza, o carácter e a dignidade do grupo que nós formámos - a equipa técnica, os jogadores, a equipa médica, a rouparia e a cozinheira. O resto... foi uma casa a arder...

Faltou falar verdade ao grupo de trabalho?
Não lhe posso dizer. A nós chegavam muitas conversas, muitas delas cruzadas. A única pessoa que tinha acesso aos administradores que não residiam cá era o diretor desportivo. Não havia qualquer tipo de conversação entre o ex-presidente e os outros dois administradores espanhóis. Tudo o que nos chegava era através do diretor desportivo e dado que a relação deste com o ex-presidente também não era a melhor, lógico que havia aqui muitas coisas que nos iam dizendo que acabavam por não se confirmar em termos de verdade. Começámos a andar sempre desconfiados uns dos outros. Quando isto acontece, as coisas tendem a não resultar. Ainda assim, dentro do possível, conseguimos que a equipa rendesse a cada Domingo, dando o melhor de si na defesa do Praiense.

A situação, na época passada, esteve à beira de desmoronar?
Se não acontecesse esta pandemia e se a administração não cumprisse com o que estava prometido, claramente ia desmoronar. Era insuportável a situação. Estávamos a falar de Março, com alguns salários em atraso e ficava complicado para qualquer equipa técnica resolver, até, os problemas psicológicos que afectavam o grupo.

Problemas que se colocaram em vários momentos ao longo da época. Confirma que algumas viagens para jogos no continente estiveram em risco?
“Eu não gostava de abordar muito esse tema publicamente, até pelo respeito que tenho pelo Praiense. Quando falo do Praiense, falo das pessoas, pois o clube sempre nos tratou muito bem. Fui sempre muito acarinhado. Agora, é evidente que há pessoas que não me merecem muito respeito.

Pode especificar?
Não vou nomear, mas está implícito no que já referi. Se a administração não se entendia, se o diretor desportivo era o elo de ligação entre nós e os administradores que estavam ausentes da ilha, está implícito quem são as pessoas e quem são os responsáveis. Foi uma tarefa árdua, mas conseguimos levar o barco a bom porto. Quando o campeonato foi forçado a terminar, estávamos com uma vantagem pontual confortável para o segundo classificado. Do ponto de vista desportivo, cumprimos com o que foi prometido.

Pensou em abandonar esse barco?
Se tivesse a possibilidade de ter trabalho logo após o jogo com o Casa Pia - onde, manifestamente, não tivemos a sorte de poder subir - não teria arrancado esta época. No início do play-off, a administração resolveu renovar comigo. Após o jogo com o Casa Pia, o administrador principal, ou seja, o homem-forte do dinheiro, já queria que eu fosse embora.

Conhecendo todos esses problemas por dentro, como explica essa má relação entre os administradores? A verdade é que a SAD foi apontada como o único caminho para que o Praiense pudesse pensar na Segunda Liga, mas essa má relação terá começado quase desde o primeiro dia...
Também não lhe sei responder... Muito sinceramente, também me causou muita confusão. Nem tão-pouco diálogo conseguia existir. Como disse, se tivesse outra possibilidade, não teria sido treinador do Praiense a época passada. Aliás, a partir dessa altura entendi que a minha caminhada no Praiense estava concluída. Teria que dar o meu melhor e parece-me que conseguimos, mas a minha decisão estava tomada em relação ao futuro. De resto, em boa verdade, nunca soube os motivos que levaram a esta descoordenação e falta de ligação entre os membros da administração.

Jogadores em dificuldades

Foi um dos assuntos, talvez, mais discutidos na praça pública, mas negados pelo ex-presidente em declarações à comunicação social: jogadores em dificuldades pessoais pelos ordenados em atraso. Houve, de facto, jogadores a passarem por privações?
Houve. Claramente, por mais que as pessoas o queiram negar. Existiram momentos em que os jogadores passaram por dificuldades. Não posso deixar de agradecer de forma bastante veemente à Câmara Municipal da Praia da Vitória, ao Lar D. Pedro V, à cidadã Raquel Borges e ao Fábio Valadão e ao José Fernando Borges, não na qualidade de dirigentes do Fontinhas, mas sobretudo enquanto cidadãos e açorianos. Agradecer também a enorme onda de solidariedade que se criou, de gente anónima e que de, uma forma natural, sempre manifestou vontade de nos ajudar.

Mister... Quem o ouve tende a imaginar uma situação típica de quem vive de esmola...
Foi um pouco por aí... Vamos ver: ainda antes das decisões quanto ao play-off, equipa técnica e cinco jogadores estiveram mês e meio a comer uma única refeição no Lar D. Pedro V. Em casa de jogadores que por cá ficaram, alguns com família e com esposas grávidas, as dificuldades foram muitas. Quando não se recebe a tempo e horas, quando já há atrasos, é normal que, quem vive disto, sinta dificuldades. Ficámos na ilha, por motivos óbvios, e não fomos para junto das nossas famílias. É evidente que as dificuldades aumentaram. Nessa altura, contámos com essa onda de solidariedade, que nunca poderei agradecer o suficiente. Aliás, muito sinceramente, poucos foram aqueles que se dizem muito praienses que apareceram a bater à porta de casa. Lamento dizê-lo. A memória das pessoas é muito curta e convivem muito mal com o sucesso dos outros. O futuro encarregar-se-á de colocar as coisas no lugar. Mesmo depois de ter comunicado ao ex-presidente que não iria continuar, mesmo depois disso, tivemos - e eu particularmente - uma acção que se revelou muito profícua para aquilo que foi o futuro do Praiense. Sobre isso, se quiserem falar, que falem... Não serei juiz em causa própria.

Fala na constituição da nova SAD?
Falo que tive um papel extremamente importante não só no facto do clube ter continuado na luta, pois só agora saiu a decisão do TAD, como também no futuro que o clube está neste momento a ter. Mas não me queria alongar. Sinceramente, fui amigo... Fiz o que a minha consciência me mandou fazer.

DI/CA

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Autor: CA

Categorias: Desporto

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