6 de setembro de 2020

Crónica da Madeira

Ruben da Silveira: O açoriano que desenhou o Pico nos olhos

 O seu pacto secreto era
quaisquer que fossem as 
distâncias no tempo e no espaço
jamais se separaria da 
Terra-mãe: Faial
Era a saudade que, na distância do espaço, lhe alimentava a alma da sua açorianidade. Nada da terra se perdera nele, nem as vozes amigas, nem a poética das coisas, das paisagens estendidas no verde matizado emoldurado pelos novelos, apesar de se ter fixado em Lisboa há sessenta anos. Trazia sempre nos olhos o retrato do majestoso Pico, que desde criança com ele se familiarizou, contemplando-o do seu Faial. Ali depositou muitas das suas confidências, segredos e sonhos; ali descobriu que a sua vida de professor primário deveria ir mais além por isso deixou a terra-mãe para se matricular na Faculdade de Direito em Lisboa. O Pico que ele desenhara nos seus olhos, desafiando o céu dos Açores, proporcionava-lhe o sossego e paradoxalmente o desassossego. Era o desafio que o fazia refletir e tomar decisões. Ruben da Silveira, o amigo especial, sempre bem-disposto, morreu há pouco, vitimado pelo maldito Covid-19. Morreu deixando um grande vazio nos familiares e amigos. 
Muito jovem deixa o Faial, depois de ter cursado a escola do Magistério Primário. O seu sonho era ir mais além, cursar direito. Frequentou os primeiros anos do curso. Atraído depois pelas viagens concorreu para comissário de bordo da TAP. Aí formou-se em engenharia, passando a Técnico de voo onde permaneceu até se reformar. Falar deste açoriano não é fácil. As suas inúmeras qualidades humanas e intelectuais atiram-no para um universo multifacetado que lhe permitiu ganhar interesse por diferentes conhecimentos, aprofundando-os e discutindo-os com autoridade. O cinema e o teatro
eram as áreas preferenciais. Não falhava nenhuma estreia. Quando os grandes amigos, Victor e Zé Reis queriam alguma informação sobre qualquer filme, recorriam aos seus conhecimentos.
Amigo do seu amigo, cultivava facilmente amizades. Conquistando-as, mantendo-as religiosamente. A sua forte ligação à família era outra das suas características, sobretudo à sua irmã Marília, residente no Faia, ao seu falecido irmão John, à sua cunhada Maria e às sobrinhas Isabel e Cecília Pardal, ambas médicas, que lhe deram todo o apoio no final da sua vida. Quando o confinamento estava a terminar, foi ao Algarve e em casa das amigas Fátima e Milú participou num jantar, o último, para celebrar a amizade que ele considerou como ponto mais alto da sua ida a Lagos.
Com o seu amigo de sempre, Ernesto (Né) teve uma ligação de grande cumplicidade. Os dois costumavam receber na casa de Cascais, decorada com bom gosto e conforto, os amigos, proporcionando-lhes momentos inesquecíveis e calorosos convívios. Naquele ambiente de amizade tiveram o grande apoio de duas amigas excecionais, Celeste e Gena, que nos últimos tempos foram de uma dedicação total. 
O seu gosto pelas viagens levou-o aos diferentes continentes. Conheceu os países nas suas vertentes sociais e culturais. Interessava-se por tudo que as terras tinham para lhe dar e travou amizades no mundo inteiro. O Ruben prolongava a vida na alegria dos dias. Coloria-os aproveitando todos os momentos. Viveu-a intensamente. Festejava-a com a noção do que ela significava como uma dádiva muito especial. Uma caminhada entre encontros e desencontros, mas sempre coroada de muitos benefícios.
Consciente da importância do ambiente organizou, com os moradores da zona onde habitava, um grupo de trabalho para cuidar dos jardins que circundavam algumas residências em Cascais.
Há anos juntou-se a um grupo de madeirenses que anualmente viajam pelo mundo. Com este grupo rumou às Ilhas Galápagos. Uma viagem inesquecível tendo desde logo feito amizades que se enraizaram no tempo.
Todos os anos regressava à terra-mãe, ao Faial, para rever amigos e familiares e marcar a sua presença no baile do Clube “Amor da Pátria”. No Faial seguia os passos da sua adolescência. reencontrava os lugares que o marcaram e ajudaram a construir a sua personalidade de ilhéu com sonhos maiores do que a ilha e da qual nunca se separou. Às vezes sentia-se como um naufrago num mar de saudades…
Morreu um grande açoriano, um homem de bem. Este maldito vírus, que tantas vidas tem ceifado tão cruelmente, roubou-nos agora um amigo fantástico que os amigos tanto estimavam. Roubou-o sem que dele pudessem sequer se despedir; sem que pudessem lhe dizer o quanto o admiravam e o consideravam.
Era um grande cidadão respeitado e respeitador. Um amigo que faz muita falta, mas que ficará na memória dos que tanto lhe queriam.
Um brinde à sua vida!

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Categorias: Opinião

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