8 de setembro de 2020

A Liberdade e a Democracia como ideais difíceis

 Estou seguindo com emoção a luta do Povo de Minsk e de toda a Bielorrússia pela Liberdade e pela Democracia. Já lá vão semanas desde as eleições aldrabadas, anunciadas como dando mais um mandato ao ditador em funções com 80% dos votos expressos, e as manifestações de contestação continuam, com gente nas ruas reclamando a demissão do dito cujo. Nelas se destacam as mulheres e muita gente nova, ostentando cartazes escritos em cirílico, incompreensíveis para quem não conhece sequer tal alfabeto, muito menos a língua, presumivelmente o russo, nos quais se contêm as suas reivindicações. A repressão tem sido brutal, com centenas de prisões, seguidas de tortura e maus tratos, com o efeito previsível de acentuarem a geral indignação.
O ditador russo está atento e não hesitará em intervir, como tem feito em outros países que considera incluídos na sua zona de influência, Geórgia e Ucrânia, por exemplo. Na primeira, após invasão e ocupação militar de parte do território, estão a ser reerguidas as estátuas de Estaline, em tempos apeadas no meio do entusiasmo causado pelo fim da União Soviética. Na segunda, a Crimeia foi anexada e uma parte do país é mantida sob pressão por supostas milícias, que mal disfarçam os uniformes do exército da Rússia. Qualquer veleidade de aproximação de tais países ao Ocidente têm sido e continuarão a ser travadas pelo poder de Moscovo.
Em face disto a União Europeia reage frouxamente, evidenciando a sua estrutural fraqueza militar e política. Se a NATO estivesse de boa saúde, talvez a credibilidade europeia fosse outra. Mas com o actual ocupante da Casa Branca, sempre tão atento, venerador e obrigado para com o ditador russo e outros de igual cariz, a fragilidade europeia torna-se óbvia e só apetece perguntar para que servem afinal o chamado Alto Representante para a Política Externa e o Serviço de Acção Externa, que encheu o mundo de embaixadores feitos à pressa, recrutados entre a privilegiada burocracia de Bruxelas, gastando milhares de milhões de euros em cada ano que passa.
As sanções europeias são dirigidas aos responsáveis do regime corrupto da Bielorrússia, mas têm reduzida eficácia. Mais significativas têm sido as iniciativas populares dos países bálticos vizinhos, cujos cidadãos também vêm para a rua, com os seus dirigentes políticos à frente, fazendo cordões humanos de solidariedade. Mostram assim o seu apreço pela Liberdade e pela Democracia, por eles não há muitos anos conquistadas, nos dias da derrocada do mito do comunismo e do imperialismo russo. Foram nessa altura fortemente apoiados pelos Estados Unidos, então sob a presidência de George Bush pai, onde as numerosas comunidades de emigrantes da Letónia, da Estónia e da Lituânia, fizeram valer o seu peso e importância.
Parecida é a situação em Hong Kong. A luta dos cidadãos, sobretudo jovens, pelo respeito das prerrogativas democráticas do território, herdadas da administração colonial britânica, dura há anos e conta já com muitas vítimas heróicas. A China não se tem eximido de mostrar a sua força, reprimindo os manifestantes dos guarda-chuvas sem dó nem piedade. E apesar disso eles voltam à rua, sabendo o que os espera, tendo certamente presente o que se passou em Tianamen há alguns anos atrás. O Governo de Pequim já deu a entender que não deixará de recorrer aos meios que julgar adequados para assegurar a tranquilidade num território que considera seu. E sabe que a força é afinal o derradeiro argumento nas relações internacionais, de modo que estamos todos avisados que diga o que disser o esforçado Secretário Geral da ONU o comunismo chinês impera... Aliás, não será em vão que  tal país detém direito de veto relativamente às resoluções do Conselho de Segurança.
Quando vejo estes casos de apego aos valores cívicos, e outros há, felizmente, indigno-me com a presente passividade dominante na Região Autónoma dos Açores. A abstenção nos mais recentes actos eleitorais atingiu níveis assustadores e as respostas até aqui apresentadas para solucionar o problema oscilam entre tornar o voto obrigatório, e portanto a abstenção uma falta sujeita a castigo, ou atribuir prémios, não especificados, a quem vota, como se o simples cumprimento de um dever cívico merecesse afinal retribuição. Ora, nas primeiras décadas da nossa Autonomia Democrática o Povo ia votar, apreciava o desempenho das suas responsabilidades na definição dos rumos colectivos, que é isso que se joga nas eleições.
Facilitar o voto, recorrendo ao voto electrónico, não presencial, como alguns reclamam, não me parece boa ideia. A Liberdade e a Democracia valem bem o esforço de sair de casa no dia das eleições, faça sol ou chova a potes, para ir votar. Os habitantes da Bielorrússia e de Hong Kong reclamam os direitos que nós gozamos há quase meio século e para tal enfrentam barreiras policiais, bombas de gases lacrimogénios, canhões de água, arriscam ser presos e até espancados duramente. A nós, Açorianos e Açorianas, só se nos pede para irmos, pacificamente, votar.


(Por convicção pessoal, o Autor
não respeita o assim chamado
Acordo Ortográfico.)         

 

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Categorias: Opinião

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