8 de setembro de 2020

30%

Estatísticas oficiais apontam que nos Açores existem à volta de 30% de cidadãos pobres ou em risco de pobreza. São gente e não apenas um número.
Falta de ética? Sim. Mas não só. É política, ou ausência dela, que condiciona a economia e o seu desenvolvimento sustentado. Devia para além de preocupar, ocupar. Negar ou menorizar não é caminho. 
Em finais do século XIX quando a revolução 1.0, a par de todos os progressos, começava a deixar “despojos humanos” pelo caminho, o Papa Leão XIII com a encíclica “Rerum Novarum”  escreve sobre a condição dos operários e dos pobres e lança as bases da Doutrina Social da Igreja, desenvolvida mais tarde pelo Padre Joseph Cardijn, fundador do movimento mundial de jovens operários.
Tal como o Papa Leão XIII em 1899, o Papa Francisco em 2020, em plena revolução 5.0, deixa palavras de incrível actualidade. Volta a deparar-se com dois mundos que caminham de costas voltadas. “Passam séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não nos ensinasse nada”.
A pandemia veio agravar o drama global por que passam milhões de seres humanos por todo o mundo, que viram as suas condições de vida, que se já eram graves, se tornarem catastróficas.
“Nos Açores apenas existem focos de pobreza”, foi a expressão, muita dita e escrita nestes tempos mais recentes, quando o conhecimento de alguns números colocaram os Açores a liderar os índices do número de pobres ou em risco de pobreza. Sabe-se que a intenção, quando foi afirmada, era não generalizar a pobreza a todas as ilhas.
Manda o bom senso que não se possa acompanhar os que só conseguem ver no rendimento social de inserção (RSI) um mal. Concorde-se com a medida. Contudo, existem casos de beneficiários que não “cumprem as regras”. Como acontece com outros apoios e subsídios de avultados montantes. Mas os exemplos positivos são muitos. O que não falta é gente que “endireitou” as suas vidas por via do RSI. Aliás, esta medida, quando por cá foi implantada, já existia noutras geografias.
Contudo, quando o RSI chegou aos Açores, passou a interiorizar-se que o subsidio “ veio para ficar”. Até os mais novos, oriundos de famílias beneficiadas, perguntados o que gostariam de ser quando fossem grandes, respondiam “viver do rendimento”, como testemunhou um conhecido escritor açoriano.
Julga-se colher unanimidade que é através da educação e do aumento do nível cultural, que o problema da pobreza poderá ser resolvido, pois não se trata duma fatalidade mas apenas duma condição, mitigada ao longo dos séculos pelas sucessivas correntes emigratórias.
 Como esta proposta de solução já tem alguns anos e o problema da pobreza subsiste, as “teorias da conspiração” aí estão. Vão desde, dá muitos empregos e votos, até à observação que o aumento da escolaridade poderá fazer perigar os privilégios de alguns.
Por outro lado, apesar de alguns “sinais”, é difícil aceitar que existam ou tenham existido, ao longo deste tempo dos Açores Democráticos, aproveitamentos eleitorais da pobreza. Que a ser verdade seria gravíssimo, e colocaria em causa as instituições.
Mas lá está, voltamos a estigmatizar localidades. Sempre as mesmas do costume. Os seus habitantes não merecem, assim como as diversas associações que se dedicam ao bem comum. 
Ainda se ouve por aí “são pobres porque querem, vão mas é trabalhar”. Exclamação que afasta qualquer solução, porque inibe a busca da raiz do problema, tornando-o uma inevitabilidade.
Voltamos a dar a palavra ao Papa Francisco, que para além de nos inquietar, nos interpela e comove: “Quantas vezes vemos os pobres nas lixeiras a catar o descarte e o supérfluo, a fim de encontrar algo para se alimentar ou vestir! Tendo-se tornado, eles próprios, parte duma lixeira humana, são tratados como lixo… aos pobres, frequentemente considerados parasitas da sociedade, não se lhes perdoa sequer a sua pobreza...”.
E a Igreja nos Açores? Não é conhecida qualquer referência à exortação papal, a não ser a interpelação feita pelo Serviço Diocesano da Pastoral Social aos diversos centros paroquiais para responderem ao inquérito até ao final do mês de Novembro passado, que pretendia “tomar o pulso” à acção concreta dos centros na intervenção social, para que se pudessem avaliar o que tem sido feito e projectar acções futuras, uma vez que “a pobreza continua a ser um dos problemas estruturais dos Açores”.
A Pandemia veio agravar a situação dos mais vulneráveis, nomeadamente os pobres ou os que viviam no limiar da pobreza.
Enquanto “há para aí”, quem procure afirmar que a situação não é assim tão grave, a comunicação social, aqui há dias, noticiava o gesto de Monsenhor Weber Machado Pereira, conhecido como o Padre dos Pobres, que com o dinheiro resultante da venda da sua habitação, havia adquirido 1700 cabazes alimentares, solicitando às várias ouvidorias de S. Miguel a sua distribuição pelas famílias mais necessitadas das diversas freguesias da ilha.
São dispensáveis os habituais argumentos do “ provérbio chinês” ou então “ isto não vai com caridadezinhas”. Haja pudor e vergonha! 
Enquanto a solução estrutural tarda, é premente acudir à conjuntura.
Tal como o Papa Francisco, Monsenhor Weber não só incomoda, como interpela e inquieta. Pobre não é só um número, numa qualquer base estatística!
 

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Categorias: Opinião

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