6 de setembro de 2020

A Máfia no século XXI

1- Uma reportagem televisiva passada há poucos dias apresentava, num trabalho muito bem conseguido, a rendição do Japão às forças americanas no termo da II Guerra Mundial.
2- A reportagem era ilustrada com imagens chocantes, mostrando a destruição de cidades e aldeias onde as pessoas se arrastavam entre escombros, como zumbis e sem destino. 
3-  A população japonesa, despojada dos seus haveres, sem trabalho e sem tecto para se abrigar, recorria ao mercado negro para sobreviver, que era dominado pela Máfia. 
4- A especulação dos preços era tal, que transformou o mercado negro num gigantesco potentado económico, criando novos e poderosos conglomerados empresariais no Japão, que ainda subsistem e que foram acarinhados pelos americanos, com quem depois criaram e expandiram novos negócios nos EUA.
5- Tudo isso aconteceu há 75 anos, e ao tempo, tal como hoje, os interesses económicos cruzavam-se entre países e continentes, fazendo os negócios florescer e criando, a partir deles, grandes empórios, enquanto o povo gemia.
6- Numa cadeira de economia económica havia um professor que recorria com regularidade a Heraclito, que dizia que “a mesma água nunca passa duas vezes por baixo da mesma ponte”, mas em contraponto os crentes do “devir científico defendem e acreditam que a ordem dos factores aplicada às situações é arbitrária quanto a prever a certeza científica do futuro”.
7- Respeitando tanto o pensamento de Heraclito como o dos crentes do devir, atrevemo-nos a transpor para o século XXI o que há 75 anos se passou no Japão e nos Estados Unidos da América, com o sofrimento humano e a pobreza que tornou as pessoas presa fácil da expansão da máfia e das fortunas que ela gerou. 
8- Porém, agora temos uma diferença considerável, que é a inclusão da tecnologia como instrumento imprescindível nas relações sociais, políticas, económicas e culturais, que tanto serve para facilitar as relações entre pessoas e negócios, como serve para causar danos assustadores. 
9- Com o manancial tecnológico que temos ao dispor, alterando nosso estilo de vida, a nossa mente, o nosso próprio corpo, temos conscientemente de questionar quais são os limites éticos do desenvolvimento tecnológico. E como ficam as nossas relações interpessoais e políticas, que cada vez mais sofrem interferências de todo o manancial tecnológico que está disponível e de fácil acesso para uso e abuso?
10-  O uso e o abuso das tecnologias está no banco dos réus, a ser julgado desde o dia 4 de Setembro, sendo figura principal o hacker  Rui Pinto, que acedeu a contas privadas de pessoas e instituições, cometendo crimes que a lei consagra e pelos quais agora responde.
11- Há quem veja no hacker um herói e outros um criminoso. Não há dúvida que através do crime de violação e acesso indevido a documentos informáticos foi possível descobrir factos que indiciam crimes económicos graves. Mas a obtenção de tais documentos é fraudulenta e viola a privacidade das entidades denunciadas.
12- O processo em curso levanta várias questões de direito e de cidadania que exigem dos legisladores e políticos uma reflexão profunda antes das alterações e aperfeiçoamentos que a lei exigir, porque está em causa também a investigação e a forma como ela começa e acaba. Sobre esta matéria há muito a dizer, por que não se pode, mediante denúncias anónimas, e sabe-se lá com que intuitos, partir para uma investigação e dar como pressupostos válidos o que é escrito, e acusar à maneira inquisitorial.
13- É de estranhar que perante tantos negócios duvidosos feitos nas últimas duas décadas em Portugal, sem se conhecer a origem dos meios, em vez de se investigar no tempo certo os contornos e a origem dos recursos que a isso permitiu, o que fizeram altos dignitários do poder, foi agradecer e homenagear os “supostos benfeitores”. 
14- Afinal, a Máfia continua como há 75 anos, agora disfarçada e usando sabiamente as tecnologias através dos hackers de serviço. 
15- No meio de toda esta amálgama, a última coisa que se espera num Estado de direito é que a justiça passe a servir-se dos hackers para fazerem a investigação que só a ela compete fazer. Haja juízo!
 

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Categorias: Editorial

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