Padre Marco Luciano é o pároco da Matriz da Horta

“Vivemos numa aldeia global em que a internet e as redes sociais aproximaram as pessoas para o bem e para o mal”

Fale-nos um pouco da sua vida no Faial. Há quanto tempo está na ilha e quais têm sido as suas prioridades pastorais? 
Concluídos os estudos próprios do Seminário, foi ordenado sacerdote em 2002 pelo Sr. D. António de Sousa Braga e a minha primeira colocação foi na Ilha do Faial, onde estou há 18 anos. Actualmente, sou pároco da Matriz do Santíssimo Salvador da Horta, Paróquia de Nossa Senhora da Luz, nos Flamengos, e Nossa Senhora do Socorro, Freguesia do Salão. 
A minha presença no Faial está inevitavelmente ligada ao processo de reconstrução das igrejas afectadas pelo sismo de 1998. A primeira obra de reconstrução a que estive ligado foi a recuperação da Igreja Paroquial de Santa Catarina, em Castelo Branco. Depois de concluída e inaugurada em 2005, fui nomeado pároco da Conceição, Praia do Almoxarife e Pedro Miguel. Em Pedro Miguel iniciei o processo de implantação e o projecto da nova igreja paroquial de Nossa Senhora da Ajuda. Desde 2008 estou ligado ao processo de reabilitação da igreja de Nossa Senhora do Carmo e em 2011 fui nomeado pároco dos Flamengos, onde acompanhei a obra de construção da nova igreja paroquial, inaugurada em 2016. A recuperação da Igreja do Carmo, fechada desde 1996, foi sem dúvida alguma, o projecto mais difícil de empreender. Este era um processo que parecia estar sem um fim à vista. A obra tinha sido abandonada por derrapagem financeira da responsabilidade do dono da obra e parecia que não havia forma de desencadear novamente o processo há muito interrompido. A pouco, e pouco fomos mobilizando a população e com a prestimosa cooperação do Governo dos Açores, das autarquias locais e alguns particulares, foi possível reabrir a Igreja do Carmo em Julho de 2018. Muito brevemente, esta igreja será classificada como monumento de interesse público. 
Numa época de grande abandono da prática dominical, a minha grande preocupação e prioridade pastoral tem sido fomentar a unidade e a comunhão na comunidade cristã. Quer seja através de um maior intercâmbio entre os movimentos eclesiais, quer seja também na realização de iniciativas culturais com vista a captarmos os que estão mais afastados. 
Para tal, tem sido necessário trabalhar para destruir as barreiras e favorecer o diálogo, o respeito e a convivência fraterna entre todos aqueles que constituem a paróquia. Confesso que não tem sido fácil. Outra prioridade pastoral tem sido a renovação dos membros dos movimentos e grupos paroquiais. O que vai ser das nossas comunidades cristãs daqui a dez ou vinte anos? Se não apostarmos a sério numa renovação das comunidades cristãs, vamos ter sérias dificuldades num futuro não muito longínquo.   
Para além das paróquias, assumi em 2012 o Serviço Diocesano da Liturgia e neste sector, para além das formações realizadas em todas as ilhas dos Açores, à excepção das ilhas de Santa Maria e Corvo, destaco a «Peregrinação Diocesana dos Acólitos», que tem movimentado centenas de jovens anualmente em algumas ilhas da nossa Diocese. 
Congregar todas estas frentes de trabalho nem sempre foi fácil, mas tem-me valido a colaboração dos excelentes leigos que tenho nas minhas paróquias. 

Para além da Matriz da Horta ainda tem outras paróquias. Como é a diferença entre paroquiar numa cidade cosmopolita e de grande população flutuante como a Horta e paroquiar no meio rural da ilha do Faial?
A Igreja do nosso tempo enfrenta imensos desafios e é preciso ter em conta que os problemas que se vivem nas nossas cidades, são de alguma forma os mesmos problemas que se vivem nas nossas freguesias. Vivemos numa aldeia global em que a Internet e as redes sociais aproximaram as pessoas para o bem e para o mal. A pastoral também deve ser vista a partir desta chave de leitura. Embora existam diferenças e maneiras próprias de viver a fé num meio e noutro, os desafios que nos são colocados hodiernamente são muito semelhantes.
Mais importante do que estar a especificar as diferenças na forma de fazer pastoral, penso que será mais útil colocarmos a tónica na forma como nós padres estamos preparados ou não para lidar com estas diferenças. À medida que os anos foram passando, fui-me apercebendo desta realidade. Nem sempre foi fácil entender e aceitar estas diferenças. Mas é necessário que o pároco ame as suas comunidades com aquilo que elas têm para dar e as estimule a fazerem sempre mais e melhor. Não existem comunidades perfeitas! Na mesma ilha já saí e entrei em nove paróquias das treze que compõe a Ouvidoria da Horta. Não guardo ressentimentos de nenhuma, não tenho nenhuma como preferida e tenho por regra de ouro não me meter nos assuntos onde já fui pároco, pois não há coisa pior do que não sabermos sair das comunidades e estarmos sempre a interferir no trabalho dos colegas. 

Foi nomeado há pouco tempo Director do Museu de Arte Sacra que agora ressuscita e que vai mudar-se para o renovado espaço da Igreja do Carmo. O que pretende com aquele espaço e que lugar terá no turismo do Faial?
No passado mês de Julho fui nomeado pelo sr. João Lavrador Director do Museu de Arte Sacra da Horta. 
Este Museu irá juntar peças da Diocese de Angra, Ordem Terceira do Carmo, Ordem Terceira de São Francisco e Matriz do Santíssimo Salvador da Horta. 
O Museu ficará sedeado na Igreja do Carmo, que tem estado a ser restaurado pela Ordem Terceira do Carmo e com o apoio de entidades públicas nomeadamente da autarquia e Governo Regional dos Açores.
Será nossa primeira intenção elaborar os estatutos do Museu e depois fazer o ponto de situação do inventário e respectiva avaliação das peças que pertencem ao Museu de Arte Sacra. Para tal vamos contar com a colaboração voluntária de jovens técnicos e licenciados em Conservação e Restauro, História da Arte, Património Cultural, Informática, etc… 
Um Museu de Arte Sacra, para além de promover a cultura sacra, é sempre uma expressão identitária de um povo, por isso queremos que este não seja apenas um depósito de peças sacras, mas que procure, através da realização de um roteiro de conventos e igrejas das ilhas que compõe o Triângulo, dar a conhecer a história das nossas ilhas em que a fé caminhou muitas vezes de mãos dadas com a cultura popular que nos define e caracteriza. 
O novo espaço museológico irá distribuir-se por três salas da Igreja do Carmo. Duas salas serão de exposições permanentes e uma sala com exposições temporárias. 
Já tive a oportunidade de apresentar pessoalmente ao Sr. Presidente do Governo dos Açores este projecto e tenho a certeza que o Governo Regional não deixará de apoiar o Museu de Arte Sacra da Horta como uma mais-valia para o turismo na Ilha do Faial.
Num tempo em que se fala tanto em Turismo Religioso será um desafio para todos nós (Governo Regional, Diocese de Angra, Câmara Municipal, Ordem Terceira do Carmo e outros possíveis parceiros), potencializarmos todo este património, que não é só material, mas essencialmente memória daquilo que os nossos antepassados nos legaram de mais precioso: a fé, os valores, a cultura, a nossa identidade.

Para além de tudo isso, é um padre-comunicador. Durante o longo período de confinamento esteve sempre presente online nas suas paróquias, com Eucaristia, meditação do terço e mensagens de esperança. E agora mantém diariamente na Rádio Antena 9 uma meditação curta, diária que é seguida por muita gente. Que importância acha que tem esta nova forma de estar junto das pessoas? 
Com a pandemia reforcei a ideia que já tinha que o padre tem de ser um animador da fé da comunidade cristã. Não basta a celebração dos Sacramentos, pois é necessário a palavra e a presença do pastor junto das pessoas. Perder a ligação ao povo que me está confiado seria sentir-me «menos padre». O Pastor deve estar ao lado do rebanho, particularmente nos momentos de dor e tribulação. Daí, que desde a primeira hora, tenha optado pela transmissão das missas online. Apesar das críticas que existiram a este respeito dentro e fora da Igreja, nunca deixei de o fazer, pois penso que naquela circunstância o que fiz foi essencial para continuar a viver intensamente o meu ministério. Foram os doentes, os emigrantes, os mais afastados da Igreja que me incentivaram a realizar este serviço. Recebi e continuo a receber imensas mensagens para não deixar de ter uma presença nas redes sociais, continuando esta missão de rezar com aqueles que estão mais afastados e os que estão sozinhos em casa, nos lares de idosos e nos hospitais. Actualmente, faço uma oração-meditação diária, transmitida pela Radio Antena 9, no programa «Bom dia Café», partilhando-a também nas redes sociais, no meu perfil pessoal e na página «Padre Marco Luciano».

Grande paixão a sua pela música. Fale-nos dela, do seu coro e também do papel que a arte musical pode ter na educação e na Fé.
A música sempre teve um papel importantíssimo na minha vida. Mas, foi no Seminário de Angra e por influência do cónego Piques Garcia, que a música sacra passou a ocupar um espaço muito especial. Enquanto estive no Seminário de Angra, estive sempre ligado à música, quer aprofundando o estudo do órgão e piano, quer nos grupos corais paroquiais. Quando vim para o Faial tive a oportunidade de fundar o Coral de Santa Catarina, um coro a quatro vozes mistas, que se constituiu em Associação Cultural em 2004 e tem a sua sede social na Freguesia de Castelo Branco. Considero, que a música e em particular o canto litúrgico pode ter um papel importantíssimo na educação cristã, pois quando falamos de música litúrgica, esta é uma questão muito mais profunda que uma mera expressão artística ou cultural. Quando falamos de «canto», estamos a fazer referência concreta à pessoa e quando e quando o denominamos de «litúrgico» estamos a fazer referência explícita à caminhada da fé, à vida da fé de cada pessoa, ao encontro pessoal e comunitário que nós fazemos com Deus. Este é um tema bastante desenvolvido nos meus dois livros sobre o Canto Litúrgico, publicados em 2011 e 2016.

Como viveu os tempos de confinamento devido à pandemia da Covid-19?
O tempo da Pandemia foi um tempo essencialmente de revisão de vida. Para além de uma intensa actividade diária, pois não deixei de celebrar a Eucaristia, preparar as homilias e outros trabalhos que faço habitualmente, este tempo serviu para recolocar coisas verdadeiramente importantes na ordem do dia. A experiência de oração mais intensa é aquilo que guardo como experiência mais positiva. Tudo isto conjugado com os trabalhos domésticos, como cozinhar, limpar a casa, lavar e passar roupa, foi uma oportunidade de valorizar o trabalho que outras pessoas tiveram para comigo ao longo dos anos. O tempo de confinamento fez-me redescobrir a necessidade de rezar e estudar mais... o activismo, por vezes, toma conta de nós e não sabemos valorizar o que é realmente importante nem estabelecer prioridades. Como nos diz o Papa Francisco, esta pandemia veio por a descoberto e identificar muitas doenças que precisamos curar. 

Sentiu a população preocupada? O que lhe transmitia?
Sim. Senti que a população estava muito preocupada, de um modo especial os idosos e as pessoas que pertencem ao chamado grupo de risco. Comigo partilharam o medo que sentiam e, uma grande apreensão quanto ao futuro. A todos eles procurava incutir confiança e esperança em Deus. 

Que mensagem gostaria de deixar aos leitores, destes tempos que são indubitavelmente diferentes, pelas razões que se conhecem?
Gostaria primeiramente de apelar à esperança e a não nos deixarmos desanimar pelas dificuldades que vamos enfrentando neste tempo difícil. É tempo de darmos valor ao dom da vida e protegê-lo, a todo o custo. Conjuntamente com o dom da vida, é tempo de valorizarmos a família, a necessidade de termos bons cuidados de saúde, a obrigação de cuidarmos melhor os mais velhos e vulneráveis. 

Passagem ou versículo da Bíblia que mais admira?
Toda a Palavra de Deus é importante para nós, mas não posso deixar de referir que a passagem que mais me toca em toda a Escritura é a frase que escolhi como lema da minha ordenação sacerdotal: “Tudo posso Naquele que me conforta” (Filipenses. 4,13)! É uma passagem bíblica que ainda hoje a tenho como princípio basilar. 

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